Meu trato com a vida: ao invés de postais, coleciono momentos  

Um dia eu fiz um trato com a vida: nunca deixar de me surpreender com as coisas.

O tempo tem uma proporção bem desproporcional. Quanto mais a gente vê, menos a gente se encanta. E isso é muito triste, porque nada é mais justo com a natureza do que entregar um olhar puro sobre ela.

Uma paisagem fica muito mais bonita quando você a enxerga única. Tente ser mais rápido do que seus pensamentos e memórias e entregue reação antes de presunção. O bom é quando a gente se deixa afetar pela novidade de um jeito a perder as palavras, e é nessas horas que o corpo fala (chorando de alegria, gritando de felicidade, abrindo os braços pra sentir a liberdade). 

Na verdade, a natureza, a vida e certos momentos não têm explicação, então não tem porque medir ou comparar com palavras, só aproveitar! Nenhum lugar é igual ao outro e todos os lugares podem ser especiais e maravilhosos se a gente tiver esse sentimento no olhar.

Eu sei que a maioria das pessoas que viajam não têm todo o tempo do mundo para conhecer um mesmo lugar (nem eu, que vivo de viagem e viajando, tenho).

Mas toda vez que passo por experiências marcantes na estrada lembro que preciso reforçar essa mensagem (pra mim e para os que me lêem): “Escolher gastar um pouco do tempo ou todo o tempo com qualidade! Escolher gastar um pouco do tempo ou todo o tempo com qualidade”!

Mas por que raios eu estou falando isso?

Horas antes de começar escrever esse texto tive um estalo de emoção (é como chamo o inexplicável momento em que me emociono por estar ou chegar num determinado lugar e, do nada, absolutamente do nada, vem uma sensação de “consegui”, um frescor interior da realização de um sonho que nem sabia que tinha sonhado. Talvez um déjà vu?! Não sei. Te disse, inexplicável).

Neste exato momento, estou na cidade de Fez, no centro-norte do Marrocos. Me perdi pelas ruas da maior medina do mundo, e não busco me achar. Não busco nada, as coisas só se apresentam para mim.

Homens talhando mármore, esculpindo mesas, forjando bronze, desenhando em prata no meio da rua. Ruas estreitas e ao mesmo tempo cheias de gente, gente de hijab, gente de jelaba, gente de calça jeans, eu de mochila nas costas.

Sigo por esse labirinto de 9.400 ruelas, a cada novo beco uma outra faceta desse mesmo admirável mundo antigo que se preservou no tempo. 

Ah, o tempo! Não sei que horas são, não me interessa também! Não me programei, não me planejei, não mapeei nada, mas deu tempo de ver tudo, tudo no tempo certo.

Passei pelos telhados de bambu bem na hora em que a luz do sol entra e cinematograficamente ilumina o caminho. Caminhei por ela e encontrei a porta do forno público aberta, onde as mulheres levam a massa do pão cedo para assar. Cheguei em tempo para vê-las buscar. Parei para observar, só ver a vida passar! Uma outra vida, vida essa totalmente diferente da minha.

E nesse tempo me ofereceram pão, chá, um cubo de açúcar e dois dedos de prosa. Conheci um senhor cujo nome não consegui decorar, mas nunca vou esquecer seu título: “Eu sou conhecido aqui como o Marechal dos Torrones!”. Uau! Na terra dos torrones, conheci seu marechal (isso tudo “perdendo tempo” sentado).

Acompanhei o marechal. Ele me mostrou suas medalhas, vários países para onde seus famosos torrones caseiros já viajaram. Incrivelmente (não por sorte, porque o tempo é mágico, mas não azarento) seu souk (tenda) é exatamente do lado de uma fonte que queria muito encontrar. Ela é linda, um mosaico de azulejos coloridos do jeito que só o Marrocos sabe combinar.

Já teria sido perfeito fotografá-la ali vazia só pra mim, mas a encontrei exatamente na hora em que os tintureiros vieram buscar água. Segui-os e cheguei mais rápido do que o planejado, o tempo certo também tem dessas: coisas incríveis acontecem num piscar de olhos quando não desperdiçamos as oportunidades que aparecem.

Comecei sentir um cheiro forte. “Será que aqui são os tanques do curtume de couro?”, matutei. Cores para todos os lados, os 50 tons de marrom daquela parte da medina ganhavam manchas coloridas. Piso em água vermelha que corre pelo chão, minúsculas gotas amarelas escorregam de rolos de lã gigantescos e tocam o chão.

Me distraí e perdi quem seguia. Não tem problema, só de chegar aqui já ganhei bastante tempo. De repente um grito (que interpretei como “sai da frente!!!”) numa língua não identificada e uma fileira de burros carregados de couro seco atravessam meu caminho.

Sem pensar, peguei a caravana. “Pra onde vai me levar?”. Não sei, só o tempo sabe.

Eles vão abrindo o caminho e eu me sinto, mais do que nunca, misturado naquele ambiente. Ninguém me perguntando de onde eu sou, tentando acertar que idioma eu falo, se preciso de ajuda, se quero comprar algo… não dá tempo! A caravana passa e todos tem que sair da frente (e eu atrás).

Vejo uma placa onde se lê “Chouara Tannery panoramic view”. Jogo meu corpo para esquerda e entro por uma porta de madeira. Subo as escadas, encontro um rapaz sentado mexendo no celular. Ele fica feliz em me ver (“No tourists these times”) e me leva para o terraço. “Tenho tempo livre, vou te mostrar”.

Quase seis da tarde, o Sol em breve vai se pôr; preciso voltar para o meu riad (hotel) antes de escurecer, não posso me perder; espero que ele não me peça dinheiro por estar fazendo isso… Todos esses pensamentos passaram pela minha cabeça na fração de minuto que levamos para subir até o tal terraço (a mente não perde tempo, mas também demora a aprender).

Chegamos. Um mar de jaquetas de couro e uma montanha de bolsas também. “Pode seguir reto, já vou lá e te explico como funcionam os tanques de tintura”. Ele para para conversar com uma moça, provavelmente a funcionária da loja. Eu paro também. “Não acredito!”. Não sei porque fiquei nervoso, o coração acelerou, acho que a ficha está caindo que eu realmente estou no tal “Chouara Tannery panoramic view”.

“Mas WillyBoy, é só mais um cartão postal do Marrocos?! Desses bem famosinhos ainda por cima. Pô, tá me tirando que vai arrancar uma lágrima tua aqui”. E pá… o estalo de emoção. 

É, meu brother, a vida não falha, o trato segue firme e graças a Deus ela sempre cobra o nosso acordo.

Parece a coisa mais idiota do mundo, mas eu fiquei emocionado de ver esse lugar. Não sei qual o critério que meu coração usa pra ter esses estalos, mas tem lugares que me fazem sentir isso.

Talvez acione o Willyzinho moleque, sonhador, talvez seja um check na lista de um cara que ama viajar — e, querendo ou não, ver um símbolo do mundo na sua frente é realizador pra caramba!

Ruas da medina iluminadas pelos raios do sol.

O que posso afirmar é que é uma felicidade dobrada, pois fico feliz de ainda me pegar com essa sensibilidade, essa emoção infantil mesmo depois de tantos anos viajando, tantos destinos e lugares já vistos.

Mas sim, TÔ VIVO! Que bom que ainda me emociono com essas conquistas e que assim eu siga, sempre me impressionando com todos os destinos, dos mais inóspitos da terra aos mais famosos e “fúteis” (com muitas aspas).

A vida me cobrou a dívida, me lembrou que eu não tenho tempo a perder, pois ainda tenho muito tempo, até que ela mesmo prove o contrário. Me deu a oportunidade de conhecer uma cultura praticamente oposta da minha, mas que poderia também ser semelhante.

Não importa, no final das contas estou aqui fora e a questão é: como vou investir meu tempo aqui? Apenas comprando falsos postais ou realmente colecionando momentos?

Coleção demanda tempo, paciência e paixão, uma paixão quase nostálgica e infantil.

Olha só, colmeias de barro, com homens dentro, pisando em couro imerso em corantes naturais. Foi essa cena, num pôr do sol, que me fez virar criança de novo e entender que para certas coisas não vale a pena crescer, pois a surpresa é bem melhor quando a gente continua se sentindo pequeno apesar de carregar tanta experiência grande.

Aproveite os destinos que conhecer, os presentes que ganhar, as novas amizades que fizer, tudo como criança, bem bobo mesmo! Isso vai dar um verdadeiro valor para as coisas e te encher de gratidão e satisfação por onde você passar.

Temos um trato?

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