Elas chegaram para ficar: conheça a trajetória de 3 mulheres no mercado financeiro  

Mulheres que ganham menos do que homens, mesmo atuando no mesmo cargo. Histórias de prosperidade financeira protagonizadas por mulheres negras que não são reconhecidas quando o assunto é empreendedorismo. Ausência de referências femininas em cargos de liderança dentro de grandes bancos. Esses são alguns dos exemplos que surgiram nas conversas que tivemos com três mulheres do mercado financeiro. 

Vindas de diferentes contextos, Ana Leoni, Dina Prates e Thabata Abreu compartilham entre si o fato de, em algum momento de suas carreiras, terem sido um “peixe fora d’água” em um mercado ainda pouco diverso. Na Warren, a gente acredita que falar sobre equidade de gênero não é uma causa opcional, mas sim um compromisso de qualquer empresa que busca estar alinhada com o tempo presente.

Para empreendedores e investidores que ainda acham que há risco negativo ao se falar de questões sociais, podemos afirmar que a equidade de gênero é benéfica para negócios. Os resultados do Warren Equals, nosso fundo de ações focado em empresas que promovem equidade de gênero e possuem mulheres atuando em cargos de destaque, comprovam isso – criado há 6 meses, o fundo já atinge 12,09% de retorno contra 6,67% do Ibovespa no mesmo período.

Abaixo, conheça um pouco mais sobre a história, as inspirações e os projetos de três mulheres do mercado financeiro.

Ana Leoni: superintendente de Educação Financeira na ANBIMA

Porta-voz da frente de Educação Financeira na Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), Ana Leoni entrou no mercado financeiro em meados dos anos 90, no setor de atendimento de uma rede de cartões de crédito. Acostumada a trabalhar desde os 14 anos, a história de Ana é marcada pela consciência a respeito das diferenças de oportunidades no mercado de trabalho brasileiro.

Ana Leoni, foto

“Eu não falava inglês e não sabia ligar um computador. Os dois maiores desafios na minha vida eram esses. Falo isso para ilustrar como eu vim muito da base, sabe?”

Antes de chegar à ANBIMA, Ana atuou em diversas frentes do mercado financeiro: desde pensar a estratégia de marketing digital para instituições financeiras em um momento em que a internet recém começava a engatinhar, até a gerência de produtos de investimentos em um dos maiores bancos brasileiros na década de 2000.

Formada em Comunicação Social pela UNIP, fugindo do circuito FGV e USP que caracterizaram a formação de profissionais do mercado financeiro até pouco tempo, a experiência pessoal de Ana a ensinou que ser um “peixe fora d’água” não precisava ser algo negativo – era, na verdade, uma potência. 

Seu interesse por quebrar a bolha do financês e tornar acessível o seu trabalho para todo mundo, do cliente mais desinformado ao executivo mais estudado, fez com que ela desenvolvesse, por onde passasse, um papel de tradutora, mediando diferentes realidades que cruzavam o mercado financeiro.

“Eu demorei muito tempo para fazer as pazes comigo mesma e entender que, em vez de correr atrás de ser mais uma, eu devia preservar essa diferença que eu tinha.”

Com quase 60 mil seguidores, Ana concilia seu trabalho na Anbima com uma presença marcante no Instagram @dinheiro_com_atitude, onde busca falar sobre dinheiro de um jeito acessível e descomplicado. Quanto à diversidade e à questão de gênero, sua expectativa é que lideranças do mercado financeiro consigam entender o quão benéfico é ter um quadro de funcionários plural.

“Gestores que fecham as portas para a diversidade estão deixando de enriquecer o seu negócio. Se os negócios não conseguem refletir a sociedade, eles não têm vida longa pela frente.”

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Dina Prates: educadora financeira, contadora e #sonhadoranaprática

Formada em Administração e Contabilidade, a educadora financeira gaúcha Dina Prates busca aliar em seu trabalho a relação das finanças com as diferentes realidades que marcam o Brasil. Para Dina, pensar em investimentos e empreendedorismo é também resgatar a história de mulheres que há muito tempo movimentam a economia sem serem reconhecidos por isso.

Dina Prates, foto

“Construindo meu projeto de pesquisa no mestrado, eu decidi olhar para empreendedoras negras. Falar de empreendedorismo nesse recorte parece algo novo, mas é algo que acontece há muito tempo. 

No Brasil, por exemplo, temos o exemplo das mulheres do ganho, mulheres pretas que estavam na condição de escravizadas e que produziam produtos para vender para os seus senhores. Quando movimentavam suas economias, elas conseguiam comprar a alforria dos seus familiares e das pessoas em suas comunidades.”

Insatisfeita em ocupar um lugar apenas acadêmico, Dina entendeu que, além de contar essas histórias de empreendedorismo de homens e mulheres negros, ela também queria transformar a vida de quem ainda não consegue olhar para a sua realidade e ver lugar para investimentos e autonomia financeira. Assim, com a ajuda de uma rede de amigos e entusiastas do seu trabalho, ela construiu o seu próprio negócio de educação financeira, contabilidade e consultoria. 

“Sonhadora na prática”, como gosta de se chamar na hashtag de seu Instagram, Dina entende que empreender não é um processo individual, mas é sobre construir uma prosperidade conjunta.

“Eu falo de educação financeira a partir de uma universalidade preta, mas eu falo pra todo mundo. Então pessoas não-negras também podem se sentir representadas por essa realidade que eu trago.”

Quando perguntada sobre outras mulheres que a inspiram, ela conta: “minha maior educadora financeira foi minha mãe”. A referência familiar ocupa também o vazio deixado por não conseguir enxergar, no mercado financeiro, alguém que representasse as suas origens e seu contexto. 

É por isso que, pensando a longo prazo, Dina tem o sonho de levar o seu trabalho para toda a diáspora africana, além de poder investir e transformar negócios que hoje não ocupam o circuito clássico de empresas na mira de grandes investidores.

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Thabata Abreu: economista, consultora financeira e criadora do Finanças com Propósito

O caminho de Thabata Abreu pelo mercado financeiro começou quando ela se formou em Economia na Insper. “Eu fui praticamente escolhida por esse mercado”, Thabata brinca. 

Thabata Abreu, foto

Baseada em São Paulo, Thabata começou sua carreira em um dos maiores bancos corporativos e de investimentos da América Latina, onde ficou por cinco anos, com passagem pelas áreas de Tesouraria, Gestão de Caixa e Recursos Direcionados. Antes de começar a empreender, ainda trabalhou na B3, a Bolsa de Valores brasileira, na área comercial e de desenvolvimento de mercado.

Ao longo de sua carreira, Thabata relembra suas principais inspirações femininas: “Eu sempre tive a sorte de ter gestoras mulheres. Imagina só: começar a trabalhar na Tesouraria de um banco, um ambiente predominantemente masculino, extremamente agressivo – de 300 pessoas, devia ter só 10 mulheres – e uma dessas mulheres era minha chefe. Quando eu olhava para mulheres com cargos de liderança nesse espaço, isso me inspirava.”

Em 2016, Thabata criou o Finanças com Propósito, uma consultoria financeira para pessoas físicas e pequenas empresas onde ela aplica uma metodologia própria e busca estreitar a relação dos seus clientes com o dinheiro. Com a ajuda de amigos que a apoiaram em sua virada empreendedora, a economista recorda com carinho o feedback de uma de suas primeiras clientes, uma executiva do setor farmacêutico cuja carreira Thabata já admirava. 

“Depois de entregar toda a estratégia financeira para ela, ela ficou impressionada com o meu trabalho. Aí eu me senti empoderada, sabe? Eu me dei conta de que com o meu trabalho eu podia ajudar quem eu admiro.”

Sobre o lugar das mulheres no mercado financeiro, Thabata sente que o maior desafio é ver mais participação feminina em cargos de chefia. “O mercado financeiro não é uma área nova, onde há poucas mulheres – as mulheres já estão nesse espaço há muito tempo. O que essa discussão de equidade de gênero traz é a possibilidade de haver igualdade de oportunidades para crescer lá dentro.”