Opinião

Gerenciamento de volatilidade: reduzindo os riscos em momentos de crise

Publicado por
Igor Cavaca

Nas últimas cinco décadas, os mercados financeiros testemunharam uma mudança estrutural na indústria de gestão de investimentos, passando de estratégias ativas e discricionárias para um viés de investimentos mais sistemático e passivo. 

Os fundos ativos permitem que os gestores de investimento comprem e vendam estrategicamente ações e outros ativos em um esforço para superar um benchmark definido (ou seja, uma referência pré-estabelecida).

Em contrapartida, os fundos passivos procuram seguir um índice mantendo todos os seus ativos constituintes ou uma cesta de ativos que imita um determinado índice

Um estudo de pesquisadores do Federal Reserve, banco central americano, mostrou como os fundos passivos representam uma parcela significativa do universo global de fundos de investimento hoje.

Em março de 2020, os fundos de ações considerados passivos representavam 48% do total de AUM (assets under management ou “ativos sob gestão”, em português) de fundos mútuos abertos e fundos negociados em bolsa. Em 1995, as estratégias passivas eram menos de 5%.

Essa tendência tem tornando a indústria mais eficiente e transparente, gerando potenciais benefícios e redução de custos para os investidores.

Efeito dos fundos passivos no mercado

Mas o crescimento dos fundos de investimento passivos também tem gerado um debate sobre seu possível impacto no mercado financeiro. 

Alguns dos pontos levantados discutem as regras mecânicas do investimento passivo, que podem gerar distorções na precificação de títulos individuais.

Por exemplo, sempre que entram recursos em um fundo passivo, o gestor compra uma determinada carteira pré-definida, vendendo a mesma carteira quando recursos saem.

Essa forma de investir pode gerar potenciais efeitos sobre o mercado, como:

  • Concentração setorial;
  • Preços de ativos inflados;
  • Volatilidade;
  • Dificuldade liquidez de mercado; e
  • Concorrência, entre outros fatores.

Além disso, há também a preocupação de como essa tendência pode contribuir para desestabilizar a dinâmica dos preços e ampliar os padrões de negociação dos investidores.

Investidores de varejo normalmente intensificam esse efeito: eles compram cotas de fundos que recentemente registraram retornos positivos e vendem cotas de fundos que recentemente registraram retornos negativos.

Assim, um choque negativo no mercado financeiro pode causar saídas expressivas de recursos dos fundos e deprimir ainda mais os preços dos ativos, amplificando os efeitos de uma crise. A última crise financeira de 2008 mostrou os efeitos perversos dessa tendência. 

Estratégias para gerenciar a volatilidade

Desde então, as estratégias de gerenciamento de volatilidade ganharam atenção, devido à sua suposta capacidade de aumentar o retorno do portfólio e mitigar o risco, pois a diversificação é insuficiente para controlar o risco em um ambiente de estresse. 

A estratégia que busca um nível de volatilidade é uma estratégia sistemática que investe em um ativo de risco e em um ativo sem risco. Dessa forma, a exposição ao mercado de ações aumenta ou diminui dependendo de como está a volatilidade do mercado.

Um volume crescente de literatura sobre estratégias de investimento baseadas em volatilidade-alvo mostrou que o tempo e a gestão da volatilidade de fato reduzem o risco de queda e tendem a superar o desempenho dos fundos passivos.

Uma série de estudos acadêmicos vem mostrando o potencial dessa estratégia. Quando utilizada, a tática de target de volatilidade pode ajudar a reduzir a curtose dos retornos e corte das caudas esquerda e direita da distribuição.

Isso é valioso para o investidor, pois diminui o risco de grandes perdas quando exposto a uma estratégia simples de rastreamento passivo de índice. 

Essas alocações que reduzem o risco quando a volatilidade é alta produzem grandes alfas, aumentam os índices de Sharpe e produzem grandes ganhos de utilidade para investidores.

Sem contar que as estratégias funcionaram bem durante períodos como a Grande Depressão, o crash do mercado de ações de 1987 e a crise financeira de 2008.

Abaixo, temos o resultado de um estudo que fizemos internamente com uma possível variação da estratégia de target de volatilidade. Como pode ser visto, a estratégia gerou maior retorno e redução de risco frente à estratégia buy-and-hold do benchmark.

Esse é um exemplo de como a tática pode ser usada na prática. Já conhecia esse tipo de estratégia?

Estratégia de volatilidade-alvo para o Índice S&P 500, 2011 a 2022. Fonte: Elaboração própria com dados do Yahoo Finance.

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