A Bolsa desabou. Você precisa se preocupar?

A Bolsa de Valores desabou. Aliás, os últimos dias têm sido difíceis para as bolsas. O Ibovespa já acumula mais de 40% de desvalorização desde a sua máxima histórica atingida em janeiro deste ano. Nos índices americanos e em outras das principais bolsas do mundo, os números não estão diferentes.

Estamos no meio de uma grande onda de mau humor dos mercados e você deve estar se perguntando: quando isso vai acabar? Até onde as bolsas vão cair?

Sinto muito se você está lendo este texto com a expectativa de que eu lhe diga o que vai acontecer amanhã ou nas próximas semanas. De fato eu não sei. Ninguém sabe. Nem o Warren Buffett, nem analistas renomados ou profetas do Twitter.   

Porém, sei o que vai acontecer nos próximos anos e vou revelar aqui. Para você ficar tranquilo e não pular direto para o final, segue o spoiller: as notícias serão boas!

Mas, antes disso, vamos falar um pouco do contexto da volatilidade das bolsas.

Quando falamos em bolsas de valores, normalmente as representamos através de índices. No Brasil, o mais famoso é o Ibovespa, que mede a variação das principais empresas que têm ações listadas na B3, que é a Bolsa Brasileira. 

Quando o Ibovespa cai, significa que as ações das empresas que fazem parte dele, na média, tiveram uma variação negativa. O problema é que, no curto prazo, muitas coisas podem fazer estas ações subirem ou descerem. O curto prazo é cheio de ruídos que pouco importam ou tormentas que importam, sim, mas que se dissipam com o tempo. 

O coronavírus é uma tormenta e tem causado impacto nas economias de diversos países, dentre eles o Brasil, que já teve sua projeção de PIB de 2020 reduzida em 0,3%. E pode ter mais.

Para continuarmos no raciocínio, é preciso falar sobre a dinâmica de empresas listadas em bolsa e aquelas não listadas também. Para isso, darei um exemplo fictício.

Investindo na padaria do seu bairro

Digamos que surja a oportunidade de você virar sócio da padaria do seu bairro. É um bairro que está crescendo e que logo estará repleto de pessoas fanáticas por pães, sonhos, bolos e tudo o que uma boa padaria oferece. Esta padaria vale, hoje, R$ 100 mil e, na sua análise, em 10 anos ela poderá valer mais de R$ 1 milhão. Pois tudo indica que o bairro ficará gigante, a padaria se tornará o local mais famoso e venderá, por dia, mais de 5 mil pães. 

Você, então, investe R$ 10 mil e passa a ser dono de 10% da padaria. Este investimento acontece no dia 1 de janeiro de 2020. No dia seguinte, na semana seguinte ou no mês seguinte, você vai abrir uma tela de cotações para verificar quanto está valendo a padaria? Não. Vai querer ver qual o valor da ação da padaria? Não. 

E não só porque não é possível, pois ela não tem ações listadas na Bolsa, mas principalmente porque seu investimento foi feito pensado para daqui a 10 anos. Você está investindo no crescimento da empresa no longo prazo. 

Se a prefeitura realizar uma obra na rua em frente e isso dificulte o acesso ao local, resultando em uma diminuição de 25% nas vendas de pães durante dois meses? O valor da padaria vai diminuir? Você vai vender a sua participação? Espero que diga não. 

Uma empresa que não tem suas ações listadas em Bolsa não tem seu preço marcado todo o dia, segundo a segundo, e, por isso, não sofre com o sobe e desce desenfreado das empresas que são listadas lá.

A queda nas taxas de juros tem feito muitos brasileiros descobrirem o fantástico mundo do investimento em ações, mas eu prefiro falar investimento em empresas, pois deixa a coisa mais real. 

Você não deveria investir em um número, assim como na roleta em um cassino. Você investe em empresas, negócios, pessoas, produtos, processos, máquinas, serviços, logística, tecnologia, o que for. 

Espero que, ao perceber que você está investindo em empresas e não em cotações piscantes, estas mesmas cotações passem a importar bem menos no curto prazo. Idealmente, que passem a importar ZERO! 

Por quê?

Porque tormentas podem acontecer e reduzir preços no curto prazo. Mas, se você está investindo com pensamento de longo prazo, será muito bem recompensado. E isto não sou eu que estou dizendo, é a história.

Confira, abaixo, o que aconteceu nas bolsas em grandes crises dos últimos 20 anos:

Ataque às Torres Gêmeas – Setembro de 2001

 – Queda na bolsa de -27,9% em 11 dias

 – Recuperação de +52% em 82 dias

 – Saldo final no ano: +9,6%

Crise do Subprime de 2008

 – Queda na bolsa de -45,12% em 31 dias

 – Recuperação de +76% em 150 dias

 – Saldo final no ano: -3,4%

Joesley Day (Delação do Joesley Batista) – Maio de 2017

 – Queda na bolsa de -12,17% em 2 dias

 – Recuperação de +26% em 86 dias

 – Saldo final no ano: +10,6%

Greve do Caminhoneiros – Maio de 2018

 – Queda na bolsa de -20,24% em 25 dias

 – Recuperação de +40% em 165 dias

 – Saldo final no ano: +11,6%

A missa que rezo sempre

O barulho do mercado não atrapalha o longo prazo, ilustração.

Todo início de mês, faço uma live no YouTube e Instagram da Warren para falar sobre o que aconteceu no mês anterior. Com certeza já foram mais de dez transmissões e, se você buscar qualquer uma delas, vai me assistir “rezando a mesma missa”. 

Os mercados se movimentam irracionalmente diversas vezes. Algumas delas para cima, quando sobem exageradamente em um movimento de euforia e daí estarão todos felizes cantando “não vai parar de subir”. Outras vezes para baixo, quando caem exageradamente em um movimento de pânico e aí escutamos que “é o fim dos tempos”.

Sempre foi, é e sempre será assim. 

Eu falo isso com propriedade. Pois eu estava na mesa, atendendo a clientes, quando a crise de 2008 surgiu. Quando o Lehman Brothers quebrou, quando ocorreram três circuit breakers no mesmo dia e todos falavam que o mundo entraria em trevas e não sairia delas por vinte anos. As pessoas estavam desesperadas e vendendo suas ações a preço de banana. 

Lembro de ter ido neste mesmo dia almoçar em um shopping da cidade. Queria ir pra longe do meio da loucura da mesa de operações por um momento. Aproveitei que estava no shopping e entrei nas Lojas Renner. O preço das ações dela na Bolsa estavam com queda de 25% naquele dia mas, dentro da loja, uma fila de pessoas comprando. Nada do pânico do mercado estava refletido lá dentro.  

Aquele, posso dizer, foi meu dia D. Quando percebi que o barulho do mercado claramente não atrapalha o longo prazo da Renner. 

O temor do coronavírus

O temor do coronavirus, ilustração.

Sim, nós estamos passando agora por uma crise. Estamos vivendo o pânico e as incertezas de uma pandemia mundial. E pouco tempo atrás estávamos todos na euforia das máximas histórias da Bolsa Brasileira. 

Aliás, há dois anos, em fevereiro de 2018, fiz um texto sobre porque as pessoas não deveriam vender tudo e comprar ativos na Bolsa. Ela estava subindo sem parar, todo mundo estava feliz e eu fiz o papel do estraga prazeres. 

Mais uma vez eu reforço: os mercados sobem e descem. Algumas vezes exagerando nas altas, outras exagerando nas quedas. Mas, no longo prazo o que importa, de verdade, e que acaba precificando corretamente as coisas, é o resultado das empresas

É quanto cresceu, de um ano para outro, a venda de pães da padaria do bairro que você é sócio, de iphones da Apple, do faturamento em marketing do Google, de cervejas da Ambev, de camisetas da Renner, de motores da Weg. É isso. E no longo prazo, em uma carteira diversificada, esses números na média são sempre positivos.

Sempre foi, é e sempre será assim. 

Mas, Tito, o que eu faço?

Eu sei que é ruim ver o patrimônio investido em ações diminuindo, dá aquela dorzinha no estômago, mas o que está reduzindo é apenas o preço das ações e não a sua participação nas empresas. Então, fica calmo que a tormenta vai passar e se o seu plano é fazer investimentos mensais, aproveite e siga o plano, pois este é o melhor momento. Sempre com pensamento de longo prazo e respeitando seu perfil.  

Nosso gestor, Thomaz Fortes, fala sobre isso com frequência nos textos que escreve aqui na Warren e nos vídeos que produzimos com ele, mas vou repetir: a melhor coisa a se fazer é manter a sua estratégia e respeitar o seu perfil de investidor.

Insisto. Fique calmo e siga a estratégia. São nestes momentos que as ações passam das mãos dos apressados para as mãos dos pacientes e que no longo prazo terão muito mais performance. 

* Texto escrito por Tito Gusmão, CEO da Warren Brasil