Jurandir Sell revela seus maiores erros e acertos na Bolsa  

Quando a Warren me pediu para contar sobre meu maior erro e meu maior acerto na Bolsa, logo pensei que seria um artigo difícil de escrever. E foi! 

Os erros foram muitos, e deles gosto de falar. Já os acertos foram poucos, e não me sinto muito confortável em falar sobre eles.

Sei que parece estranho, já que a maior parte das pessoas prefere falar das suas vitórias. Então, preciso fazer um registro: eu não sou um investidor, mas um professor que investe. 

Como professor, acredito que revisar o erro ensina mais do que acertar.

A minha maior vitória na Bolsa

Vou começar pelo mais difícil, a vitória. 

No lançamento do Plano Real, a Klabin era negociada a cerca de R$ 1,30. 

Na época, suas atividades eram fortemente baseadas em exportações, e um dólar barato prejudicava muito a empresa. 

Além disso, existia um problema com o pagamento de royalties pelo uso das marcas Klabin, e os papéis tinham baixa liquidez, o que colocava as ações longe dos olhos de investidores institucionais.

Com esses problemas, a cotação começou a cair muito. 

Em outubro de 1998, as ações da Klabin chegaram a ser negociadas na faixa de R$ 0,14. O valor de mercado da companhia era menor do que o valor de suas terras. 

Ou seja, se fossem jogadas fora todas as florestas e as fábricas, e fossem vendidas apenas as terras, as dívidas seriam pagas e os acionistas seriam remunerados.

Além disso, em 1998, parecia claro que a âncora cambial do real em relação ao dólar era insustentável – e uma desvalorização do real beneficiaria muito a Klabin.

Diante desse cenário, meu sócio Luiz Toresan e eu resolvemos concentrar boa parte dos nossos investimentos em Bolsa na Klabin.

No início de 1999, o governo foi obrigado a liberar o câmbio, e a maxidesvalorização do real aconteceu. 

Em 2000, eu vendi minhas ações por R$ 1,70, tendo um lucro espetacular. Essa foi a minha maior vitória na Bolsa.

A minha maior derrota na Bolsa

Agora, a derrota mais sofrida. Em 1983, eu era estudante na Universidade Federal de Santa Catarina, e fomos fazer uma visita de estudos no setor agroindustrial do estado. Visitamos a Sadia, a Perdigão e a Aurora. 

Na Perdigão, fomos recebidos em uma sala onde estava gravada a frase: “Neste porão ‘Seu’ Saul Brandalise começou a empresa abatendo um porco por semana”. 

Depois, vimos um filme muito bem produzido apresentando a corporação, desde sua fundação em 1939, seu crescimento e seus valores. Voltei para casa decidido a investir na Perdigão. Comecei aos poucos, até porque ganhava muito pouco.

Não lembro exatamente o ano, porém lembro a dor do tombo. 

A cotação da Perdigão começou a cair, e eu entrei na pior estratégia que alguém pode ter, que é tentar fazer preço médio na queda

No mercado, isso se chama tentar segurar uma faca que está caindo.

Cego pela paixão, não prestei atenção nos graves problemas de governança corporativa e sucessão pelos quais a empresa passava. Simplesmente, eu não acreditava que uma companhia que eu julgava tão boa pudesse cair tanto.

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Chegou a um ponto em que coloquei todos meus investimentos ali.

Quando me casei, minha esposa deu entrada em um pequeno apartamento, e eu assumi o compromisso de pagar as prestações. 

No auge da minha loucura pela Perdigão, parei de pagar as prestações do apartamento por quase dois anos para comprar as ações da empresa. 

E o pior: escondido da Celina.

Um dia, tive que liquidar meu mico predileto. Felizmente, consegui pagar o financiamento e, vários anos depois, contei para a Celina sobre a minha infidelidade financeira. Hoje rimos muito de toda essa história.

É estranho. Meu maior acerto foi em uma corporação que sempre detestei, e meu maior erro foi em uma pela qual me apaixonei.

O que podemos concluir desses erros e acertos?

Hoje, quando olho para trás, tenho certeza de que eu teria alcançado mais sucesso se tivesse desde o começo entendido que o mercado é mais inteligente do que eu e que a melhor estratégia é a diversificação

O mercado está cada vez mais eficiente, é muito difícil encontrar uma empresa com preços extremamente depreciados.

Antes de terminar, gostaria de dizer que o que contei é passado

O que mais temo, hoje, é o que aconteceu com um ex-aluno que fez um curso de renda variável comigo em meados dos anos 1990. Nesse curso, eu abria minha carteira.

Encontrei esse aluno uns dez anos depois, e ele veio contente me falar que finalmente tinha na carteira dele todas as ações indicadas por mim. 

Eu fiquei apavorado, pois quase todas as ações que eu tinha na época já não faziam parte da minha carteira tanto tempo depois. Depois desse dia, nem sob tortura revelo meus investimentos.

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