Abraçando a diversidade e a inteligência de viver sem preconceitos

Se existe uma coisa que sempre me fascinou, foi conviver com pessoas inteligentes

No início de minha carreira de professor, acreditava que essa característica era o fator que mais contribuiria para prever o sucesso dos meus alunos.

Lá nos anos 1980, o conceito de inteligência ainda era fortemente vinculado aos testes de QI, derivados da escala Binet-Simon, que media a rapidez e a habilidade para raciocinar, planejar, resolver problemas e pensar de forma abstrata. 

Só que o tempo foi passando e poucos dos alunos que eu considerava muito inteligentes de fato alcançavam o sucesso.

Nos anos 1990, conheci uma nova forma de olhar para a questão. O psicólogo Howard Gardner criou o conceito de inteligências múltiplas

Em resumo, trata-se da ideia de que não há apenas uma, mas várias inteligências em diferentes campos das habilidades humanas. 

Então passei a acreditar que a maneira de medir essas habilidades é que estava errada e que, se medidas de forma correta, seria verificada sua predição para o sucesso profissional.

Durante alguns anos, acompanhei jovens que eram aprovados nos processos de trainee de uma grande empresa. Eram selecionadas pessoas excepcionais: por qualquer critério que se tentasse medir, elas eram muito inteligentes.

Estranhamente, vários dos selecionados acabavam abandonando a instituição muito cedo, outros não conseguiam entregar todo o potencial que se esperava deles. Claro que alguns se davam muito bem, mas não no número esperado.

O poder do esforço

Foi então que voltei a refletir sobre a inteligência em sala de aula. Percebi que os alunos muito inteligentes geralmente precisam estudar pouco para tirar ótimas notas. 

Porém, há outros que precisam fazer um esforço enorme para conseguir notas boas. Esses estudantes se destacam não pela inteligência, mas sim pelo esforço. E é justamente no grupo dos esforçados que eu conseguia identificar um percentual maior daqueles que obtêm sucesso

Pessoas que não nasceram extremamente inteligentes, que não se enquadram nos padrões de beleza clássicos, que pertencem à maioria dos “não brancos”, que não obedecem padrões sexuais dominantes, que têm peculiaridades cognitivas ou físicas, que não têm um corpo atlético ou que não tiveram a sorte de nascer em famílias das classes econômicas mais elevadas precisam lutar muito para sobreviver na vida escolar – ou até na vida cotidiana.

Sem romantizar o sofrimento advindo da falta de inclusão, observo que essa luta por um lugar ao sol faz com que muitos tenham garra e resiliência para suportar a pressão imensa que há em uma carreira corporativa. 

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A inteligência de viver sem preconceitos

Diante disso, tenho visto com enorme alegria as empresas abrindo as portas de carreiras promissoras para grupos sociais que não se enquadram nos estereótipos de maior privilégio. 

É claro que, se as companhias selecionam candidatos das universidades de elite e exigem inglês fluente ou vivência no exterior, vão eliminar na largada uma ampla gama de pessoas que não vieram das classes mais altas.

Sem dúvida, alguém que não nasceu em berço privilegiado pode passar em uma universidade de elite, aprender inglês e ter vivência no exterior. 

Só que estaríamos falando de uma rara exceção. Infelizmente, as limitações das nossas escolas fazem com que diamantes sejam jogados na pilha de cascalho.

Não defendo que se deixe de abrir espaço para pessoas bem formadas, porém acredito que as empresas ganharão muito oferecendo oportunidades também para jovens cheios de garra, cujas histórias sejam diferentes do ideal das propagandas de margarina.

Existe uma história de que os japoneses, quando pescavam muito longe da costa, para conservar o frescor dos pescados, mantinham os animais vivos dentro de tanques. Mesmo assim, os peixes chegavam na costa sem o sabor fresco.

Para resolver o problema, os pescadores passaram a colocar pequenos tubarões dentro dos tanques, assim, os outros peixes precisavam se mexer muito para não ser devorados pelos tubarões. 

A moral da história é que só lutamos quando somos desafiados.

Algumas empresas realmente acreditam no potencial da diversidade, outras estão abraçando a causa apenas porque são pressionadas pela opinião pública.

Tenho convicção de que logo elas vão perceber que se abrir para a diversidade não é favor, é inteligência

E a inteligência para viver sem preconceitos é algo que continua me fascinando.

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