O que meu pai me ensinou sobre dinheiro  

Dinheiro é um tabu em muitas casas brasileiras. O que é uma pena, já que falar sobre isso desde cedo pode nos proteger muito dos solavancos financeiros ao longo da vida.

Esse não é um post com dicas de como os pais devem abordar o assunto com seus filhos. É apenas o relato de uma filha que aprendeu muita coisa sobre isso com o pai.

Meu pai foi uma pessoa muito realista. Me ensinou desde cedo que se deve gastar menos do que se ganha, que é preciso lutar pra ter o que se quer e que nada cai do céu.

Foi muito com o incentivo dele que comecei a trabalhar com 15 anos, dando aula em um curso de inglês na cidade em que eu morava, e que programei tudo o que eu queria fazer com o meu primeiro salário.

Mas os ensinamentos dele foram além disso. E hoje, quero dividi-los com vocês.

O valor do dinheiro

Quando eu tinha uns 8 anos, morávamos em um apartamento, que ficava quase ao lado da única loja que vendia revistas na cidade. 

Toda santa vez que passávamos por ela, na volta do colégio, eu olhava pra dentro e via aquelas prateleiras forradas de gibis da turma da Mônica e de revistinhas dos Cavaleiros do Zodíaco. Eram segundos valiosos de pura contemplação pra mim. 

Com a pequena Giovanna pedindo uma revistinha nova todos os dias (mesmo que não ganhasse), meu pai decidiu que era hora de me ensinar a ter noção sobre o controle e as escolhas que o dinheiro nos impõe.

Comecei a ganhar R$ 13 de mesada. E com aquele dinheiro, eu teria que comprar tudo o que queria em longos 30 dias. 

No primeiro mês, eu gastei toda a mesada comprando um CD (A Viagem Internacional) no primeiro dia de “pagamento”. Dias depois, pedi uma nova mesada, agora, pra comprar gibis. 

Meu pai se sentou do meu lado, e me explicou que mesada vinha de mês e que eu tinha que começar a controlar melhor os meus gastos ao longo das semanas. 

Ele foi comigo até à loja e começou a fazer conta. “Gio, com a tua mesada, você pode comprar 4 gibis e ainda sobra dinheiro pra comprar teus chicletes. Ou pode comprar 4 gibis, uma revista dos Cavaleiros do Zodíaco e guardar o restante para o próximo mês”. 

Vocês não fazem ideia do quanto eu me senti adulta depois daquilo. Eu entrava na loja e ficava horas escolhendo uma única revistinha por semana. A ideia era sempre diversificar. “Cebolinha eu já comprei na semana passada, então agora vamos de Chico Bento”. 

Até fiz amizade com a dona do comércio, que tinha toda a paciência do mundo de me ver folheando os gibis 1001 vezes antes de optar por um deles. 

Relações com dinheiro envolvem honestidade

Meu pai trabalhava muito. Fazia plantões de 48h em cidades vizinhas, atendia em hospitais, nos postos de saúde em alguns bairros mais carentes da cidade e no consultório. O cansaço era tanto, que já vi ele cair de sono e quase se afogar num prato de sopa durante o jantar.

No segundo ano ganhando meus R$ 13 mensais, meu olho cresceu mais que a barriga e sim, eu tentei burlar, de novo, o pagamento da mesada. Aproveitando a estafa mental dele, lá pela metade do mês, cheguei e pedi o valor, dizendo que não tinha recebido no início do mês.

Ele acreditou em mim e me deu novamente. No outro mês, a mesma coisa. No terceiro, a minha desonestidade foi pega em flagrante. “Há quanto tempo tu estás sendo desonesta comigo, Giovanna?”. Confessei meu crime e recebi um dos sermões que mais me marcou na vida.

Para o meu pai, confiança era a base de tudo. Ele detestava mentira. E quando o assunto envolvia esse tema, ele era muito, mas muito duro nas palavras. “Eu não confio mais em ti. E se for assim,  então nossa relação vai mudar daqui pra frente. Tu vais ficar 2 meses sem mesada e, quando voltar a receber, vai passar a assinar um recibo”. 

E ficou 3 dias sem falar comigo.

Eu era uma criança, eu sei, mas acredito que aquele papo foi determinante para que eu entendesse – e muito – o peso e a importância de ser honesta sempre.

Ser transparente em momentos de crise

Quando eu tinha uns 12 anos, em um certo momento, notei que meus pais andavam tensos e tendo altas conversas sobre dinheiro em casa. A família tinha perdido uma boa parte do orçamento mensal.

Lembro de ser chamada na mesa de jantar da cozinha (onde ocorriam todos os papos mais sérios) e ouvir dele que a situação estava bem difícil. “ Tempos difíceis estão por vir, minha filha. E preciso que você compreenda isso. Teu estudo o pai garante, mas todo o resto irá mudar”. 

Foi a primeira vez que vi ele chorar. E eu entendi o porquê. Filho de um imigrante italiano, que fugiu da Segunda Guerra e chegou no Brasil com uma mão na frente e outra atrás, nunca ganhou nada de graça. Tudo ele teve que lutar muito. 

Meu avô era muito rígido, pouco amável com a família, deu um total de zero apoio aos filhos. Meu pai conseguiu se formar e dar uma vida boa pra mim e pra minha mãe na base do trabalho árduo. Voltar quase à estaca zero era uma derrota pra ele.

Para sair da crise, investiu tudo o que podia em uma especialização. Estudou feito um doido. E ali eu entendi por que ele não abriu mão de investir na minha educação: porque ela nos leva longe. Graças às dezenas de cursos que ele fez, ele voltou com tudo. E eu morri de orgulho.

Sobre ser bom com as pessoas

Isso nada tem a ver com dinheiro, mas não posso deixar de falar. Além de um exemplo pra mim, meu pai foi muito bom para as outras pessoas. Sempre foi um cara bem-humorado, brincalhão, parceiro e jogava todo mundo pra cima.

Mesmo anos depois da sua partida, eu e a minha mãe ainda colhemos o carinho das pessoas que conviveram com ele. Uma vez, eu estava num táxi indo para a rodoviária e o motorista me disse: “todos os dias eu passo na frente de onde era o consultório do teu pai e lembro do sorriso dele. Eu sou muito agradecido, ele salvou a minha mãe”. A professora de ginásio dele, bem velhinha, até pouco tempo atrás, levava um pote de ambrosia todos os meses pra minha mãe. 

Uma vez no supermercado, um homem me parou em pleno caixa, e me disse: “Giovanna? A filha do Zé?”. Eu assenti dizendo que sim. “Menina, sou o Juca, do mercadinho do bairro Floresta, lembra? Só quero te dizer que sinto muita falta do Dr. Ele foi a pessoa mais humana que eu conheci”. 

Plantem o bem, gente. Plantem o bem.

O que eu queria ter ensinado a ele

Meu pai era um cara que confiava muito no banco. Lembro que, nas nossas andanças, íamos muito nas agências para ele falar com o gerente. Hoje, trabalhando no mercado financeiro, sei bem como as coisas funcionam. E como os bancos pecam pela desonestidade com o cliente.

Meu pai, como um deles, ficaria p* da vida se soubesse a realidade. Os juros abusivos, a falta de transparência, as indicações de furadas em troca de comissão. Queria ter tido tempo pra sentar do lado dele e ter a mesma conversa franca sobre dinheiro que já tivemos tantas vezes.

Mas tudo bem. A vida segue o seu curso. E eu levo todos os ensinamentos dele comigo. Todos os dias.

Feliz Dia dos Pais pra vocês, papais clientes da Warren.

E feliz Dia para o meu também, lá de cima.