Bolha da internet: entenda o que motivou a bolha ponto com nos anos 2000 e as lições que ficaram

Os primeiros anos da década de 2000 foram marcados por uma crise financeira que ficou conhecida como a bolha da internet, ou “bolha ponto com”.

Assim como qualquer bolha, como a crise do subprime, o fenômeno foi caracterizado pela supervalorização rápida e artificial de ativos financeiros sem valor real para sustentar a especulação do mercado.

Neste caso, a bolha se formou nos EUA em torno de empresas de serviços online, em um período em que as conexões de banda larga apenas começavam a ser implementadas no mundo.

A bolha da internet estourou no início do ano 2000 e gerou consequências catastróficas para investidores e empresas, muitas delas recém-criadas e forçadas a fechar as portas.

Neste artigo, vamos explicar como a bolha ponto com surgiu e estourou, quais efeitos ela causou e quais lições podemos tirar desta crise. 

Confira!

O que foi a bolha da internet?

O que foi a bolha da internet, ilustração

A bolha da internet foi uma crise financeira decorrente da hipervalorização das ações de empresas de tecnologia nos EUA, em grande parte sustentada por especulação.

O nome “bolha ponto com” é uma sátira à especulação e excesso de confiança do mercado na época, quando se dizia que os investidores aplicariam em qualquer empresa que tivesse “.com” no nome.

O principal palco desta crise foi a Nasdaq, bolsa americana com foco em tecnologia e inovação que lista muitas das maiores techs do Vale do Silício até hoje.

Após um período de inchaço do setor de serviços online nos anos 90, muitas empresas que haviam crescido exponencialmente com capital especulativo mostraram dificuldades em gerar lucro aos seus acionistas.

O resultado foi um pânico generalizado entre investidores, com grandes volumes de ações à venda e empresas cujo valor de mercado derreteu em poucos meses.

Os indícios de uma crise começaram a ficar mais nítidos a partir do ano 2000, e a bolha estourou efetivamente em 2001, causando prejuízos profundos a investidores e empresas.

Se ler isso hoje soa assustador, imagine como foi à época para quem tinha posições significativas na Bolsa de Valores.

A seguir, vamos entender, em detalhes, como a bolha da internet ocorreu.

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Como ocorreu a bolha da internet?

Como ocorreu a bolha da internet, ilustração

Agora que você já entendeu o que foi a bolha da internet, vamos descobrir, em detalhes, como e por que ela ocorreu.

Surgimento da internet

A internet comercial (a “World Wide Web”) foi criada por Tim Berners-Lee em 1991. Antes disso, na década de 80, as redes de transferência eram limitadas ao governo e acadêmicos.

A rápida expansão do acesso à internet ao longo da década de 90 fez florescer um amplo segmento de serviços online, incluindo varejo, finanças, jogos e comunicação.

Esta revolução tecnológica e comercial gerou uma certa euforia no mercado, seduzindo investidores com a perspectiva de lucros exorbitantes.

Desta forma, muitos investidores de risco ansiosos por “queimar a largada” começaram a despejar volumosos aportes em startups e empresas ainda em estágio embrionário.

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Inchaço da bolha

Entre 1995 e 2000, a sede dos investidores por empresas com foco em inovação deu origem a uma avalanche de novas empresas na Nasdaq

Neste período, a Nasdaq registrou mais de 2 mil IPOs e o índice Nasdaq Composite quintuplicou, passando de cerca de 1 mil pontos em 1995 para mais de 5 mil em 2000.

Vale destacar que muitos investidores ignoraram, de forma irracional, o fato de que diversas destas companhias não possuíam plano de negócios consolidado, ou sequer um produto.

Ofuscados pelo desejo de maximizar os lucros, boa parte dos acionistas negligenciou indicadores importantes das ações, como price-to-earnings, que já sinalizavam a baixa rentabilidade das companhias no curto prazo.

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O estouro da bolha

Em 10 de março de 2000, a Nasdaq atingiu a máxima recorde de 5.048.62 pontos. Esta data é considerada um divisor de águas no êxtase do mercado por empresas “ponto com”.

Após anos injetando recursos massivos no setor tecnológico, o mercado eventualmente seguiu seu caminho inevitável: os acionistas começaram a cobrar retornos das empresas.

No entanto, grande parte das companhias tinham pouca perspectiva de gerar lucros no futuro próximo.

Na disputa por cada vez mais aportes, algumas empresas chegaram a gastar mais de 90% do seu capital em publicidade, ignorando a estratégia de negócios e o desenvolvimento de produtos.

O sinal de alerta foi aceso na bolsa e o fluxo massivo de capital para empresas pouco sólidas começou a drenar, deixando investidores enterrados sob pilhas de ações que não davam retorno.

Considera-se que a bolsa estourou, de fato, em 2001, quando uma miríade de empresas fechou as portas em meio à crise especulativa.

O prejuízo sofrido pelo mercado entre 2000 e 2002 é estimado em mais de US$ 5 trilhões.

Em relação à máxima histórica de 10 de março, a Nasdaq sofreu um tombo de quase 77% nos dois anos seguintes. O patamar dos 5 mil pontos só seria recobrado em abril de 2015.

A política monetária dos EUA também contribuiu para a formação e estouro da bolha, ao retomar o aperto monetário (elevação dos juros) no ano 2000. 

No final da década de 90, o Fed (banco central americano) buscava aumentar a liquidez no sistema para suavizar os impactos do bug do milênio (Y2K).

Contudo, os estímulos fiscais e monetários estavam sendo aproveitados por investidores para injetar cada vez mais dinheiro em ações de techs, e o Fed iniciou o aperto monetário.

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Quais empresas foram mais afetadas pela bolha da internet?

Centenas de empresas que surgiram ou abriram capital no período do inchaço da bolha foram obrigadas a fechar as portas após o estouro da bolha.

Algumas das empresas que estrearam na bolsa na época e faliram foram Webvan (delivery), Pets.com (pet shop), eToys (brinquedos) e theGlobe.com (redes sociais).

Já as cinco techs que lideraram o mercado durante a bolha da internet — Microsoft, Cisco, Intel, Oracle e IBM — sobreviveram à crise, embora também tenham sentido os prejuízos.

Outras empresas que resistiram à quebra total após o estouro da bolha, mas ainda registraram perdas profundas, foram Amazon e eBay.

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Que lições a bolha da internet deixou para os dias atuais?

Que lições a bolha da internet deixou para os dias atuais, ilustração

Agora que você entendeu como a bolha ponto com ocorreu, vamos desdobrar algumas lições que o evento deixou para o mercado de capitais.

Valor de mercado não é geração de caixa

Durante o inchaço da bolha da internet, os investidores se guiaram majoritariamente pelo preço das ações e buscaram as empresas que se valorizavam mais rápido.

Contudo, como mencionamos, muitas companhias não ofereciam qualquer garantia de lucro no futuro próximo, sendo precificadas mais pelo timing do mercado do que pela atratividade.

É importante ter em mente que o valor de mercado de uma empresa, como o próprio nome deixa claro, representa o valor que os agentes do mercado atribuem àquele negócio.

Este valor é muito dependente de expectativas e sujeito a percepções individuais, e não representa a rentabilidade da empresa no curto, médio ou longo prazo.

A geração de caixa, a receita e o patrimônio de uma empresa sempre devem ser considerados para estimar a solidez e rentabilidade de qualquer negócio.

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O Venture Capital nem sempre acerta

A euforia do mercado foi, em larga escala, alimentada e amplificada por investidores com foco em Venture Capital.

Esta modalidade de investimento tem como objetivo injetar recursos e desenvolver empresas com propostas promissoras, e é considerada altamente arriscada.

O estouro da bolha da internet é uma prova sólida de que uma companhia não vai disparar, necessariamente, apenas por estar recebendo aportes de investidores qualificados.

Para alguns analistas, a crise subsequente poderia ter sido menos grave ou mesmo evitada se tantos investidores não tivessem confiado cegamente nas decisões de venture capitalists.

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Diversificar é sempre essencial

Seja qual for o seu estilo, renda ou interesse como investidor, é sempre fundamental ter em mente que empresas estão expostas a riscos de mercado que nem sempre são previsíveis.

Segundo algumas estatísticas, em 1999, quase 40% dos investimentos de venture capital foram destinados a companhias de serviços online.

Esta concentração muito alta de recursos em um setor específico foi um dos fatores que, além de ajudar a formar a bolha, agravou o quadro quando ela estourou.

Assim, independente do quão promissor ou seguro um ativo pareça, nunca se deve apostar todas as suas fichas nele — ou, em jargão de mercado, “depositar todos os ovos na mesma cesta”.

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Existem sinais de alerta — fique atento a eles

Em dezembro de 1999 — poucos meses antes da máxima histórica da Nasdaq —, o então presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, alertou os agentes do mercado sobre a sua “exuberância irracional”.

A intenção de Greenspan na época não era insultar investidores, e sim chamar a atenção para o excesso de confiança e a busca pelo maior valor de mercado, ignorando dados importantes sobre a lucratividade de um setor ou ativo.

Uma dica prática é sempre desconfiar de ativos com valorização desproporcional, como ações que dobram ou triplicam de valor em períodos muito curtos.

Quando todo um segmento parece crescer rápido demais para ser verdade, provavelmente haja mesmo algum problema.

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Há risco de uma nova bolha das techs no cenário atual?

O próprio Alan Greenspan também é autor de uma célebre frase no mercado: “É fácil identificar uma bolha; basta esperar ela estourar”.

Com estas palavras, Greenspan sugere que é difícil detectar todos os sinais da formação de uma bolha, e que a confirmação costuma ocorrer tarde demais.

Nos últimos anos, multiplicaram-se as análises sobre uma possível nova bolha das techs, além de bolhas de criptomoedas e de títulos públicos.

Os IPOs extremamente lucrativos de startups tecnológicas, como Uber, Airbnb, Coinbase e DoorDash, podem indicar uma crença do mercado de que tecnologia sempre significa lucro.

Por outro lado, a grande maioria dos analistas avaliam que a bolha da internet dos anos 90 envolveu muito mais “hype” do que análise de fundamentos, o que contrasta com o cenário atual de investimentos guiados por dados cada vez mais complexos.

Além disso, a valorização das startups tecnológicas atuais é atribuída, em boa parte, às medidas de isolamento durante a pandemia que geraram demanda por uma ampla gama de serviços digitais.

De forma geral, há muito alarde e pouco consenso sobre a existência de uma bolha nas techs atuais. 

Ainda assim, as lições que tiramos do estouro da bolha ponto com continuam sendo úteis para identificar riscos de distorções cognitivas no mercado.

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