Vieses cognitivos: conheça os 10 que mais afetam os investidores

Você já parou para se perguntar o que são os vieses cognitivos e como eles afetam a sua tomada de decisão ao investir?

Recentemente, convidei você, leitor, para uma viagem sobre o desenvolvimento da história das finanças. Foram três artigos em que abordei as três principais correntes: finanças tradicionais, modernas e comportamentais.

Como vimos, as finanças modernas se assentam no pressuposto de que os investidores agem racionalmente no momento de decidir. 

As finanças comportamentais, por sua vez, rejeitam os pressupostos de racionalidade dos decisores. 

Vou pinçar alguns tópicos relacionados a essas duas correntes para que possamos nos aprofundar em uma questão muito importante para quem investe, as ilusões cognitivas.

Racionalidade, não racionalidade e a influência da psicologia

Quando se fala em alguém não racional no contexto das finanças, podemos imaginar uma pessoa que sai rasgando dinheiro por aí, mas nem de longe é esse o caso. 

Então, antes de falar de não racionalidade, precisamos definir o que é racionalidade

Nesse contexto, racionalidade significa que as pessoas usam as informações disponíveis de um modo lógico e sistemático para fazer escolhas ótimas, dadas as alternativas de que dispõem e os objetivos a serem alcançados. 

Também indica que as decisões são tomadas levando em conta as consequências futuras. 

Em outras palavras, admite-se que incentivos extrínsecos amoldam o comportamento econômico.

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O que é a teoria da utilidade esperada?

A teoria da utilidade esperada é um dos pilares da racionalidade econômica. Segundo ela, as decisões nesse campo são governadas principalmente por egoísmo e racionalidade. 

A teoria da utilidade esperada é quem descreve como tomamos ou deveríamos tomar tais decisões sob risco. 

A ideia de um homem econômico racional teve forte sustentação na psicologia behaviorista. 

Para os seguidores dessa linha, todo comportamento humano poderia ser explicado pela relação estímulo-resposta.

Skinner, um dos criadores da escola behaviorista, acreditava que o comportamento humano era resultado de um sistema de condicionamentos, envolvendo o fortalecimento ou enfraquecimento de determinadas atitudes mediante a presença ou ausência de reforços externos, que funcionariam como recompensas ou punições.

Partindo dessas ideias, os teóricos das finanças modernas supõem que, quando uma pessoa age irracionalmente no campo econômico e é punida com perda de dinheiro, ela logo assumiria uma postura racional.

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O surgimento das finanças comportamentais

Dois psicólogos cognitivos, Amos Tversky e Daniel Kahneman, conseguiram demonstrar frequentes violações dos pressupostos da racionalidade no momento da decisão. 

Inicialmente, eles notaram que os humanos utilizavam regras heurísticas para tomar decisões.

Regras heurísticas são atalhos mentais ou regras empíricas para encontrar uma solução para dado problema.

A utilização de regras heurísticas pode gerar vieses nas decisões

Um viés de decisão é uma tendência sistemática de violar os axiomas da racionalidade ampla. 

Um fato importante é que o viés pode, igualmente, afetar de forma semelhante um grande número de pessoas.

Um segundo fator gerador de vieses de decisão foi agrupado sob o nome de teoria do prospecto ou das perspectivas (prospect theory). 

Segundo a teoria da utilidade esperada, as pessoas são avessas ao risco. 

Porém Tversky e Kahneman, através de estudos controlados, demostraram que avaliamos probabilidade de ganhos ou perdas de forma assimétrica.

As pessoas tomam decisões com base no ganho ou perda potencial em relação à sua situação específica (o ponto de referência) e não em termos absolutos. 

Isso é conhecido como dependência de referência.

Diante de uma escolha arriscada que leva a ganhos, os indivíduos são avessos ao risco, o que está de acordo com a teoria da utilidade esperada. 

Porém, diante de uma escolha arriscada que leva a perdas, os indivíduos buscam o risco, preferindo soluções que levem a uma utilidade esperada menor, desde que tenha potencial para evitar perdas.

Essa demonstração robusta de violação da teoria da utilidade esperada foi a responsável pelo prêmio Nobel de Economia atribuído a Kahneman, pois na época Tversky já havia falecido.

Como a existência de erros sistemáticos no mercado financeiro não é compatível com as finanças modernas, surgiram as finanças comportamentais

Nessa corrente, busca-se considerar a forma real como os agentes econômicos tomam decisões.

O que são vieses cognitivos

O que são vieses cognitivos, ilustração

Como vimos, um viés cognitivo de decisão pode ser descrito como uma tendência sistemática de violar os axiomas da racionalidade ampla. 

Os vieses são estudados pelo campo de investigação das finanças comportamentais focado nas ilusões cognitivas

Da mesma forma que os humanos têm dificuldade para julgar subjetivamente quantidades físicas, também têm para julgar subjetivamente probabilidades. 

As ilusões cognitivas são como ilusões de ótica; apesar de fáceis de entender, são muito difíceis de eliminar. 

O objetivo de aprender sobre as ilusões cognitivas e sua influência no processo de tomada de decisão é reconhecer as situações em que cada erro particular pode se manifestar. 

Isso minimiza equívocos no processo de alocação de ativos e, por consequência, melhora a performance dos investidores que entendem seus efeitos.

Conheça os 10 vieses cognitivos mais comuns

A seguir, vamos elencar dez vieses cognitivos muito comuns e prejudiciais aos investidores.

1. Dissonância cognitiva

O viés de dissonância cognitiva mostra que tendemos a ter apego às nossas ideias, ainda que a realidade ao redor as desafie ou mesmo as contradiga radicalmente. 

No mundo dos investimentos, convicções errôneas costumam ser extremamente difíceis de se abandonar. 

Um investidor com uma forte convicção tende a ignorar todas as informações que contradigam suas crenças e dar um peso extremamente elevado para as informações que corroboram sua opinião.

2. Ancoragem

O viés de ancoragem ocorre quando as expectativas do investidor se fixam em um determinado valor, a despeito das evidências do contexto. 

Uma âncora pode se formar a partir de uma informação fornecida por terceiros. 

No mercado de capitais, frequentemente elas se formam pelo preço que um ativo atingiu em determinado período ou pelo preço pago por um ativo

Uma vez que um investidor define uma âncora, as futuras negociações são discutidas sempre em relação a ela. 

Ainda hoje muitos investidores esperam que as cotações da Petrobrás, por exemplo, retornem aos preços recordes atingidos em 2008 para vender suas posições. 

3. Custo afundado

O viés de custo afundado é um dos vieses mais prejudiciais aos investidores. Ele está na raiz das famosas pirâmides invertidas. 

O custo afundado ocorre quando uma empresa enfrenta problemas sérios, suas ações passam a cair muito, e o investidor vai constantemente comprando mais e mais ações com objetivo de reduzir o preço médio

O caso OGX, empresa de Eike Batista, é um bom exemplo desse viés.

O viés dos custos afundados também é conhecido como “falácia do Concorde”. 

Quando todas as evidências de que o projeto do avião supersônico desenvolvido pelo Reino Unido e França indicavam a inviabilidade do projeto, os governos se recusavam a admitir a perda e continuavam a investir mais dinheiro para não reconhecer que os valores enormes despendidos até então tinham sido um fracasso.

4. Excesso de confiança

O viés do excesso de confiança mostra que, normalmente, os investidores superestimam sua capacidade de efetuar julgamentos e previsões. 

Um exemplo é quando nos pedem para prever o valor de um ativo ou de um índice para o ano seguinte e, depois, nos perguntam quão confiável é a previsão. 

Em geral, as respostas trazem percentuais superiores a 80% ou 90%, mesmo quando a projeção foi feita sem grande base – e mesmo que a realidade mostre que raramente alguém consegue fazer previsões tão precisas.

5. Efeito Dunning-Kruger

O efeito Dunning-Gruger é um viés cognitivo que surgiu após os psicólogos David Dunning e Justin Kruger demonstrarem em testes empíricos que as pessoas com baixa habilidade em uma tarefa superestimam sua habilidade e consideram que sabem mais do que outras pessoas mais bem preparadas. 

No mercado financeiro, isso faz com que investidores iniciantes acreditem que podem bater o mercado, ou seja, ganhar acima da média do mercado, desconsiderando que grande parte dele é composto por investidores profissionais muito bem formados e com muito mais informações que os investidores individuais.

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6. Efeito dotação (endowment effect)

O efeito dotação mostra que tendemos a dar um valor muito maior para aquilo que temos do que o valor que pagaríamos para comprar esse mesmo ativo ou objeto.

Temos dificuldade de mudar aquilo que recebemos pronto. 

Um exemplo: se uma empresa oferece aos empregados um plano de previdência inicialmente alocado em uma carteira conservadora, a tendência é que a maior parte permaneça na opção pronta.

Entre o conjunto de possibilidades, a opção padrão é aquela que tem maior adesão. 

Um exemplo é o regime de casamento. Antes da lei do divórcio, a opção padrão era o regime de comunhão total de bens. 

Depois da lei, a opção padrão passou a ser a comunhão parcial. Desde então, os casamentos com comunhão total, que eram maioria, passaram a ser raros.

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7. Contabilidade mental 

Descrito por Richard H. Thaler, o viés de contabilidade mental faz com que separemos nosso patrimônio em caixas: tratamos o dinheiro de forma diferente dependendo da sua origem. 

Por exemplo, se eu ganho um prêmio em dinheiro, tendo a tratar o valor recebido de forma diferente daquele proveniente do meu salário.

8. Heurística de disponibilidade

A heurística de disponibilidade é a tendência de superestimar a probabilidade de eventos com maior “disponibilidade” na memória. 

Isso faz com que investidores suponham que um ativo que vem subindo de preço tenderá a continuar subindo eternamente.

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9. Efeito de disposição

O efeito de disposição é simples: ele mostra que temos a tendência de vender ativos que subiram de preço e resistir à venda de um ativo que perdeu seu valor.

10. Desconto hiperbólico

O efeito de desconto hiperbólico mostra que tendemos a ter preferência por recompensas imediatas. 

Um exemplo: se perguntarmos às pessoas se preferem um valor de R$ 1.000 hoje ou R$ 1.100 daqui a um ano, a maioria tende a escolher a primeira opção. 

Já se perguntarmos se preferem R$ 1.000 daqui a um ano ou R$ 1.100 daqui a dois anos, a maioria tende a esperar mais tempo. 

A preferência modal se altera mesmo considerando que nos dois casos a taxa de juros de 10% ao ano permanece.

Neste artigo, você entendeu como os vieses cognitivos surgiram, e descobriu quais são os 10 mais comuns no mercado financeiro.

Tudo isso é importante porque, ao entender como nosso cérebro funciona no momento de decisão, podemos aprimorar nossa capacidade de decidir. 

Nos próximos artigos, iremos nos aprofundar nesses vieses e demonstrar como o investidor pode entendê-los e se proteger deles. 

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