A jornada da Warren | Capítulo 5

Fazendo a roda girar: como organizamos a construção do primeiro protótipo.

Dando continuidade à história da Warren, neste texto eu trago os primeiros passos que demos depois de termos formato o trio de fundadores. Nesta hora, já tínhamos o básico para botar a mão na massa: a ideia do que seria a Warren e fundadores especialistas nas áreas necessárias.

Mas o caminho entre uma ideia e a construção é gigante!

Ideias não valem nada. Você pode juntar um grupo de amigos, usar uns jogos para estimular a criatividade, distribuir cervejas para desinibir geral e em uma hora ou duas provavelmente surgirão dezenas de ideias fantásticas de negócios a serem criados. O problema é o dia seguinte. Levantar a bunda da cadeira para efetivamente começar a construir aquela ideia dá muito trabalho. Além de não ser tão divertido quanto apenas ficar discursando bêbado sobre o quanto ela vai mudar o mundo, não é?

Em todo o caso, nós já tínhamos passado desta fase, precisávamos começar e tínhamos várias missões. Criar um primeiro protótipo, a jornada do usuário, nossa persona, abrir uma empresa, o nosso why, conseguir as licenças legais para atuar no mercado financeiro americano, ter um logo, um nome também é importante (não tínhamos ainda o Warren), os portfólios, as conexões com bancos, corretoras, clearings, enfim, a lista era grande. 

Mas, antes disso tudo, precisávamos conhecer melhor as dores dos nossos futuros potenciais usuários. Como investiam, que decisões tomavam e porque tomavam, quais eram seus perfis, suas dificuldades e necessidades. Não queríamos começar a criar soluções da nossa cabeça sem antes fazer um bom trabalho de pesquisa que nos trouxesse as bases para construir a Warren. Então começamos por aí. 

Criamos uma série de perguntas e respostas a serem realizadas online e presenciais. Nossa meta seria falar com mil pessoas (ou o mais próximo disso) em até 45 dias. A maior parte delas seria online, usando uma plataforma para capturar as respostas e posteriormente convidando de forma aleatória algumas pessoas para uma conversa mais extensa pelo Skype. Realizamos, também, encontros presenciais em formato de Meetups. 

A cada etapa, cada pesquisa e cada papo, evoluímos na nossa análise das dores e perfis de cada um e usávamos esse aprendizado para as pesquisas à frente. Com isso, conseguimos refinar o processo a ponto de chegar um momento que as entrevistas já não agregavam mais. Nós já sabíamos os perfis de cada um e como construir a jornada deles dentro da Warren (ou pelo menos a jornada inicial).

Deu um trabalho infinito, mas nós aprendemos a fazer e gostamos tanto desses “laboratórios”, que repetimos em outras oportunidades da nossa história. Quando levamos a Warren para o Brasil, quando lançamos novidades e novos produtos na plataforma e, inclusive, rotineiramente para entender sempre melhor os nossos clientes e potenciais clientes.

Dessa jornada nos EUA, chegamos a 8 perfis comportamentais dos investidores, indo dos mais desligados com relação a investimentos aos mais antenados. Em comum, todos queriam uma solução fácil de investir, alguns com mais, outros com menos customização e informação. E queriam que tivesse uma experiência digital incrível, mas sem perder o contato com o ser humano. 

Então, nós entendemos as duas principais premissas que a plataforma precisava ser:

Descomplicada, mas completa

A usabilidade seria fácil, mas oferecendo informações e nível de customização que cada perfil demanda. Porém aqui a “brincadeira” de empreender começa. No início não dá pra abraçar o mundo. Você precisa começar pequeno, bem pequeno, focado em cozinhar o feijão com arroz para o grupo de potenciais clientes que ficam felizes com o feijão com arroz. Usando outra comparação que sempre usamos aqui na Warren: primeiro você precisa construir o patinete para depois (depois de um bom tempo) chegar na Ferrari. 

Então, mesmo sabendo que inicialmente perderíamos uma boa fatia do público que gosta de ter mais poder, começamos nosso protótipo em uma versão mais básica (inclusive foi muito parecido com essa versão básico que iniciamos no Brasil), já prevendo que a plataforma teria uma versão 2.0 mais completa, com mais customização e mais produtos. Hoje, tenho muito orgulho de dizer que estamos na versão 3.0 que está infinitamente mais completa do que nós três projetamos naquela época.

Online, mas pessoal

Precisávamos entregar uma experiência digital fantástica, mas sem perder o “ser humano” do processo. A plataforma precisava se portar quase que como uma pessoa e por isso resolvemos criar um fluxo guiado por um chatbot (isso foi em 2014, antes de chatbots virarem coqueluche) e para completar o tom de pessoalidade, a plataforma não podia ter nomes pomposos ou futuristas, o nome da empresa precisava ser o nome de uma pessoa. Em outro capítulo conto o porquê do nome Warren e como ficamos preocupados se esse nome funcionaria no Brasil.

Unindo as duas premissas, a missão seria criar uma experiência descomplicada (e futuramente completa), que seria guiada por um “mentor virtual”. 

Notamos que o primeiro grande atrito na hora de investir era selecionar os produtos de investimento. Você abre a conta em um banco ou corretora e tem a disposição uma prateleira infinita de produtos. Mas e aí? Qual escolher? É como eu entrando em um supermercado para comprar um shampoo. Se existe uma opção eu sei o que fazer. Se existem duas opções, perco 5 minutos decidindo. Se existem 50 opções eu vou embora sem comprar nada. 

Que produto você vai investir se existem centenas de fundos, ações e títulos de renda fixa? Esta é uma decisão muito difícil e a única forma de resolver seria mudar essa etapa. Ao invés de decidir em qual produto investir a decisão seria: para que você quer investir? 

Quer se aposentar? Quer mandar os filhos pra faculdade? Quer construir uma reserva de emergência? Quer fazer um mochilão na europa? 

Quais são os seus objetivos? 

É muito mais fácil que as pessoas saibam seus objetivos do que saibam qual produto investir. Então a seleção seria por qual objetivo e o “trabalho sujo” de construir o melhor asset allocation, selecionando os melhores produtos, seria da Warren. 

Com um material denso de pesquisa, que poderia ser usado por qualquer grande empresa de investimentos, tínhamos insumo suficiente para construir uma plataforma super profissional e completa. Mas, reforçando, a primeira etapa seria o nosso patinete. Na verdade a versão anterior a ele. O que precisávamos era construir o protótipo do patinete. Precisávamos montar para apresentar em uma das duas feiras que viriam pela frente, a Finovate e a Collision. Seria nossa forma de validar se estávamos no caminho certo. Montamos o nosso cronograma para isso.

Lá foi novamente o Trello a ser preenchido com as tarefas e prazos de cada um. Se você não conhece o Trello, eu acho que ele é uma salvação para empresas em processo inicial. Hoje já usamos um sistema mais sofisticado, mas o Trello foi nosso melhor amigo por muito tempo. O Trello (trello.com) é uma plataforma para montar TO DOs e Kanbans de forma super fácil e eficiente.

Tínhamos as tarefas com prazos para cada um e duas reuniões sagradas semanais (uma terça à noite e outra sábado de manhã). O trello e as reuniões semanais foram os que nos deram eficiência e disciplina para conseguir vencer a distância e construir o início da Warren em meio à rotina dos nossos trabalhos oficiais.

Mas a construção do protótipo não era trivial e a tal rotina dos nossos trabalhos oficiais consumia muito do nosso tempo. Nós não conseguiríamos absorver sozinhos e precisávamos de ajuda. Por isso eu, que havia assumido o papel de financiador do início do projeto, fui atrás de contratar freelancers.

Buscando indicação da indicação e conversando com algumas várias pessoas, conseguimos achar três ótimos desenvolvedores: um baseado em NY para back e outros dois de front no Brasil. As linhas de código ganharam velocidade, a roda começou a girar e estava chegando a hora de cair fora do trabalho “oficial”.

É isso que vou falar no próximo capítulo, o momento em que saí da empresa que eu não aguentava mais e pude me dedicar a Warren.