O varejo jogando xadrez: uma análise dos movimentos recentes no mercado

Embora nunca tenha sido um jogador exímio de xadrez, sempre admirei a genialidade por trás de cada movimento no tabuleiro. Lembro que estava no ensino fundamental quando, em uma das excursões, fui apresentado a este instigante “jogo de reis”.

O xadrez entrou em minha vida como um hobby, mas acabou ficando um pouco de lado em minha rotina. Bom, esse era o caso até outubro do ano passado, quando conheci Beth Harmon, que ajudou a reacender o meu interesse pelo tabuleiro. 

Com sorte, talvez você também assistiu à série “O Gambito da Rainha”, da Netflix, e já entendeu a referência. Caso não tenha visto, farei um breve resumo do enredo — sem spoilers, é claro. 

A série conta a história de Beth, uma garota que descobre seu talento incrível para o xadrez no porão do orfanato onde reside. Lutando contra seus vícios, a personagem mostra-se como um prodígio nas estratégias do tabuleiro, vencendo partidas disputadas com homens que têm o dobro de sua idade.

Xadrez não é um jogo de sorte. 

Mais do que um cálculo preciso, a compreensão posicional é uma das qualidades mais importantes para um enxadrista. Mas, ao mesmo tempo, essa é uma das aptidões mais difíceis de se aprender.

Enquanto o cálculo pode ser desenvolvido resolvendo problemas específicos todos os dias por um longo período de tempo, o jogo posicional não tem uma receita pronta. 

Este jogo tem a ver com obter experiência, estudar posições, saber planejar e evitar a jogada do adversário, além de conhecer a fundo o comportamento do seu oponente e as suas jogadas. É um árduo caminho de aprendizagem.

As jogadas recentes no mercado

Costumo dizer que o mercado financeiro é como um grande jogo de xadrez em um incessante movimento. A todo instante, investidores e empresas estudam onde e quando colocar cada peça. O objetivo? Xeque-mate. 

E apenas reagir ao cenário que se desenha durante o desenrolar das partidas não é suficiente para se sair vitorioso.

Em um mês marcado por grandes anúncios de fusões, aquisições e incorporações de negócios no setor de varejo, termos de origem no xadrez, como “cavaleiro branco” e “cavaleiro negro”, entraram no vocabulário do mercado. 

Temos uma Empresa A, companhia de capital aberto que deseja expandir para um novo mercado onde a Empresa B já está estabelecida. Visando um crescimento inorgânico, a Empresa A aborda o conselho de administração da Empresa B com uma oferta de compra. 

No entanto, após consideração, a Empresa B recusa a oferta, concluindo que a proposta não satisfaz o melhor interesse de seus acionistas. 

Se a Empresa A prosseguir com uma tentativa de aquisição após ser rejeitada pelo conselho de diretores da Empresa B, a jogada será considerada uma aquisição hostil, e a Empresa A será referida como um cavaleiro negro.

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O cavaleiro negro

Na noite de 14 de abril, a Hering comunicou ao mercado, através do seu portal de Relações com Investidores, a rejeição da proposta de combinação de negócios com a Arezzo. O mercado foi à loucura no dia seguinte e as ações das duas empresas subiram no pregão. 

As motivações, no entanto, eram diferentes. Os investidores ficaram animados ao ver a Arezzo dando um passo um tanto quanto ousado para continuar seu plano de crescimento inorgânico através de M&A. 

Já os acionistas da Hering ficaram otimistas ao presenciar a companhia rejeitando uma proposta com prêmio de 20% do preço médio de sua ação nos últimos 90 dias.

A Hering rejeitou a oferta e sinalizou que a Arezzo se aproveitava de um valuation deprimido em bolsa

Amor-próprio é tudo, não é mesmo?! Brincadeiras à parte, o mercado entendeu que poderia acontecer uma contraproposta da Arezzo de modo que satisfizesse os interesses do conselho de diretoria da Hering.

No entanto, doze dias depois, os investidores foram surpreendidos…

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O cavaleiro branco

O Grupo Soma, que está por trás das marcas Animale e Farm, moveu as suas peças e entrou no jogo. Em fato relevante ao mercado, a companhia anunciou uma combinação de negócios com a Hering. A “torta de climão” estava servida.

No mesmo dia, as ações da Hering subiram mais de 20%, enquanto o Soma enfrentou uma desvalorização de 10% em seus papéis. 

O motivo era simples: para os acionistas da Hering, a proposta era sensacional. Para os investidores do Grupo Soma, o prêmio de 56% em relação à última oferta era demais.

No dia seguinte, a Arezzo “saiu à francesa”, sinalizando que não faria uma contraproposta.

Com sua jogada, o Grupo Soma se tornou o cavaleiro branco em nosso tabuleiro, fazendo uma aquisição “amigável” e mirando no crescimento orgânico a partir da sinergia entre as duas empresas.

Esse movimento de peças não é raro. Na história do mercado, existem outros exemplos notáveis ​​de resgates de empresas por “white knights”. Alguns exemplos:

  • A compra do quase falido grupo ABC pela United Paramount Theatres em 1953;
  • A compra da Time Warner pela AOL em 2000;
  • E a compra da Bear Stearns pelo JP Morgan, marcando o último grande resgate antes da crise mundial de 2008.

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Vai ter M&A para todo lado

Diante de uma pandemia que parece interminável, as varejistas brasileiras começaram a mover as suas peças para garantir a sobrevivência. Após a oferta de compra de Arezzo para Hering, o mercado engatou o clima de M&A.

Em abril, a Lojas Renner realizou um follow on, mirando aquisições no mercado. Correm as especulações no mercado de qual é a empresa na mira: Dafiti ou Amaro? 

E ainda no mês passado, a B2W Digital e a Lojas Americanas anunciaram união de negócios, mirando uma futura listagem nos Estados Unidos.

No estudo “Consumer & Retail M&A Outlook 2021: Revival beyond the precipice”, realizado pela KPMG neste ano, a empresa de consultoria enxerga uma contínua implementação do modelo Asset-Light.

Ou seja, estamos falando em um modelo mais leve em termos de ativos, mais focado na eficácia e digitalização da companhia, de forma a melhorar a liquidez e ampliar suas competências em e-commerce, soluções digitais, fintechs e logísticas.

Quando falamos de M&A, as empresas precisam avaliar o ganho de escala e expansão de clientes. A sinergia entre a combinação das empresas deve ser positiva, de maneira a reduzir custos e/ou aumentar as receitas.

Se manter em pé neste tabuleiro ainda exigirá muita compreensão posicional dos jogadores do mercado.

Este texto foi publicado na edição de abril de 2021 da Warren Magazine. A Warren Magazine é um conteúdo enviado para os nossos clientes mensalmente.

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