Os riscos financeiros na segunda adolescência

Quando eu nasci, em 1961, minha expectativa de vida era de 51 anos. Agora, ao completar 59, consulto a tábua de mortalidade IBGE e descubro que minha expectativa é mais 21 anos. Mulheres da minha idade têm expectativa de vida ainda maior: mais 26 anos.

Ganhar 30 anos de expectativa de vida é, por si só, um fato maravilhoso. O mais importante, porém, é que ganhamos a possibilidade de ter muito mais saúde e disposição na terceira idade.

Essas mudanças têm um impacto maior em nossas vidas do que poderíamos prever. Os executivos da geração Baby Boom, que estão se aposentando ou planejando se aposentar, passam por dilemas que jamais imaginariam quando conquistaram o primeiro emprego. 

Pessoas da minha geração sonhavam completar 35 anos de trabalho duro, depois dos quais teriam direito a uma aposentadoria e a longos dias sem fazer nada, aproveitando uma merecida cadeira de balanço. Se fosse muito aventureiro, poderia aproveitar os dias livres para pescar, cuidar do jardim ou criar passarinhos.

Quem se aposenta hoje quer distância de cadeiras de balanço. A maioria de nós ainda goza de ótima saúde e tem grande disposição para continuar na ativa, contribuindo para a sociedade e o país. Mesmo tendo direito e condições de parar, queremos acelerar. 

Este fenômeno é o que sociólogos vêm chamando de segunda adolescência

Investindo durante a segunda adolescência

Passamos a sonhar e a sofrer com as angústias de fazer escolhas de uma nova carreira e, eventualmente, até nos permitimos questionamentos acerca da possibilidade de uma mudança radical no estilo de vida. 

Usar conhecimento acumulado, conexões, reservas financeiras e aliá-los a um hobby ou gosto pessoal para montar uma empresa do zero parece tentador.

Pois bem, aqui mora um perigo – principalmente para aqueles que foram muito bem sucedidos na vida e na carreira. 

É muito provável que seu sucesso tenha sido resultado de uma personalidade otimista. Pessoas assim tendem ao que o psicólogo Daniel Kahneman denomina “viés otimista”, segundo ele o mais significativo viés cognitivo. O prêmio Nobel trata brilhantemente desse tema no capítulo “O motor de capitalismo” do seu último livro, intitulado “Rápido e devagar”. 

A capacidade de não dar ouvidos aos pessimistas é uma característica dos otimistas que transformam o mundo. Mas o principal traço de personalidade dos otimistas é a resiliência diante dos reveses. É a capacidade de se auto atribuir crédito pelos triunfos e carregar pouca culpa pelos fracassos que faz com que os otimistas sigam em frente.

Claro que não são apenas os sucessos que movem o mundo. É sobre os escombros dos fracassos que nascem as possibilidades. O pessimista é soterrado por esses escombros, enquanto os otimistas fazem desses restos o alicerce de suas construções. Levantam, batem a poeira e seguem em frente.

Passar dos 50 com otimismo e empolgação de um adolescente cheio de planos é fantástico. Mas é bom refletir um pouco. 

As chances de um novo negócio sobreviver por cinco anos nos Estados Unidos são de 35%. Os empreendedores americanos, no entanto, estimam que suas chances de sucesso são de 60%. O mais impressionante: 33% desses empresários consideram ter chance de fracasso igual zero. A diferença entre o que os empreendedores imaginam e a taxa real comprova o viés otimista.

Muitos empreendedores se tornarão o que os economistas Giovanni Dosi e Dan Lovallo chamam de “mártires do otimismo”: é o fracasso deles que pavimenta a estrada para competidores mais qualificados a desbravar novos mercados. Isso é bom para a economia, mas é péssimo para as finanças dos empreendedores tardios.

O custo de ser um mártir do otimismo durante a primeira adolescência é amplamente remunerado pelo aprendizado. A pessoa leva a experiência para a vida profissional e mesmo para novos empreendimentos. Já o custo de ser mártir do otimismo na segunda adolescência costuma ser muito maior e a possibilidade de monetizar o aprendizado é infinitamente menor.

Por mais experiência que um futuro empreendedor tenha, o viés otimista o coloca lado a lado com os novatos: a taxa de mortalidade pode também se aplicar a ele. 

A ideia de que a responsabilidade quanto ao futuro de uma empresa depende 100% da capacidade do empreendedor não passa mesmo de ilusão. O comportamento do mercado e mesmo a sorte ditam regras que são impossíveis de prever. O mar revolto do mercado pode levar a pique até mesmo o mais experiente capitão.

Será que o pessimismo seria então o melhor caminho? Longe disso. 

Para o jovem empreendedor, o ideal é colocar todas as fichas em seu empreendimento, é o que no pôquer se chama “All-In”. Assim, seu grau de compromisso com os projetos tende a ser máximo. Se fracassar, irá retornar à mesma situação financeira em que começou. 

Já para o empreendedor da segunda adolescência, as consequências do fracasso podem ser muito mais duras. Mesmo a chance de sucesso sendo ligeiramente maior, o custo do fracasso também aumenta consideravelmente. Assim, ao contrário do jovem, o empreendedor tardio deve pensar muito antes de empenhar todas suas fichas em um único negócio.

Assumir riscos controlados é a solução

Mas, então o que fazer parar e se recolher aos aposentos? Se você tem gás de adolescente para mudar o mundo, mas, se o tempo que você tem para se recuperar de um eventual revés não é tão grande, é bom assumir riscos mais controlados.

SAIBA MAIS | A dor de não respeitar seu perfil de risco

Eventualmente, se associar a jovens empreendedores pode ser uma boa alternativa. Seja assumindo riscos controlados através de investimentos anjo, seja galgando uma posição de advisor ao aproveitar-se de conhecimentos e contatos adquiridos ao longo de anos de trabalho em determinada indústria. 

Também, garantir que uma parte significativa das suas reservas estejam em um plano de previdência privada pode ser muito aconselhável.

Não corra o risco de deixar o viés otimista estragar o que poderia ser uma doce e divertida segunda adolescência, mas também, não deixe que o pessimismo estrague seu sonho de continuar mudando o mundo por mais algum tempo. 

Na segunda adolescência você não precisa abandonar o risco, mas precisa ser muito mais comedido do que na juventude. 

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