Os riscos da ilusão cognitiva e do excesso de confiança para o investidor

No dia 22 de novembro de 2020, o Estadão publicou uma entrevista com o economista Richard Thaler, prêmio Nobel de Economia em 2017. 

Ele é uma das maiores autoridades na área de finanças comportamentais ou economia comportamental e afirmou que “o maior erro que os investidores cometem é o excesso de confiança”.

Segundo Thaler, muitas pessoas acreditam que podem selecionar uma carteira de ações que vai render mais que o mercado, porém ele afirma que a maior parte dessas pessoas vai fracassar e que elas ganhariam mais investindo em um fundo de índice.

Pode parecer incoerente, mas não é

É uma afirmação estranha para alguém que dirige uma empresa de gestão de recursos dedicada a ganhar mais que o mercado. 

Mas ele justifica sua posição: diferente de um investidor individual, a empresa que ele dirige contrata várias pessoas muito inteligentes e dá a elas “acesso a toneladas de informação e – mais importante – mantém a disciplina, para conseguir bons resultados”.

Quando um investidor individual, que tem uma profissão não ligada ao mercado financeiro, pensa que pode ganhar dinheiro especulando, precisa lembrar que está competindo com a empresa do Thaler, que por sua vez compete com milhares de outros investidores institucionais ao redor do mundo. 

Alguns desses investidores institucionais são centenas de vezes maiores que a própria empresa do homem do prêmio Nobel.

A confiança ou o otimismo é uma característica desejável, porém quando a confiança nas próprias habilidades é excessiva pode ser um problema. 

O otimismo excessivo, que é uma característica inata de muitos humanos, é atualmente maximizado por vários influenciadores digitais que utilizam as redes sociais para vender a ideia de que o mercado financeiro é um local em que é possível ganhar dinheiro fácil e rápido

Eles vendem a ideia de que, com um pouco de estudo, um curso rápido ou a assinatura de um serviço que eles vendem, qualquer investidor pode se transformar em um sucesso instantâneo.

E para atrair seus seguidores, divulgam seus estilos de vida cheios de consumo e riqueza. Riqueza essa que, quando é verdadeira, se deve à venda da “receita de sucesso”, não ao mercado financeiro, que é muito mais cruel do que a vida de influenciador digital.

Esses vendedores de ilusão conseguem, de fato, iludir muitas pessoas. A ilusão do conhecimento ou ilusão cognitiva é um falso conhecimento. 

E um falso conhecimento pode ser muito pior do que o desconhecimento.

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A diferença entre o desconhecimento e a ilusão cognitiva

Para explicar a diferença entre o desconhecimento e a ilusão cognitiva ou ilusão do conhecimento, vamos conhecer o casal hipotético Renato e Marta.

Renato é um marido ciumento que considera a fidelidade da Marta muito importante para sua felicidade. 

Surgem, então, quatro cenários possíveis

Pode ser que Marta seja fiel e Renato acredite nisso. 

Também pode ser que Renato acredite que ela é infiel e ela realmente o seja. 

Nesses casos, temos dois verdadeiros conhecimentos

Porém pode ser que Marta seja fiel, mas Renato acredite no contrário – é o que a crônica amorosa considera o inferno do tolo. 

Também pode ser que Marta seja infiel, mas Renato acredite que ela é fiel – é o que se conhece como paraíso do tolo. 

Tanto o paraíso do tolo quanto o inferno do tolo são dois exemplos de falso conhecimento.

Para a felicidade do Renato, acreditar na fidelidade da Marta é mais importante do que a fidelidade propriamente dita. 

Ao contrário da vida amorosa, no campo das finanças, acreditar em algo não necessariamente conduz ao sucesso ou traz felicidade. 

Duas ilusões cognitivas do mercado financeiro que você precisa conhecer

No mercado financeiro, duas ilusões cognitivas podem prejudicar muito o investidor. 

A primeira é que só profissionais podem ganhar dinheiro no mercado, e a segunda é que é fácil ganhar mais do que a média do mercado.

A primeira ilusão faz com que as pessoas não invistam ou que invistam em produtos excessivamente conservadores, como a caderneta de poupança ou fundos ultraconservadores de grandes bancos com elevada taxa de administração.

A segunda ilusão faz com que os investidores tomem riscos excessivos que um dia vão cobrar o preço através de grandes prejuízos no mercado.

Então, qual é o verdadeiro conhecimento que o investidor não profissional deve ter? 

Certamente o melhor conhecimento é compreender a eficiência dos mercados, o que é a base das finanças modernas

Mas de onde vem a eficiência dos mercados?

Essa eficiência vem dos milhares de investidores profissionais, entre eles a empresa do Thaler, que trabalha muitas horas por dia para encontrar o preço de um ativo subavaliado ou sobreavaliado. 

Sempre que acham um ativo barato, emitem ordens de compra que elevam o preço. Sempre que acham um ativo caro, emitem ordens de venda que reduzem o preço.

Vem daí a recomendação do Thaler de investir em um fundo de índice. Um fundo de índice como os ETFs (exchange traded funds) não tenta ganhar mais do que a média do mercado, mas sim empatar com ele.

Dessa forma, uma ótima estratégia para o investidor individual é estabelecer um programa de compras constantes de um bom fundo de índice ou de uma carteira diversificada de ativos. 

A diversificação é o único almoço grátis no mercado financeiro. 

E por que ele é grátis? 

Porque quem paga são os investidores profissionais que trabalham diuturnamente para fazer com que os preços dos ativos convirjam para seu valor justo.

Caso você não acredite na eficiência dos mercados, talvez a melhor estratégia seja escolher um ótimo gestor e pagar a taxa de administração para que ele trabalhe a fim de ajudar você a ganhar acima da média do mercado. 

Assim, você dedica o tempo economizado para ganhar mais com sua profissão.

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