Uma fera mítica da antiguidade e um monstro da vida real: uma crônica sobre a inflação

Na juventude, era comum ouvirmos histórias sobre heróis que se uniam para derrotar perigosos dragões

Quer um exemplo melhor do que a obra O Hobbit? Smaug é o nome do dragão que vivia nas masmorras da Montanha Solitária e, dentre várias atribuições, era incumbido de proteger um grande tesouro.

Os dragões são criaturas fascinantes: têm uma força fora do comum, uma altura gigantesca, um peso descomunal, conseguem voar e, de quebra, ainda cospem fogo pelas ventas.

O fato do dragão ser feito de sangue e, portanto, possuir água em seu corpo, é um paradoxo encantador dentro da ficção.

À medida que vamos crescendo, alguns monstros e histórias são desmistificados. “Como assim os dragões não existem?” 

Quando adultos, precisamos aprender a lidar com os fardos e as responsabilidades que a vida real traz consigo. 

Os monstros da vida real não são mais criaturas míticas daquelas boas histórias. Bons tempos! 

Mas, aproveitando essa nostalgia, te convido a fazer um exercício de imaginação

Um dragão da vida real chamado de inflação

Vamos supor que o nosso dragão da vida real seja a inflação

Ele não pode ser tão forte, a ponto de destruir nossos heróis, e nem tão fraco, a ponto de deixar o nosso tesouro desprotegido.

Aquele monstro, herdado da Antiguidade, deixa de ser apenas uma forma e se configura como força mitológica resultante da associação da metáfora conceitual de que “a inflação é um monstro” e, portanto, representa um obstáculo a ser vencido na jornada do herói, caso represente um perigo.

O dragão, que reúne consigo os quatro elementos — fogo, ar, terra e água —, encontrou em sua encarnação, a inflação, o fenômeno abstrato ideal para alimentar a sua personificação. 

Assustador, mas necessário.

A implicação imediata da metáfora é a existência de um herói, aquele ser bravo que irá combater o monstro, arriscando a própria vida. 

Este é o nosso plano monetário, encabeçado pelos bancos centrais.

Em 2020, enquanto víamos a atividade econômica mundial derreter, assistimos ao relaxamento da política monetária nunca visto antes na história. 

Apoiado em estímulos sem precedentes, uma ampla liquidez e um Fed comprometido com uma taxa de juros próxima a zero até dezembro de 2023, os bancos centrais adotaram um tom expansionista

O nosso dragão estava doente, dormindo em um sono profundo havia quase um ano. 

Era necessário aumentar a sua “suplementação” para fortalecê-lo. Mas com cuidado, afinal, ele não pode ficar forte a ponto de destruir tudo que visse pela frente. 

No entanto, algo mudou nas últimas semanas. 

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Um monstro prestes a despertar?

O clima estava diferente. Depois de um longo cochilo, enquanto sua prima, a deflação, causava pesadelos nos formuladores de políticas monetárias, hoje o dragão ameaça despertar dos sonhos. 

Há temores crescentes de que a inflação esteja prestes a retornar.

A melhora nos dados econômicos, o progresso nas vacinações e as crescentes pressões inflacionárias globais começaram a elevar as taxas de juros reais, que passaram a maior parte de 2020 em território negativo. 

Com a economia global prestes a emergir da pandemia nos próximos três a seis meses, as expectativas de longa data para as taxas de juros baixas e para a abordagem do Fed precisam ser revistas. 

Bom, ao menos é isso que o mercado espera. 

A expectativa de uma alta da inflação tem sido construída sob a maciça liquidez alimentada pelos bancos centrais, assim como as poupanças pessoais e corporativas saturadas e a demanda reprimida pela pandemia Covid-19.

Conforme mostrado no gráfico abaixo, representado pela mudança ano a ano (YoY) no Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Bureau of Labor Statistics dos EUA, qualquer pessoa que vivesse, trabalhasse e/ou tentasse progredir financeiramente na década de 1970 encararia um custo muito alto. 

Isso porque, naquela época, a inflação estava “super alimentada”. 

O Federal Reserve precisou reagir, pressionando os “Fed Funds” para cima, na tentativa de conter o dragão dentro da jaula.

Analisando a área criada pelos juros reais, conseguimos ver o esforço da política monetária. 

Quando negativa, o Fed tenta reanimar a nossa economia. A dosagem deve ser minuciosa ou podemos correr o risco de deixar o nosso dragão forte demais.

Veja este outro gráfico, que mostra uma relação entre as T-Notes de 10 anos e a inflação: o atual movimento de reprecificação dos títulos do Tesouro de 10 anos (T-Notes) é um dos sinais que prevê, prudentemente, a necessidade do Fed de recalibrar sua orientação “dovish” (termo que remete à adoção da política expansionista).

É possível ver esse movimento ascendente das T-Notes desde agosto de 2020, e ele reflete a expectativa do mercado em relação ao possível aumento da inflação norte-americana.

Observe que, atualmente, o rendimento do Tesouro dos EUA de 10 anos está em seu ponto mais alto desde o início da pandemia da Covid-19. 

Isso é significativo, tanto do ponto de vista técnico, quanto fundamental, pois esse movimento ascendente está produzindo ventos contrários para as avaliações supervalorizadas de ações de crescimento, como a Apple e Tesla, e também acelerando a rotação para ações cíclicas e de valor.

As probabilidades de crescimento e de inflação maiores do que o previsto podem ser mais do que transitórias e, talvez, forcem a mão do Fed, fazendo com que ele puxe a alavanca para mudar a sua orientação sobre compra/redução de títulos.

Há realmente motivos para temer?

No entanto, ali na arena, enquanto o dragão ainda parece inofensivo ao despertar de um sono profundo, é possível ouvir uma voz ecoar. 

O tom parece querer passar tranquilidade ao nosso herói derrotador de dragões. “O monstro ainda não representa perigo.

Janet Yellen, secretária do Tesouro de Joe Biden, e Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, afirmam, calmamente, que a economia está muito longe de alcançar as metas de emprego e inflação e é provável que leve algum tempo para que progressos substanciais sejam alcançados.

No campo também estão ex-colegas do Federal Reserve, que defendem que, se a inflação surgir agora, ela poderá ser tratada mais tarde com “ferramentas” ainda não especificadas. 

O famoso “depois a gente resolve”.

No ano passado, o Fed adotou uma abordagem que permite que a inflação fique em acima da média de 2% por um período de tempo, para que só depois sejam tomadas as devidas providências. 

Um sacrifício para fazer as rodas de emprego e da atividade econômica girarem novamente.

Se esse movimento perdurar por mais algum tempo, é possível que, em breve, vejamos o Fed pegar o seu Ascalon (espada de São Jorge) e utilizá-lo para adormecer o dragão mítico mais real da vida adulta.

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