O investimento estrangeiro voltou? Entenda o fluxo em 2020 e as incertezas do cenário

Em novembro, o Brasil registrou a maior entrada mensal de capital estrangeiro na bolsa nos últimos 25 anos. A bolsa brasileira encerrou o mês com saldo positivo de R$ 33,3 bilhões de recursos vindos do exterior.

O mercado brasileiro já sinalizava uma retomada dos investimentos internacionais em outubro, quando o resultado mensal foi de R$ 2,8 bilhões.

Contudo, apesar do resultado positivo dos últimos dois meses, a B3 acumula perda de R$ 47,2 bilhões em aportes internacionais em 2020. 

Fatores globais têm favorecido a atração de capital ao Brasil, mas a percepção de risco em relação ao país ainda é alta.

Afinal, o investimento estrangeiro está de volta? Por que o Brasil perdeu tanto capital estrangeiro nos últimos anos? 

Neste artigo da Warren, vamos explicar o que influencia a atração de investidores ao país e o que esperar para o cenário em 2021.

Quanto capital estrangeiro o Brasil perdeu nos últimos anos?

números do capital estrangeiro, ilustração

Desde 2019, a bolsa brasileira vem registrando fuga recorde de capital estrangeiro. 

No ano passado, a saída de dinheiro de investidores estrangeiros totalizou R$ 44,5 bilhões, maior perda anual registrada em 15 anos.

Do início de 2020 até agora, o saldo foi negativo na maior parte do ano.

Somente no mês de março, os estrangeiros retiraram R$ 24,2 bilhões da bolsa brasileira, a maior perda mensal registrada desde 1996.

O fluxo negativo continuou em abril e maio. Em junho, a bolsa registrou leve alta de R$ 343 milhões nos investimentos estrangeiros, mas o saldo voltou ao vermelho nos meses seguintes até outubro, quando teve ganho de R$ 2,86 bilhões.

No acumulado entre janeiro e novembro de 2020, a B3 perdeu R$ 47,26 bilhões em capital externo, já incluindo a entrada recorde de recursos em novembro.

Vale ressaltar que este dado considera apenas o mercado secundário à vista — isto é, ativos negociados entre investidores. 

Levando em conta o mercado primário, que inclui IPOs e follow-ons, a saída de capital estrangeiro acumulada no ano é de R$ 27,65 bilhões.

Conforme dados do Institute of International Finance (IIF) levantados pela BBC, o fluxo de investimento é negativo para aplicações em portfólio de equity (que inclui o mercado de ações) e de títulos de dívida.

Fonte: BBC News Brasil

Entre janeiro e novembro, os investimentos estrangeiros em equity acumulam baixa de 7,7%, ou US$ 9,2 bilhões. Já o fluxo de investimento no mercado de dívida caiu 8,8% entre janeiro e outubro, totalizando US$3,9 bilhões de déficit.

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Por que o Brasil está perdendo investimentos estrangeiros?

por que o brasil está perdendo investimento estrangeiro, ilustração

O fenômeno da saída de capital não é restrito ao Brasil. A pandemia da Covid-19 contribuiu para elevar o grau de incerteza econômica global, incentivando investidores internacionais a tirar dinheiro de mercados emergentes para aplicar em economias mais seguras.

Contudo, o Brasil já sofria com a saída em massa de recursos estrangeiros no ano passado e a pandemia apenas agravou um quadro de desconfiança em relação ao país.

Por trás da fuga de capital estrangeiro, existe uma crise de credibilidade do governo brasileiro.

Podemos listar alguns fatores recentes que contribuíram para corroer a confiança dos investidores internacionais na economia brasileira.

Risco fiscal

Do ponto de vista econômico, a preocupação mais urgente do governo brasileiro, hoje, é o desequilíbrio fiscal

O mercado vem alertando para a trajetória acelerada dos gastos públicos pelo menos desde 2014, quando o Brasil registrou o primeiro de seis anos consecutivos de déficit fiscal.

A situação já alarmante da dívida pública brasileira piorou em meio à pandemia, quando o governo foi forçado a abrir os cofres para conter a crise

Por meio do chamado “Orçamento de Guerra”, a União liberou mais de R$ 600 bilhões para medidas contra a Covid-19.

Em outubro, o déficit primário do setor público acumulado em 12 meses atingiu R$ 661,8 bilhões, segundo dados do Banco Central. 

A previsão da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado é que a dívida supere 93% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020.

Para o investidor estrangeiro, o endividamento profundo e a falta de um plano claro de controle de gastos sugerem um ambiente arriscado e desfavorável aos negócios.

Diante da percepção de risco elevado, os investidores podem exigir mais garantias do governo para investir no Brasil, ou simplesmente buscar outro país menos arriscado para aplicar seu capital.

LEIA TAMBÉM | Teto de gastos em risco? Entenda os impactos no mercado financeiro 

Instabilidade política e econômica

Um dos fatores considerados no cálculo de indicadores como o CDS (Credit Default Swap), que mede o Risco Brasil, é a estabilidade política e econômica do país.

O cenário político brasileiro vem sendo palco de crises e conflitos que prejudicam a previsibilidade da economia — um ponto central para projetar o rendimento de aplicações no país.

Um dos efeitos da instabilidade política é justamente o aumento do risco fiscal

As tensões partidárias e a falta de articulação entre Executivo e Congresso prejudicam muito o avanço das propostas do governo para equilibrar as contas públicas do país.

Desde 2016, quando houve uma mudança significativa de direcionamento da agenda econômica do país, os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro conseguiram aprovar somente duas propostas expressivas no sentido de um ajuste fiscal: a PEC do Teto de Gastos e a reforma da Previdência.

A grande maioria dos projetos de equilíbrio das contas públicas anunciados pelo atual ministro da Economia, Paulo Guedes, encontra-se travada por disputas internas no Legislativo. 

Pautas como reforma tributária, PEC Emergencial, reforma administrativa e privatizações de estatais avançaram muito pouco desde o início do atual mandato, em 2018.

O desgaste de relações entre Executivo e Legislativo vem prejudicando até mesmo a aprovação do Orçamento do governo. 

Agravando o quadro, o impacto da pandemia mergulhou o Brasil em uma profunda recessão — o mercado projeta queda de 4,4% do PIB em 2020 — e elevou o desemprego à taxa recorde de 14,6%.

Enquanto isso, a forte valorização do dólar, que já acumula alta de 26% no ano, vem encarecendo os insumos do setor produtivo e impulsionando a inflação

O mercado prevê que a inflação ultrapassará a meta no início de 2021, e que o governo terá de elevar a taxa básica de juros, a Selic, como contramedida.

Crise ambiental

Nos últimos anos, o mercado vem valorizando cada vez mais a prática do ESG — sigla em inglês que significa “Meio Ambiente, Social e Governança”.

O ESG consiste em uma série de práticas que empresas e governos devem adotar para demonstrar seu compromisso com o desenvolvimento sustentável e valores sociais, ambientais e honestos.

Mais do que uma abreviatura, o modelo de gestão ESG deu origem aos chamados Fundos de Investimento ESG, que acompanham as ações de empresas que implementam estas diretrizes.

Estes fundos, que são uma maneira de “recompensar” companhias por adotar medidas conscientes, têm se popularizado no mercado internacional e já existem opções no Brasil:

Os países em desenvolvimento que vêm incentivando a adoção do modelo ESG, como os emergentes asiáticos, têm superado o Brasil na captação de recursos estrangeiros. 

É o caso da Índia, Tailândia e Cingapura.

Por sua vez, a política ambiental do governo brasileiro vem sendo alvo de críticas frequentes no noticiário internacional. 

Nos dois últimos anos, o Brasil registrou altíssimos níveis de queimadas e desmatamento na Amazônia e no Pantanal, e também falhou na resposta imediata às manchas de óleo no litoral do Nordeste em 2019.

A política ambiental também foi o pano de fundo para tensões diplomáticas com alguns governos europeus. 

Mais do que uma batalha retórica, os atritos nas relações exteriores podem causar retrocesso no campo econômico, como o acordo de comércio entre União Europeia e Mercosul.

O que mudou em outubro e novembro para os investimentos estrangeiros?

As razões citadas acima ajudam a contextualizar a fuga de capital estrangeiro no Brasil nos últimos anos. 

Então, qual o motivo dos bons resultados em outubro e novembro?

Para a maioria dos especialistas do mercado, a entrada de investidores estrangeiros no país nos últimos meses reflete um ambiente internacional mais favorável ao apetite por risco.

Um dos principais motores para este otimismo global foi a vitória do democrata Joe Biden nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, no início de novembro, após uma disputa acirrada. 

O resultado trouxe um pouco de alívio ao mercado e renovou a esperança por uma atuação menos protecionista dos EUA no comércio internacional.

Outro fator que manteve os ânimos altos nos mercados foi a sequência de notícias positivas sobre as vacinas para a Covid-19 — e, consequentemente, a perspectiva de uma “volta à normalidade” e uma recuperação econômica cada vez mais próxima.

Impulsionados por este otimismo, alguns dos principais índices globais fecharam o mês de novembro em alta, como o S&P 500 (+12%), Dow Jones (+11,8%), FTSE 100 (+12,2%) e DAX 30 (+15%). 

Diante deste quadro mais favorável aos investimentos, os mercados emergentes se beneficiaram da busca de estrangeiros por oportunidades. 

Foi o caso do Brasil — em novembro, o Ibovespa acumulou ganho de quase 16% e teve a maior alta mensal desde 2016.

Houve, ainda, outro elemento que contribuiu para a atração de recursos à economia brasileira: o dólar em alta. 

Entre os países emergentes, o real foi a moeda que mais perdeu valor frente ao dólar em 2020, o que impulsiona a inflação, mas torna mais barato investir aqui do que em outros mercados em desenvolvimento.

O que esperar dos investimentos estrangeiros em 2021?

o que esperar do capital estrangeiro para 2021, ilustração

Já em dezembro, a bolsa brasileira chegou a registrar R$ 1,68 bilhão de entrada de capital estrangeiro em um único dia

Entretanto, a expectativa é de que o saldo seja menor do que o do mês anterior, e que o resultado acumulado no ano seja negativo.

Apesar do fluxo bastante expressivo de capital estrangeiro entre outubro e novembro, os analistas do mercado têm reforçado que a entrada de recursos foi resultado primariamente da conjuntura internacional mais favorável.

Por este motivo, o mercado brasileiro tem visto o movimento com cautela, e não como uma oportunidade para assumir riscos desproporcionais. Os fatores negativos que explicamos anteriormente continuam pesando na imagem negativa do Brasil.

Até o momento, o que parece ter mais peso na atração ou repulsão de investimentos no Brasil é o cenário político

Para alguns analistas, parte dos ganhos de outubro e novembro se devem à manutenção de Paulo Guedes no governo, após conflitos internos levantarem dúvidas sobre a permanência do ministro na administração.

Além disso, embora o Brasil seja um dos líderes mundiais em casos e mortes por Covid-19, a politização dos planos de vacinação intensifica a percepção de instabilidade política e dificulta a visualização de um panorama de recuperação da crise.

É provável que o país continue se beneficiando do otimismo global e dólar alto para atrair investidores estrangeiros, mas estes fatores externos favorecem apenas ganhos no curto prazo. 

Neste contexto, a prioridade do governo ainda deve ser a solução dos problemas estruturais que, desde o princípio, alimentaram a fuga de capital externo.

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