As consequências da guerra entre Rússia e Ucrânia: confira os destaques do bate-papo da Warren com Daniel Leichsenring, da Verde Asset  

Quais as consequências da guerra entre a Rússia e a Ucrânia para o mundo? Por quanto tempo elas devem durar? E no Brasil, quais são os reflexos desse conflito?

Para responder esta e outras perguntas, a Warren organizou um bate-papo especial em nosso canal do YouTube.

Convidamos o economista-chefe da Verde Asset, Daniel Leichsenring, para debater com Eduardo Otero, nosso Head of Asset Allocation & Funds of Funds, e Carlos Macedo, especialista de Asset Allocation & Funds of Funds.

A conversa foi transmitida em nosso canal do Youtube no dia 17 de março. Abaixo, você confere os destaques do encontro.

Vamos lá?

O contexto mundial pré-conflito

O mundo caminhava, a passos largos, para diminuir o estímulo monetário, fazendo com que houvesse uma desaceleração da economia, com vistas a controlar a inflação — os Estados Unidos atingiram o maior índice desde o início dos anos 1980.

Problemas decorrentes da pandemia da Covid, como a interrupção nas cadeias produtivas, contribuíram para a alta da inflação. No Brasil, outros fatores também impactaram o aumento, como problemas fiscais, elevação das commodities e depreciação do câmbio. 

“No Brasil, fechamos 2021 com uma inflação próxima dos 10% ao ano. Então, obviamente, haveria uma desaceleração das economias, com uma perspectiva de ver a inflação menor mais adiante”, explica Leichsenring, acrescentando que “no âmbito mundial, todos os problemas que estavam sendo enfrentados se acentuaram com o conflito”.

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As causas do conflito entre Rússia e Ucrânia

Segundo o economista, foram duas as principais motivações da invasão russa: 

Motivação geopolítica: não necessariamente de ampliação do território, mas na esfera de influência.

Expansão da Otan no oriente europeu: havia uma percepção de vulnerabilidade por parte da Rússia, entendendo como provocação do ocidente a instalação de bases militares e equipamentos de guerra muito próximo de suas fronteiras.

“Mas vale destacar que os países que integram a Otan são todos democráticos. E não há eventos recentes, ou mesmo mais remotos, de invasões da Otan a alguma nação soberana”, pondera.

Na busca por vitória, o acúmulo de derrotas 

“Se Putin tinha o interesse de tornar a Ucrânia um Estado sob a inteira influência da Rússia, até agora, as medidas não caminharam nesse sentido. A Ucrânia tem se mostrado forte, surpreendendo inclusive a Rússia. Mesmo no leste ucraniano, que tem origem russa, a reação é de repulsa ao domínio”, avalia Leichsenring.

Outra derrota, para ele, é que no intuito de afastar a Otan, garantindo ainda mais isolamento e proteção militar à Rússia, Putin obteve como resposta o reforço das bases militares de diversos países nas bordas do país.

Em terceiro lugar — mas não menos importante — estão as inúmeras sanções econômicas.

As sanções

De acordo com o economista, em um contexto de guerra são esperadas sanções da ordem de comércio — como interditar bens de pessoas ou de empresas.

“Mas o nível foi extraordinário, a começar pelo bloqueio dos ativos do Banco Central que estão depositados nos outros bancos centrais ao redor do mundo. Na prática, isso congela a capacidade da Rússia de usar suas reservas em dólar ou euro”, explica. 

Outra sanção inesperada foi a retirada de boa parte do sistema bancário russo do Swift (Sociedade de Telecomunicações Financeira Mundial), mantendo apenas  os bancos diretamente ligados ao comércio de petróleo. A medida inviabilizou boa parte das transações financeiras entre a Rússia e praticamente qualquer país.

Houve também a recusa de qualquer embarcação russa em portos do mundo todo

Para ele, não se pode esquecer também do peso da opinião pública mundial diante da invasão. Citou como exemplo a Shell, que recentemente comprou petróleo russo — mais barato agora — e sofreu retalhamento nas redes.

Diante disso, a companhia decidiu que toda a receita proveniente daquele carregamento de petróleo seria destinado às vítimas na Ucrânia.

“A probabilidade é o aumento das sanções, mesmo que o conflito venha a terminar em breve, algo que não parece provável”, acredita o economista.

O impacto das sanções no longo prazo

Na visão de Leichsenring, mesmo se as sanções fossem rompidas, alguns posicionamentos da opinião pública podem se manter para sempre — e isso gera impacto ao longo dos anos não só para os países em conflito.

“Há coisas que mudam a nossa percepção do que é justo, do que é bom ou ruim para sempre. Uma guerra tem essa capacidade. A Apple, por exemplo, rompeu sua relação com a Rússia. Imagine se ela eliminar as sanções, mesmo daqui a algum tempo. Como reagiriam as pessoas? Será que não haveriam protestos contra a marca?”, reflete.

Conforme ele, é cedo para sabermos em que nível o futuro será moldado a partir desses episódios, mas algumas mudanças parecem já estar sendo desenhadas.

Uma mudança significativa deve ocorrer na Europa. 

“A Europa vai querer, a todo custo, se tornar independente da Rússia do ponto de vista de energia. Então talvez a Alemanha, por exemplo, volte a construir usinas termonucleares”, acredita o economista.

Corroborando com a ideia de que ainda é cedo para sabermos o peso das mudanças, Leichsenring traz outro ponto.

“Em paralelo a esse movimento, há uma mudança da sociedade em torno do ESG. Então teremos um cenário em que determinados países se sentem obrigados a tomar medidas para independência energética, ao mesmo tempo em que, pelo menos no começo, vão ter que utilizar energias não-renováveis. Isso vai gerar um custo mais elevado, além do impacto climático. Mas é necessário para que se viabilize a revolução energética na Europa”.

Outra repercussão deverá ser a corrida armamentista.  

“Isso não necessariamente vai desencadear um processo de guerra, mas vai ter países que vão se munir de muito mais poderio militar para defesa própria”.

As cadeias de produção também deverão sofrer impactos prolongados.

Os dois países em guerra desempenhavam importante papel no fornecimento de commodities como petróleo (no caso da Rússia) e de trigo (tanto a Rússia quanto a Ucrânia).

Ele acredita que precisaremos encontrar substitutos, seja de fornecedores ou realizando algumas substituições. 

No caso do petróleo, a Rússia produz cerca de 10 milhões de barris por dia, sendo que 6 milhões eram exportados. 

E diante deste cenário, a inflação mundial deve subir ainda mais.

O cenário que se desenha no Brasil

Se a previsão é que a inflação suba no mundo todo, aqui não seria diferente.

“Vamos precisar de uma reação político-monetária maior do que aquela visualizada anteriormente. Naturalmente, vamos ter que pagar o custo dessa desaceleração econômica”, antevê.

No entanto, para Leichsenring, este é um contexto que deve apresentar também benefícios.

“Juros mais altos e commodities muito mais altos dão amparo para o câmbio. Eventualmente, veremos o real mais valorizado, compensando em partes a inflação”, acredita.

No âmbito dos investimentos, para ele, a oportunidade está na aplicação em produtos indexados à inflação, já que ela protege o investidor da elevação da taxa.

Ele acrescenta:

“Se a inflação voltar a ser 10% ao ano por conta de desequilíbrios macro ou políticas fiscais desastrosas no próximo governo, a curva de juros real, hoje, garante quase 6% de juro real ao ano. Em termos reais, você dobraria seu capital a cada oito anos”.

Leichsenring não se declara um especialista em investimentos em ações, mas traz sua visão. “Há empresas brasileiras que estão baratas e possuem retorno muito significativo, principalmente em setores defensivos, como o de distribuição de energia”.

Para ele, se mesmo nos setores defensivos há boa expectativa de retorno, significa que há uma série de outros segmentos da economia que também têm retornos potenciais importantes.

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