O improviso que deu origem à Ferrero, uma das maiores empresas de chocolate do mundo

Estamos no cenário pós-segunda guerra mundial, na pequena comuna italiana de Alba, na região do Piemonte.

Em uma Europa empobrecida e dizimada pela guerra, Pietro Ferrero busca alternativas para sustentar sua família, formada pela esposa Piera Cillario e o filho Michele Ferrero.

O casal humilde possui habilidades de confeitaria, mas, assim como outros produtos considerados não essenciais, o chocolate é um luxo pelo qual apenas os mais ricos conseguem pagar.

Falta cacau, o que torna o grão caro e faz do chocolate pouco acessível à maioria da população.

Até que um improviso muda a história da família Ferrero e da indústria de chocolate para sempre.

Em um pequeno laboratório criado por Pietro para encontrar soluções para os produtos que a família comercializava, ele cria uma mistura com nozes, cacau, avelã e leite para obter uma pasta de chocolate cremosa e pastosa.

Com menos cacau, o produto era mais barato do que chocolate, mas tão gostoso quanto.

O sucesso foi instantâneo. 

Dessa descoberta, nasceu, em 1949, a Ferrero, empresa que, décadas depois, viria a se tornar uma das três maiores empresas de chocolate do mundo.

Boa parte do sucesso é explicada pela popularidade de um produto, a Nutella, que deriva daquela descoberta inicial de Pietro.

Neste 7 de julho, Dia do Chocolate, nos debruçamos sobre a história da Ferrero para que você possa se inspirar com a família que hoje está entre as mais ricas do mundo — mas que deve tudo às invenções de Pietro, há três gerações.

Conheça a história da Ferrero

Antes de criar o creme de avelã com chocolate, em 1949, Pietro Ferrero precisou batalhar. Literalmente, até: ele serviu na primeira guerra mundial.

Depois da guerra, em 1923, Pietro abriu uma pequena confeitaria na cidade de Dogliani, no noroeste da Itália.

Em seguida, a vida de Ferrero começou a avançar depressa. No ano seguinte, ele se casaria com Piera Cillario, então com 21 anos, que viria a dar à luz o filho do casal, Michele Ferrero, em 1925.

Na década seguinte, a família perambulou pela Itália, tentando fixar residência e encontrar mercado para seus produtos. 

Em 1938, durante a segunda guerra mundial, Pietro viajou para a África, a fim de vender biscoitos para as tropas italianas que estavam no local a mando de Mussolini.

A tentativa não foi bem-sucedida, e Pietro retornou à Itália, mais especificamente para a cidade de Alba, na província de Piemonte, uma região de grande beleza natural, onde havia avelãs em abundância.

Foi ali que Pietro teve a ideia de criar a mistura que mencionamos no início do artigo. 

À época, a região já era reconhecida por suas fábricas de chocolate, mas o produto ainda era restrito às classes mais altas.

Pietro Ferrero, foto
Pietro Ferrero, nas origens

Vendido em pequenos tabletes, que podiam ser consumidos como bombons ou usados para passar no pão, o produto foi batizado de Giandujot.

giandujot, ilustração
O primeiro produto criado pela Ferrero

Vale lembrar que, à época, os pães faziam parte da alimentação de grande parte da população, o que ajuda a explicar a popularidade do produto.

Com o Giandujot vendendo com a mesma velocidade em que era produzido, Pietro uniu-se ao irmão Giovanni para criar  a Ferrero em 1946.

Giovanni possuía experiência com a venda de produtos alimentícios e pôde ajudar Pietro para dar escala à produção.

Nasce a Supercrema, a precursora da Nutella

Apesar do sucesso instantâneo, Pietro não pôde ver o negócio deslanchar, porque morreu em 1949, vítima de um infarto aos 51 anos.

Naquele mesmo ano, a empresa lançou uma versão em creme de Giandujot, que viria a se chamar Supercrema, a precursora da Nutella.

Supercrema, a precursora da Nutella, ilustração
Supercrema, a precursora da Nutella

Com a possibilidade de espalhar o produto pelo pão, a Ferrero quebrou o tabu, ainda vigente na época, de que o chocolate podia ser consumido apenas em ocasiões especiais, como festas, páscoa e natal.

Uma pequena porção durava bastante tempo e o preço continuou baixo em relação ao chocolate puro. 

Resultado: sucesso arrebatador.

Outros fatores também contribuíram para o sucesso, como a venda do produto em potes, que podiam ser reutilizados, principalmente pela população das classes mais baixas.

Com a morte de Giovanni, o irmão de Pietro, também ainda jovem, aos 52 anos, em 1957, coube a Michele, então com 33 anos, a missão de liderar a empresa.

E foi sob a gestão dele que a Ferrero se internacionalizou: primeiro, a empresa ganhou a Alemanha, onde as fábricas ocuparam antigos galpões destinados à produção de mísseis durante a segunda guerra mundial.

Em seguida, a empresa migrou para a Bélgica e a Áustria, chegando à França pouco depois.

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O surgimento da Nutella como a conhecemos

Em 1962, a economia italiana já mostrava claros sinais de recuperação. A vida tinha melhorado, e a população já conseguia comprar chocolate de verdade.

Era chegada a hora de melhorar ainda mais a Supercrema, incluindo mais cacau e manteiga de cacau à composição.

Michele também tomou a decisão de mudar o nome do produto, aproveitando que uma mudança na legislação italiana proibiu o uso de nomes com superlativos, como “super”. 

Pensando novamente na internacionalização, nascia a Nutella, combinando “nuts” (“nozes”, em inglês) com a expressão “ella”, muito comum no italiano.

nutella, ilustração

Finalmente, em 1964, a empresa começou a comercializar jarras de Nutella

Para os italianos, o produto virou febre por ser um símbolo de modernidade, já que a Nutella era muito diferente dos outros doces, e também por ser inegavelmente delicioso: um prêmio na rotina para os dias mais difíceis, por exemplo.

Houve, ainda, um componente de marketing para o sucesso e a internacionalização do produto.

A Nutella nunca foi vendida como um produto barato, acessível e capaz de substituir o chocolate. O foco esteve no fato de a Nutella ser “natural” e conter avelãs.

De fato, embora contenha muito açúcar e gordura, a Ferrero conseguiu vender o produto como um ingrediente nutritivo para os cafés da manhã de toda a família.

Nutella em fabricação, foto

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Fome de inovação: surgem Kinder, Tic Tac e Ferrero Rocher

A companhia não parou com a criação da Nutella. Em 1968, um novo produto icônico seria lançado: a linha Kinder, focada especialmente nas crianças.

Os produtos Kinder, que significa “criança” em alemão, tinham mais leite na composição, deixando o gosto mais suave para as crianças e a consistência mais cremosa.

1968<br class=lazy />Kinder Chocolate is launched.

Um ano depois, outro produto revolucionário, desta vez sem relação com chocolates, seria lançado: uma balinha refrescante de menta, cujo sucesso perdura até os dias de hoje. 

Sim, estamos falando do Tic Tac.

O produto virou febre mundial, alcançando a Ásia, América Latina e, principalmente, os Estados Unidos.

As novidades não pararam por aí. Em 1974, a empresa deu mais um passo para conquistar o público infantil, criando o “Kinder Surprise”, que viria a ser conhecido no Brasil, décadas depois, como “Kinder Ovo”.

O chocolate em formato de ovo com uma surpresa dentro logo se tornou um sucesso mundo afora.

Finalmente, outra grande invenção de Michele Ferrero viria alguns anos mais tarde.

Determinado a combinar sabor com sofisticação, ele passou anos desenvolvendo um bombom que tivesse uma combinação entre chocolate, avelã e biscoito waffer.

Em 1982, finalmente a espera chegaria ao fim, com a criação do Ferrero Rocher. 

O nome Rocher remete à “rocha”, em francês, e faz alusão à crosta que reveste o bombom.

ferrero rocher, fabricação, ilustração
A fabricação do Ferrero Rocher

Rapidamente, o bombom foi associado a eventos luxuosos, exatamente como Michele desejava ao criar o produto.

As campanhas publicitárias, em especial, sempre reforçaram a visão de um bombom exclusivo, que realmente valesse um preço mais elevado.

Embora fosse um produto “premium”, o bombom tinha a vantagem de utilizar ingredientes como cacau e avelã, que a empresa já utilizava em outros produtos. 

Isso contribuiu para elevar a margem de lucro da empresa — mesmo gastando pouco na produção dos novos bombons exclusivos, ela lucrava cada vez mais.

No Brasil, a empresa chegou oficialmente em 1994, com o Kinder Ovo. O produto era importado, mas, mesmo assim, fez sucesso entre o público nacional. A primeira fábrica da empresa no Brasil seria inaugurada em 1997, em Poços de Caldas, MG.

Graças à internacionalização irrefreável de seus produtos, Michele Ferrero se tornou o homem mais rico da Itália em 2008, ultrapassando Silvio Berlusconi. 

Michele morreu em 2015, aos 89 anos. Extremamente respeitado e admirado no país, seu funeral atraiu milhares de pessoas ao município de Alba.

Giovanni Ferrero, o filho mais velho de Michele, já havia assumido a empresa e é, até hoje, o mandatário da companhia. 

Giovanni Ferrero, ilustração
Giovanni Ferrero, neto de Pietro e filho de Michele, atual mandatário da empresa

De acordo com a Forbes, Giovanni tem uma fortuna estimada em US$ 34,9 bilhões e é a 40ª pessoa mais rica do mundo. 

Desde 2015, a Ferrero vem crescendo por meio de aquisições, sendo a principal delas a divisão de chocolates da Nestlé nos Estados Unidos, em 2018, ao custo de US$ 2,8 bilhões. 

Atualmente, a Ferrero tem receita na casa dos US$ 15 bilhões, e os produtos da empresa estão presentes em mais de 160 países. Há mais de 40 mil funcionários em suas operações.

Quer ter uma ideia do tamanho da empresa? 

Todos os anos, a empresa produz mais de 365 mil toneladas de Nutella, e é a maior consumidora de avelãs do planeta, responsável por 25% do consumo mundial.

Se você quer ser um investidor da empresa, temos más notícias: a Ferrero não tem capital aberto.

Trata-se de uma empresa de capital fechado, que nunca viu necessidade de se capitalizar ou abrir mercado na Bolsa de Valores.

Por isso, para quem deseja ser sócio da companhia, resta a opção de continuar acompanhando seus movimentos para entender se há interesse em vender ações no mercado.

Mesmo que não seja possível investir na Ferrero — por enquanto —, esperamos que o artigo tenha servido para você se inspirar com uma das maiores empresas de chocolate do mundo.

Tudo começou com uma pequena improvisação, capaz de criar um novo produto, conquistar o mercado e levar o nome da empresa mundo afora.

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