A compra da felicidade

Talvez você já tenha visto uma animação de Steve Cutts sobre a busca incansável de um rato pela felicidade. Se não viu, assista aqui.

Nessa animação, Cutts apresenta a estética da pressão por uma vida sempre feliz. Todos queremos a liberdade dessa corrida dos ratos, mas é preciso dizer que a solução não é óbvia. A corrida acontece pois, do ponto de vista econômico, tudo o que o chamado agente econômico busca ao consumir é a maximização da utilidade.

A utilidade, em termos gerais, é a satisfação ou a felicidade. Como o economista Paul Krugman afirmou: “no fundo, economia não é sobre riqueza, é sobre a busca pela felicidade”.

Outro autor fundamental nos Estados Unidos, o economista Irving Fisher já escreveu que “toda a atividade produtiva e todas as transações monetárias que dela decorrem derivam da importância que possuem somente na condição de preliminares úteis e necessárias da renda psíquica — da satisfação humana”.

O que queremos aumentar é a nossa renda psíquica. Aquilo que gera recompensa em nossa mente.

Então, a pergunta que gostaríamos de entender mais é: ganhar mais dinheiro traz felicidade? Especificamente, ter mais renda gera felicidade? Existem várias respostas.

As pesquisas dos últimos anos trazem informações muito interessantes. Até mesmo estimativas de valor exato de renda anual já foram encontradas. Mas, segundo os pesquisadores da área, muitas respostas ainda não são realmente conclusivas. Ok. Mas o que podemos dizer com segurança? Sem dúvida, ter renda ou patrimônio para satisfazer as necessidades básicas, como nutrição e moradia, tem forte impacto positivo no bem-estar, em qualquer sociedade ou cultura. O crescimento da renda absoluta faz muita diferença nesse nível de satisfação.

Ter, portanto, segurança financeira faz alguém mais feliz. Como conquistar isso? Gastando menos do que ganha. Depois, criando objetivos de ter de 6 a 12 meses de sua renda mensal como uma reserva de emergência. Aumentar isso. Ter um seguro de vida seu para sua família. Construir uma renda passiva com o tempo, seja via dividendos, fundos imobiliários, participações em empresas de capital privado. Evitar se alavancar na sua vida pessoal, contraindo dívidas para ter imóveis maiores e outros bens que exercem pressão crescente na sua vida diária e dependência da renda mensal ou o corroer do patrimônio.

Porém, a partir de determinado ponto, quando as necessidades biológicas e psicológicas básicas já estão satisfeitas, a complexidade aparece. Uma das pesquisas mais importantes nesse campo é a escrita por Daniel Kahneman, psicólogo experimental Nobel em Economia, e Angus Deaton, no centro para saúde e bem-estar da Universidade de Princeton. Eles relataram uma análise de mais de 450 mil respostas para o Índice Gallup de bem-estar e saúde, uma pesquisa baseada em respostas diárias com mais de mil residentes americanos, conduzida pela Organização Gallup.

Para entender melhor e desfazer mal entendidos, essa pesquisa fez duas diferenciações no bem-estar subjetivo – a renda psíquica que queremos aumentar – que são:

  1. Avaliação da própria vida: se refere aos pensamentos que as pessoas possuem sobre a vida delas quando pensam sobre sua existência
  2. Bem-estar emocional: se refere à qualidade emocional do dia a dia de um indivíduo, isto é, a freqûencia e intensidade das experiências de alegria, tristeza, estresse, ódio e afeto que fazem a vida de alguém ser prazerosa ou desprazerosa.

Podemos responder à pergunta do dinheiro comprar felicidade de forma separada para cada um desses aspectos. Até que ponto então o valor de renda absoluta faz diferença para cada uma delas?

Nas pesquisas em meados de 2009, depois de chegar a $ 75 mil anuais, não há mais aumento de bem-estar emocional. Setenta e cinco mil dólares, em Paridade de Poder de Compra do último dado do Banco Mundial, equivale a R$ 151.875,00, o que dá em torno de R$ 12.600 mensais atualmente. Veja como isso é bem diferente da taxa de câmbio atual, em torno de USD/BRL $4,20, o que daria R$ 315 mil anuais.

Não há ganho emocional no dia a dia após esse limite. O máximo de satisfação emocional se encontra aí. Após isso, faz diferença o estado de saúde da pessoa (quanto mais, melhor se sente), se ela cuida de alguém
com necessidades ou não (ser cuidador é desafiador emocionalmente), se é solitária (solidão é associado às emoções dolorosas), se fuma (se fumante, piora as emoções). Esses são potentes preditores das emoções
diárias.

Se fizermos uma leitura descuidada dessa e outras pesquisas, diríamos que, além desse nível, o dinheiro “não compra felicidade”. Mas isso não é verdade, segundo as evidências.

Basta utilizar o logaritmo da renda para não cair nesse erro, que é facilmente cometido ao analisar um gráfico de renda bruta contra avaliação de vida. Portanto, para o item avaliação da própria vida, há ganhos além de US$ 75 mil. E eles não declinam.

Além disso, é importante ressaltar que esses números se referem à renda estável. É claro que mudanças abruptas irão afetar o bem-estar, seja para o aumento ou a diminuição forte da renda. Contudo, tais efeitos se estabilizam com o tempo.

Concluindo

Após certo nível, alta renda aumenta a avaliação da vida mas não o bem-estar emocional. Baixa renda, por outro lado, exacerba a dor emocional associada aos infortúnios como divórcio, doença, e ser sozinho, como Kahneman escreve.

Se analisarmos que, segundo o Bureau of Economic Analysis, aproximadamente 83% dos americanos individualmente ganham menos do que US$ 75 mil anuais, em torno de 42% deles ganham até US$ 25 mil por ano, e o rendimento médio mensal no Brasil no 3o trimestre de 2019 foi de R$ 2.298,00 (ou R$ 27.576,00 anualizado), concluímos que boa parte dos americanos e a maioria da população brasileira está muito distante
dos aproximados R$ 151 mil anuais.

Para aproximadamente 90% da população brasileira, é absolutamente racional crescer a renda. Portanto, uma enorme parcela da felicidade, para a maior parte dos brasileiros, pode sim ser comprada.

* Esse texto faz parte da nossa Warren Magazine, um conteúdo que é enviado mensalmente a todos os nossos clientes.