Duas faces da mesma moeda: como o mercado contornou a crise causada pela pandemia

Doze meses atrás, quem imaginou que poderíamos dizer que o mercado contornou a crise, renovando máximas em 1º de abril de 2021?

Apesar da coincidência da data, não é mentira ou brincadeira. Muitos de nós não enxergávamos uma rápida recuperação das bolsas de valores no mundo em um curto espaço de tempo.

Se as experiências pessoais da pandemia foram bastante diversas para cada um de nós, os últimos 12 meses foram sensacionais para muitos investidores.

Nos Estados Unidos, os três principais índices bateram patamares históricos recentemente: o S&P 500 foi a 4 mil pontos, o Dow Jones a 33 mil pontos e o Nasdaq a 13 mil pontos.

No Brasil, o Ibovespa rompeu topos históricos a 125 mil pontos em meados de janeiro, sustentando-se atualmente acima de 116 mil pontos.

Esse cenário de renovação de máximas só foi possível graças ao avanço da vacinação e à onipresença do banco central norte-americano. Sim, essa é uma história sobre como o Federal Reserve mudou o mundo em 2020.

O importante papel do Fed, o banco central dos EUA

Para comemorar a estranha natureza dos investimentos nesses últimos 12 meses, vamos fazer uma retrospectiva dos principais momentos e temas que marcaram o mercado pós-Covid-19.

Há pouco mais de um ano, o Ibovespa tocou o fundo do poço. Em 23 de março de 2020, o índice chegou a ser negociado nos 61 mil pontos, a sua menor pontuação desde 2017.

Este foi um dia considerado marcante. O principal índice brasileiro acumulava uma queda de 45% no mês.

Naquela semana de 23 de março, Nova York foi declarada como novo epicentro mundial, o Reino Unido entrou em “lockdown” e o Japão adiou a Olimpíada de Tóquio.

Este era o prenúncio de um ano negativo. Um vírus desconhecido parou o mundo e não sabíamos ao certo como lidar ou o que esperar. Duraria semanas? Meses? Anos?

Para ganhar mais tempo, foi necessário adotar uma postura mais dura e renunciar de muitas coisas, inclusive de estar perto de pessoas que amamos.

O ano de 2020 pode ser resumido adequadamente pelas palavras de abertura de “Um Conto de Duas Cidades”, de Charles Dickens:

“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; (…); foi a estação da Luz, foi a estação das Trevas; foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero.”

O mercado se encontrava em máximas históricas antes de sofrer com o choque da Covid-19. Em meio à incerteza global, os investidores recuaram em debandada em março de 2020. O movimento consagrou o “crash” da maior pandemia em mais de um século.

Em meio ao pânico e vários circuits breaker, a presença dos bancos centrais foi essencial para manter a economia em movimento e, dessa forma, evitar uma recessão generalizada.

O maior banco central do mundo, o Federal Reserve, tocou os sinos para acalmar o mercado. O Fed cortou suas taxas de juros e reiniciou a sua flexibilização quantitativa, a mesma que ajudou a tirar a economia da crise dos subprimes de 2007/2008.

A autoridade monetária aumentou a quantidade de compra de títulos no mercado e financiou cerca de US$ 4 trilhões em concessões e empréstimos. A resposta rápida foi fundamental para a recuperação nos meses posteriores.

Foi nesse ponto em questão que o Fed salvou o mundo. Ao recomprar os ativos no mercado, o banco central norte-americano imprimiu trilhões de dólares e se tornou o maior investidor do planeta.

O movimento financiou a atividade econômica dos Estados Unidos e, consequentemente, do mundo, transmitindo segurança e oferecendo liquidez aos investidores.

Com os investidores precificando que “o pior já havia passado”, faltava apenas um importante anúncio acontecer: a aprovação da primeira vacina. Ela veio em dezembro nos EUA e em janeiro no Brasil.

Com a emergência sanitária global, vivenciamos o mercado de capitais mais generoso de todos os tempos. Diante da enxurrada de liquidez e notícias sobre vacinas, os investidores ficaram mais confiantes em relação à recuperação econômica.

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O pote de ouro no fim do arco-íris

Quem deseja encontrar o pote de ouro, precisa saber como andar na chuva. O “crash” das bolsas em março criou grandes oportunidades para encontrar pechinchas de qualidade no mercado.

Warren Buffett tem uma frase que traduz uma importante lição a ser tomada em sua estratégia de investimento:

“A maioria das pessoas se interessa por ações quando todo mundo também está interessado. A hora de se interessar é quando ninguém mais está. Você não pode comprar o que é popular e achar que estava fazendo o certo para seus investimentos.”

O “oráculo de Omaha” é um forte defensor da ideia de “compre na baixa e venda na alta”. Qual o melhor cenário senão aquele de falhas do mercado ou durante crises econômicas?

Olhando para o caminho até aqui, traçamos a estrada dos quatro índices aqui abordados: Ibovespa, S&P 500, Dow Jones e Nasdaq.

A intenção é fazer um estudo qualitativo, por isso, os retornos estão cotados de acordo com a moeda local de cada um dos índices.

Gráfico comparativo: Ibovespa, S&P 500, Dow Jones, Nasdaq. Janeiro de 2020 a março de 2021.

Ao considerarmos o ponto de início no fatídico 23 de março de 2020, esses seriam os retornos dos índices até o dia 31 de março de 2021:

  • Nasdaq: +92,3%
  • Ibovespa: +73,1%
  • S&P 500: +70,3%
  • Dow Jones: +66,5%

Apesar de já ter frisado, é válido destacar novamente que os retornos do Ibovespa estão ajustados à moeda local, o real. Se comparássemos o índice dolarizado, a rentabilidade seria algo próximo de 59%.

Depois de um exemplo desse, comprar pechinchas de qualidade na baixa nunca fez tanto sentido, certo?

Vamos aprofundar mais a nossa análise. Que tal olharmos para as maiores altas e baixas do mercado de renda variável brasileiro nos últimos 12 meses?

Maiores altas e baixas do mercado de renda variável brasileiro nos últimos 12 meses. Locaweb, PetroRio, CSN, BTG Pactual, Cogna, TIM, Telefônica Vivo, Cielo, IRB Brasil.

Superada a crise, para onde vamos?

A loucura continua acelerada à medida que entramos no segundo ano de Covid-19. Com taxas de juros próximas de zero em um futuro previsível e as ações com preços altos, podemos encontrar um mercado de volatilidade em 2021.

Achar a joia preciosa não será uma tarefa tão fácil quanto foi em 2020. Quase todo mundo espera uma recuperação notável da inflação este ano — incluindo o próprio Federal Reserve. Imprimir tanto dinheiro tem seus efeitos colaterais. 

Os ciclos se movem rapidamente. As empresas da tecnologia e e-commerce não são mais as últimas bolachas do pacote, dadas as perspectivas otimistas para as ações cíclicas e de valor que têm acontecido nas últimas semanas.

Com a retomada da discussão do aumento de juros no médio prazo, as ações de “empresas de valor”, como bancos, transmissão e geração de energia elétrica e serviços públicos têm se destacado ante às demais.

O avanço da campanha de vacinação do Brasil é essencial para avaliarmos uma melhora na situação sanitária por aqui. 

No quesito econômico, olhando para o horizonte de 2021 e 2022, as casas legislativas precisam dar urgência à reforma do sistema tributário brasileiro. A economia brasileira está na UTI. 

É preciso arrumar a casa para receber investimento estrangeiro, mostrar que faremos a nossa parte organizando as contas públicas. O governo federal não tem um texto consolidado e o pouco que foi apresentado foi alvo de duras críticas (alô, recriação da CPMF).

Enquanto isso, respire fundo e se concentre no longo prazo. As turbulências seguirão e, quando elas surgirem bem na sua frente, encare-as como uma oportunidade.

Apesar de ser fácil estar do lado de cá, escrevendo sobre oportunidades que passaram, encare esse texto como um lembrete de que decisões corajosas feitas em condições desafiadoras às vezes trazem retornos inimagináveis.

Este texto foi publicado na edição de abril de 2021 da Warren Magazine. A Warren Magazine é um conteúdo enviado para os nossos clientes mensalmente.

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