Um pouco de história: as finanças tradicionais e o embate entre grafistas e fundamentalistas

Caro leitor, iniciamos hoje uma viagem rápida pela história das finanças

Neste primeiro artigo, vou falar do que é conhecido como finanças tradicionais e da clássica divergência entre analistas grafistas e fundamentalistas

Nos próximos artigos, falarei das finanças modernas e, finalmente, das finanças comportamentais

Espero que você aproveite o passeio.

As finanças tradicionais como ponto de partida

Um dos problemas que a economia busca resolver é saber o que dá valor aos bens econômicos – a teoria de valor. 

Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx acreditavam que o valor de um objeto comercializável era consequência da quantidade de trabalho que ele demandava para ser produzido. 

Para os economistas da Escola Austríaca e posteriormente da Escola Neoclássica, o valor decorre da utilidade e da raridade de um bem ou serviço.

Independentemente do que seja o fator gerador de valor para a economia, interessa às finanças como prever o valor futuro de um dado ativo. 

Como prever o valor futuro de uma ação?

Uma das primeiras tentativas de se prever o valor futuro de um ativo de forma sistemática foi feita por dois jovens, Charles Dow e Edward Davis Jones.

Em novembro de 1882, eles fundaram uma agência chamada Dow, Jones & Company

Um ano após a abertura, a empresa lançou um índice que representava a média das cotações de uma cesta de empresas, em sua maioria ferrovias, o qual ficou conhecido como índice Dow Jones.

Em 8 de julho de 1889, a empresa transformou seu boletim em um jornal. Nascia, assim, o Wall Street Journal

Dow tinha uma coluna em que fazia previsão de preços baseado nos gráficos de preços passados das ações

Após a morte de Charles Dow, ocorrida 4 de dezembro de 1902, seus admiradores reuniram suas colunas em uma publicação e deram origem ao que hoje se conhece como análise técnica ou análise gráfica de ações.

A análise gráfica ganhou enorme popularidade principalmente no mercado aquecido da década de 1920, porém foi seriamente afetada com a crise de 1929. 

Após o crash de 1929, surge a análise fundamentalista

Após a enorme queda, não prevista, da cotação das ações na Bolsa de Nova York, homens de negócio começaram a buscar um método científico de avaliar um ativo.

Benjamin Graham, que havia perdido todo seu dinheiro na Bolsa em 29, em conjunto com David Dodd, publicou em 1934 o livro “Security Analysis”, que mudou radicalmente a forma de se estimar o preço de um ativo

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Segundo os autores, o valor nada mais é do que o fluxo de caixa futuro que esse ativo puder gerar, descontada uma dada taxa de juros. 

A matéria-prima para projetar esse valor não seriam os preços passados como na análise gráfica, mas sim os fundamentos da empresa, sua contabilidade e seus projetos futuros. 

Daí vem seu nome de análise fundamentalista ou análise de valor — value investing

O famoso investidor Warren Buffett afirma que leu a obra em 1940 e que ela foi fonte de inspiração para sua profícua carreira de investidor. 

Em 1949, Benjamin Graham publicou o livro “Investidor Inteligente”, em que manteve o método de análise de fundamentos, mas passou a analisar mais o setor de atuação das empresas. 

Warren Buffett novamente se tornou grande apreciador e divulgador da obra.

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O embate entre grafistas e fundamentalistas

Os investidores fundamentalistas nutrem grande desconfiança em relação aos grafistas, e o inverso também é verdadeiro. 

Pergunte a um grafista qual o valor da análise fundamentalista e você verá uma definição nada amistosa. Também os fundamentalistas não têm uma boa opinião sobre os grafistas. 

Porém, tanto analistas fundamentalistas quanto grafistas têm algo que os une: ambos acreditam que podem descobrir quando um ativo está caro e quando está barato.

Ambos consideram que aqueles que utilizarem corretamente os métodos que preconizam poderão ter um desempenho superior à média dos outros investidores, ou seja, podem ter um desempenho superior ao mercado.

As brigas entre os dois grupos se arrastam até hoje. 

Warren Buffett tem uma famosa frase que representa sua opinião sobre a análise gráfica: “Eu me dei conta de que a análise técnica não funcionava quando virei um gráfico de ponta cabeça e aquilo não me deu uma resposta diferente”.

Afinal, a média do mercado é ruim?

Enquanto grafistas e fundamentalistas se digladiavam, um jovem estudante de mestrado da Universidade de Chicago, Harry Max Markowitz, estava prestes a abalar a estrutura da teoria financeira que se conhecia até então. 

A edição de março de 1952 do Journal of Finance trazia o artigo “Portfolio selection”, que afirmava que os mercados não poderiam ser previstos e que a melhor coisa que um investidor poderia fazer era ter uma carteira diversificada que refletisse a média do mercado

Segundo Markowitz, análise gráfica e análise fundamentalista não trazem expectativa de rentabilidade superior à média do mercado. 

Mas esse é o tema do próximo artigo, que vamos publicar na próxima semana.

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