Inflação: o pior já passou? Confira os destaques do bate-papo da Warren com Victor Wong, da Vinland Capital  

Quais são as expectativas quanto à inflação para os próximos meses? Como elas devem influenciar as decisões de investimentos?

Para responder essas e outras perguntas, a Warren Analisa organizou um bate-papo em nosso canal do YouTube.

Convidamos Victor Wong, economista da Vinland Capital, para debater com Carlos Macedo e André Poppe, analistas do time de Asset Allocation & Funds of Funds da Warren

A conversa foi transmitida em nosso canal do YouTube no dia 14 de julho. 

A seguir, você pode assistir à íntegra da transmissão, e também conferir os destaques do encontro, que relatamos abaixo.

Vamos lá?

Por dentro das causas da atual inflação elevada

Em razão da pandemia, houve uma tendência global de concessão de estímulos à demanda via políticas monetárias e fiscais

Respondendo aos incentivos e com a reabertura das economias e o avanço da vacinação, a demanda cresceu de forma acelerada, não tendo sido acompanhada de forma proporcional pela oferta de bens e serviços. 

Sendo assim, os preços escalaram de forma rápida, considerando, inclusive, problemas de oferta resultantes da ruptura das cadeias produtivas, diante, sobretudo, dos avanços da pandemia na China associados à política de “covid zero”.

“[A política de covid zero gera] lockdowns em algumas províncias e essas províncias, dependendo da região, são produtoras bem importantes na cadeia produtiva global. Isso faz com que se tenha alguma restrição por parte da oferta”, esclarece Victor Wong, apontando que, “por outro lado, a demanda voltou muito rápido (…), então o descasamento entre essa demanda forte e essa oferta fraca fez com que a inflação no mundo todo chegasse aos patamares mais altos em mais de 20 anos”.

Além disso, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia contribuiu para a inflação elevada. 

“Apesar de os países não terem um percentual muito relevante no PIB global, são muito importantes em alguns tipos de commodities, como o petróleo e, [no caso da] Ucrânia, grãos. (…) Esse fato (…) fez com que o preço dessas commodities, alimentos e energia também levaram a inflação a patamar bem alto”, complementa Victor Wong. 

O atual cenário inflacionário

Nos EUA, o Índice de Preços ao Consumidor atingiu 9,1%, patamar que não se vê há muito tempo. 

No Brasil, a inflação excede os dois dígitos, com o risco fiscal elevado contaminando ativos financeiros como a taxa de câmbio. 

Na Alemanha, chega a 8%, com a redução da oferta de gás, diante do conflito na Ucrânia… 

Portanto, em diversas regiões do mundo o cenário é de inflação elevada, diferentemente do que se via em um passado recente. 

Na avaliação de Victor Wong, a inflação, neste momento, tende a ser mais persistente do que o que se viu historicamente

Ele explica que, em uma dinâmica espiral, quando a inflação está alta, diante de mecanismos de indexação, como o reajuste de salários, que se propagam em meio ao aumento da demanda e, consequentemente, dos preços, o círculo acaba se retroalimentando.

“Também se pode esperar, quando a inflação está em patamares altos, que a expectativa de inflação acabe não ficando ancorada. Quando acontece esse processo de desancoragem, fica mais difícil a volta para patamares inferiores, perto da meta dos bancos centrais”, complementa. 

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A postura desejável do Federal Reserve

Para Victor Wong, o banco central dos EUA, no atual contexto, para controlar a inflação que pode se tornar persistentemente alta, deveria elevar os juros em um patamar que não seja completamente restritivo, fazendo com que a demanda desacelere e a inflação ceda, sem, de todo modo, resultar em uma recessão — mas esse é um jogo difícil. 

“Fazer com que a economia desacelere mantendo algum crescimento é um cenário que vemos como pouco provável. Isso porque, como a inflação está muito fora da meta, provavelmente vai ter que subir juros a um patamar que vai levar a economia provavelmente a territórios negativos”, avalia Victor Wong.

O pior passou?

Além disso, o economista não enxerga sinais claros de arrefecimento da demanda, cujo descasamento com a oferta tem representado o maior gatilho inflacionário, neste momento. 

Ele pontua, porém, que, olhando para uma métrica de 12 meses, o pior já pode ter passado

Portanto, ele espera, sim, que a inflação desacelere, mas ressalva que possivelmente para patamares ainda elevados.

Para o economista, de todo modo, não é simples antever o comportamento da inflação por meio de indicadores, por exemplo.

Desse modo, acredita não ser um momento para mudanças bruscas na alocação dos investimentos.

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De olho nos riscos altistas

Victor Wong não descarta que alguns fatores possam impulsionar ainda mais a inflação. 

Entre eles, o já mencionado risco fiscal, advindo, especialmente, da Emenda Constitucional 123/2022, cujo projeto ficou conhecido como “PEC Kamikaze”. 

Isso porque, ao viabilizar gastos de R$ 41,25 bilhões até o fim do ano em benefícios sociais, estimula ainda mais a demanda.

Quer saber mais sobre a PEC? Confira o vídeo abaixo sobre o assunto:

Além disso, outro fator apontado como vetor de alta inflacionária é o ciclo de elevação dos juros nos EUA, que resulta no possível fortalecimento do dólar ante o real, tanto diante da subida do diferencial de juros entre EUA e Brasil quanto com a precificação de uma eventual recessão, que resulta no aumento da demanda por “ativos seguros”, como o dólar. 

Além disso, apesar do arrefecimento recente, a eventual alta dos preços das commodities no mercado internacional é um risco altista. 

Cabe, dessa forma, acompanhar se as recentes quedas perdurarão ou se são efeito de mera especulação, considerando, especialmente, o contexto da economia chinesa, criticamente relacionada às commodities.

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Expectativa quanto à política monetária no Brasil

Como cenário básico, Victor Wong considera mais uma elevação de 0,5 p.p. na taxa básica de juros, a Selic. Porém, caso algum dos riscos mencionados incida, aumenta-se a probabilidade da adoção de uma postura mais rígida pelo Bacen.

O analista ressalta que, historicamente, a tendência é de que em momento de eleição o Bacen “saia de jogo” — ou seja, não altere a política monetária — e não espera que dessa vez seja diferente.

Porém, após o período eleitoral, dependendo do resultado e das variáveis econômicas, avalia ser possível que retome o ciclo de alta ou mantenha a política monetária inalterada. 

Ele acredita, porém, que cortes são menos prováveis, com as projeções para a inflação em 2023 superando a meta. 

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Perspectivas para a economia chinesa e potenciais impactos

Há um grande temor relacionado à possibilidade de novos lockdowns com o avanço das ondas de COVID-19, diante da propagação dos efeitos econômicos das políticas restritivas em âmbito global nos últimos meses. 

Apesar disso, Victor Wong não descarta a possibilidade de, mesmo em meio às restrições, serem mantidos níveis razoáveis de atividade econômica, como se viu no Ocidente. 

Isso diante, também, dos estímulos do governo chinês à economia, considerando, inclusive, a meta de crescimento ainda relativamente alta. 


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