É hora de comprar ações? Conheça a opinião dos analistas Celson Placido e Fred Nobre  

Afinal, a bolsa está “barata”? É hora de comprar ações, mesmo diante do cenário de incertezas macroeconômicas?

Para responder essas e outras perguntas, a Warren organizou um bate-papo especial no canal Warren Analisa.

Convidamos nosso CIO, Celson Placido, e o líder do time de Análise de Investimentos, Frederico Nobre, para debater o tema.

A conversa foi transmitida em nosso canal do Youtube no fim de maio. Abaixo, você confere os destaques do encontro, e também pode conferir o vídeo completo. 

Vamos lá? Acompanhe!

De olho nos movimentos do mercado em 2022

Antes de tentar responder se é o momento de comprar ações, vale a pena entender os movimentos do mercado neste ano.

Até o momento, os ativos ligados a commodities são aqueles que têm performado melhor no ano, diante da alta dos preços, que foi acentuada pela guerra no leste europeu.

Por possuir companhias exportadoras de commodities em peso em sua composição, a bolsa brasileira tem se mostrado resiliente em relação aos demais mercados acionários, que, em geral, caem fortemente diante da estagflação (inflação elevada e baixo crescimento econômico) global e do clima de aversão ao risco decorrente. 

Em meio ao cenário macroeconômico incerto, inclusive, tem-se percebido uma tendência entre os investidores de busca por companhias com perfil de valor — ou seja, sólidas em seus resultados, trazendo certa previsibilidade aos acionistas —, em detrimento de companhias com o perfil de crescimento —  com potencial de expansão acelerada, mas que implicam em maiores riscos. 

Essa preferência pode ser vista a partir do grande descolamento da performance do Índice de Dividendos da B3, o IDIV, que acompanha o desempenho de ações de valor que distribuem dividendos periodicamente, em relação ao índice de small caps, o SMLL, que acompanha papéis de crescimento.

“Em um primeiro momento de queda, [a companhia com o perfil Small Cap] sofre mais. E, no momento da retomada, demora mais um pouco, mas gera um maior upside (potencial de alta)”, pondera Placido, sinalizando que, apesar da recente queda no desempenho dos papéis de companhias com esse perfil, há oportunidades entre as small caps.

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Cenário macroeconômico e repercussão no preço dos ativos

A tendência de elevação do preço das commodities se estende desde 2020, o que contribuiu significativamente para a alta inflacionária, fortemente correlata. 

Piorando o cenário, este ano, com a guerra, a elevação dos preços se intensificou, diante da retirada da Rússia da cadeia de suprimentos global.

“[Com a guerra,] além da crise relacionada ao aumento dos preços de energia, que acabou impactando a inflação no mundo inteiro, principalmente a Europa, muito dependente do gás, vimos também uma elevação drástica nos preços de alimentos. A Rússia e a Ucrânia são importantes exportadoras de trigo e milho e essas matérias-primas são fundamentais para o consumo global. Isso acaba gerando inflação e propagando essa inflação em outras cadeias”, pontua Nobre.

O preço das commodities metálicas, por outro lado, arrefeceu recentemente, muito por conta da redução da demanda da China, diante dos lockdowns para a contenção da disseminação do coronavírus e da consequente redução da atividade econômica. Mantém-se, porém, em patamares muito acima da média.

Já o preço de fretes disparou com os lockdowns, especialmente em razão dos impactos da redução do escoamento de mercadorias pelo porto de Xangai na logística global, que devem se estender por meses. 

O panorama pode se refletir nos resultados de companhias afetadas pelo atraso em entregas, por exemplo.

Tudo isso leva a um cenário de alta inflacionária mundial

Para contê-la, os bancos centrais tendem a elevar as taxas de juros. Esse movimento foi adiantado pelo Bacen em relação aos pares do exterior, resultando em um alto diferencial de juros.

“Na minha opinião, o principal catalisador negativo para bolsa brasileira é um possível aumento muito acelerado nos juros nos Estados Unidos, acima do que o mercado vem precificando”, pontua Nobre, que explica que “no momento que você tem uma elevação de juros dos Estados Unidos, você tem uma fuga natural de ativos de risco e uma correlação negativa com o mercado de ações”.

Ou seja: uma remuneração maior para os títulos públicos americanos acaba afastando os investidores globais dos ativos de maior risco — como a bolsa brasileira. Como resultado, os preços caem.

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Análise do preço da bolsa brasileira para saber se é hora de comprar ações

preço bolsa brasil, ilustração

Depois de passar pelos movimentos do ano e o cenário macroeconômico, é hora de analisar o preço da bolsa de valores brasileira.

Afinal, a bolsa está barata? É hora de comprar ações?

Uma forma de avaliar um ativo, índice ou até a bolsa como um todo é via múltiplos — indicadores de companhias extraídos de seus demonstrativos financeiros e do mercado. 

Os múltiplos não devem, porém, ser analisados isoladamente. 

É necessário entender o que guiou os resultados e quais comparáveis podem ser utilizados para realizar projeções a partir deles. De todo modo, eles servem como pontos de partida

Um dos principais múltiplos utilizados no mercado acionário é o Preço/Lucro (P/L), dado pelo preço da ação dividido pelo lucro por ação. 

Um P/L alto pode indicar que uma ação está supervalorizada ou que o mercado tem boas expectativas para uma empresa — o contrário é válido. 

Nesse sentido, Nobre avalia que “no caso do Preço/Lucro da bolsa no Brasil, houve uma combinação de queda nos preços, pelo cenário de Bear Market (mercado em baixa), e aumento nos lucros. As empresas estão gerando melhores resultados” e conclui que “em comparação aos preços, os lucros das empresas vêm melhorando. Estamos em uma região interessante em termos de Preço/Lucro olhando para o Brasil”.

Já olhando para o múltiplo Dividend Yield, que verifica o rendimento de um ativo somente com o pagamento de dividendos, Nobre afirma que “esse indicador subiu muito. As empresas estão pagando muitos dividendos” e completa que “estamos vendo um Dividend Yield muito interessante olhando para os ativos da bolsa brasileira. Claro, olhando para o perfil das maiores empresas, voltadas para o valor, e não Small Caps e empresas de growth (crescimento), que, em geral, não pagam dividendos”.

Nessa linha, afirmando que as próprias companhias estão avaliando os preços de suas ações como convidativos, Placido complementa que “estamos vendo muitas recompras [de ações pelas companhias emissoras], muitas fusões e aquisições”. Adiciona que “[as ações] têm um retorno enorme. [A companhia] não precisa reinvestir ou crescer. Prefere segurar [as ações] para depois crescer novamente”.

Já avaliando o múltiplo Preço/Livro, dado pelo valor de mercado de uma empresa dividido pelo seu valor patrimonial, Nobre conclui que está “bem abaixo da média histórica, bem próximo do percentil 1.5 da série, então o Preço/Livro das empresas na bolsa está bem interessante”.

Mesclando os três indicadores, Preço/Lucro, Dividend Yield e Preço/Livro, é possível verificar a taxa de crescimento implícita na bolsa, olhando para estimativas, e, assim, calcular o prêmio de risco em relação aos investimentos em renda fixa

Nobre relata que na bolsa brasileira, atualmente, “esse prêmio de risco é positivo e crescente, mesmo que os rendimentos da renda fixa sejam crescentes também, porque os lucros e dividendos estão crescendo acima, o que é um indicador extremamente importante, combinado com os múltiplos”.

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Análise setorial: comprar ações de quais setores?

comprar ações de quais setores, ilustração

Em linha com a tendência atual do investidor por investir em companhias de valor e que distribuem dividendos, Nobre afirma ser preferível investir nos setores de materiais básicos, que englobam as commodities, e de energia elétrica, que têm tido as melhores performances desde 2020. 

Em relação ao segundo setor, Nobre explica que as companhias ligadas à energia elétrica performaram melhor do que a média por serem “empresas perenes, com contratos previsíveis, que conseguem repassar a inflação”.

Nobre revela ter preferência, também, pelo setor bancário, que avalia estar “muito descontado no momento atual”, adicionando que, “as cotações não refletem os fundamentos das empresas, principalmente olhando para os grandes bancos, que achamos que têm bastante oportunidade, dividendos interessantes e potencial de valorização no médio prazo.”

Na outra ponta, a maior aversão é direcionada aos setores mais suscetíveis à inflação

Com isso, companhias de varejo, de imobiliário e de tecnologia levantam certo receio, sendo preferível, caso desejável manter a exposição a esses setores, focar em empresas que atendam classes econômicas mais altas — menos suscetíveis à pressão inflacionária — ou que forneçam serviços ou produtos mais essenciais.

Neste artigo, nós passamos pelos principais destaque da conversa entre Placido e Nobre, trazendo a visão dos analistas para o dilema do momento: “é hora de comprar ações?

Vale lembrar que o investimento em ações deve ser realizado apenas por quem já formou a reserva de emergência, e cujo perfil de risco é compatível com a renda variável.

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