Você está gastando muito ou apenas se cobrando por não viver a vida mais barata?  

Eu escuto diariamente o desabafo de pessoas que sentem que estão gastando muito.

Quando questiono quanto exatamente deveria estar sendo gasto, já que o custo atual incomoda, a resposta é sempre a mesma: “ah, não sei… menos!”

Curiosamente, essa queixa não costuma vir só de quem está lidando com o endividamento, mas também de pessoas que já são organizadas financeiramente e conseguem poupar todos os meses.

Essa correlação entre poupança e desconforto com os gastos não é por acaso.

A ausência de dívidas é um indício de que ensinamentos da Educação Financeira já foram consumidos e esse conhecimento carrega um viés perigoso para a relação com os gastos.

O discurso hegemônico da área é pautado pela importância de economizar, indicando os problemas causados pelo consumo excessivo e compartilhando métodos para gastar menos e poupar mais.

É raro encontrar conteúdos sobre Finanças Pessoais que abordem os gastos de uma forma positiva, incentivando a realização de desejos e o respeito por preferências e individualidades.

Dentre a infinidade de textos, vídeos, livros e posts que abordam o planejamento financeiro, muito se fala sobre como o uso incorreto do dinheiro pode tornar a vida infeliz, mas quase não se fala sobre formas de usar os gastos como meios para uma vida mais feliz.

Essa ênfase em problemas financeiros e na redução de despesas promove no público a impressão de que os gastos devem ser evitados e que o correto seria gastar o mínimo possível.

O grande equívoco dessa abordagem é confundir ausência de mal-estar com presença de bem-estar na relação com o dinheiro.

É necessário se afastar de problemas, mas também é importante buscar alegrias e realizações. Alguém que não está infeliz não necessariamente está feliz

Em um relacionamento, por exemplo, brigas e traições tornam o casal infeliz, mas não basta a ausência desses fatores para que os dois estejam felizes. É preciso diálogo, sintonia e bons momentos para que exista felicidade no relacionamento.

O mesmo vale para a sua vida financeira.

Ficar longe das dívidas e poupar para o futuro é fundamental para prevenir dores de cabeça, mas o seu bem-estar financeiro não se resume a evitar problemas.

Os gastos que tornam a nossa vida mais confortável e prazerosa geralmente não são as alternativas mais econômicas e é preciso ter consciência de que pode fazer muito sentido gastar mais com determinados itens, mesmo quando isso nos afasta da ilusória missão de gastar o mínimo possível.

Preparar todas as refeições em casa é bem mais barato do que sair para comer no final de semana ou recorrer ao delivery, mas dá muito mais trabalho e não gera a mesma satisfação de uma comidinha pronta sem panelas esperando para serem lavadas.

Usar o transporte público custa muito menos do que pedir um carro por aplicativo ou ter o próprio carro, mas pode ser desconfortável e demorar muito mais.

Se fosse para cumprir fielmente a regra de reduzir e cortar gastos sempre, ninguém viajaria, por exemplo, já que é mais barato ficar em casa. 

Economizar pode não ser a escolha mais sensata ou agradável em muitos contextos e, por isso, o custo das coisas não deve ser o único parâmetro das nossas decisões financeiras.

Pessoas têm rendas, perfis e objetivos diferentes, então não há um referencial que sirva para todo mundo, mesmo que em porcentagens, de quanto deve ser gasto.

Em vez de analisar a proporção dos gastos, usando referenciais arbitrários de muito, pouco, caro ou barato, eu prefiro considerar um outro fator, bem mais coerente com o propósito de viver a melhor vida que o dinheiro pode proporcionar: a viabilidade.

Os gastos precisam ser viáveis para que o conforto e os mimos sejam bancados sem que o prazer do consumo no presente se converta na dor das dívidas e da falta de realizações no futuro. 

Essa análise de viabilidade só é possível com um bom planejamento financeiro. 

Faça uma projeção completa dos seus gastos, identifique prioridades, poupe de acordo com os seus objetivos e, principalmente, avalie formas de manter no orçamento o máximo possível de itens que tornam a sua vida mais feliz!

Você realmente está gastando muito ou apenas se cobrando por não viver a vida mais barata?

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