As etiquetas nas gôndolas dos supermercados não mentem: o arroz está mais caro. Alimento essencial a quase todas as famílias brasileiras, ele acumula alta superior a 19% no ano, de acordo com dados do IBGE.
A ascensão vem desde o início da pandemia provocada pelo novo Coronavírus, levando o preço do arroz ao patamar mais elevado dos últimos 12 anos.
Você observa as consequências no dia a dia: já há famílias buscando alternativas para substituir o carboidrato e até redes de supermercados limitando a aquisição dos clientes para evitar o desabastecimento.
Para quem tem a década de 80 viva na memória, o sinal de alerta é inevitável: estaria a alta no preço do arroz associada à volta da inflação?
Não é o caso, porque a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) segue estável em 2020. Nos últimos 12 meses, a variação foi de 2,44%, abaixo da meta estipulada pelo Banco Central.
Mas o que, então, explica a alta não apenas do arroz, mas de outros alimentos essenciais ao dia a dia dos brasileiros, como o feijão e óleo de soja?
Neste artigo, você vai entender os motivos da elevação dos preços dos alimentos — não apenas do arroz — e vai descobrir como proteger seus investimentos para uma (ainda improvável) aceleração da inflação.
Boa leitura!
Começamos nossa análise observando alguns dos principais alimentos do dia a dia dos brasileiros, presentes tanto na consagrada ala minuta, como nos pratos feitos que são servidos em todo território brasileiro.
Observe os números e a variação em 2020, de acordo com dados do IBGE:
Alimento | Variação em 2020 |
Feijão preto | 28,9% |
Arroz | 19,2% |
Óleo de soja | 18,6% |
Alface | 18,1% |
Tomate | 12,3% |
Feijão carioca | 12,1% |
Batata-inglesa | 9,7% |
Ovos | 7,1% |
Carne de frango | 6,9% |
Carne de porco | 4,2% |
Fonte: IBGE
Esses dados ajudam a explicar por que, enquanto a inflação oficial do país, o IPCA, acumula alta de 2,44% em 12 meses, a inflação dos alimentos foi de 8,83% no mesmo período.
Ou seja: a inflação dos alimentos foi quase quatro vezes superior à inflação oficial, medida de acordo com os hábitos de consumo dos brasileiros.
Um dos resultados práticos desse aumento do preço dos alimentos é sentido pelas famílias de classes mais baixas. São elas que dedicam uma parte maior do orçamento à alimentação — e por isso acabam sentindo uma inflação maior do que os mais ricos.
O Indicador de Inflação por Faixa de Renda do Ipea mostra que a inflação das famílias mais pobres, cuja renda mensal é inferior a R$ 900, foi de 0,38% em agosto, bem acima do valor de 0,10% percebido pelas famílias mais ricas — aquelas que têm maior do que R$ 9 mil.
Mas o que explica esse crescimento no preço dos alimentos? Não há um motivo isolado, e sim um conjunto de acontecimentos. É o que veremos a seguir.
Para explicar a alta do preço do arroz, é necessário retroceder à mais básica lei da economia: recursos são escassos. Por isso, os preços dos produtos e serviços seguem a famosa lei da oferta e da demanda.
Simplificada dessa maneira, a equação parece fácil de solucionar. Mas há inúmeros eventos que impactam tanto na oferta, como na demanda. A seguir, listamos alguns que tiveram maior influência sobre o preço do arroz nos últimos meses.
Tudo começa pela desvalorização do real em relação ao dólar. A moeda mais forte do mundo valorizou cerca de 40% em relação ao real nos últimos seis meses. As explicações para esse fenômeno estão na busca dos investidores por ativos livres de risco em meio à pandemia — e o real é uma moeda de uma economia emergente, instável por natureza, enquanto o dólar é a moeda que dita as negociações da economia mais forte do mundo.
Outra explicação possível é a queda da taxa básica de juros, a Selic, ao menor nível histórico, o que acaba desestimulando investidores estrangeiros de investir em ativos brasileiros associados a crédito público ou privado.
Entre as diversas consequências da desvalorização do real e da valorização do dólar, está o crescimento das exportações. Para os estrangeiros, os produtos brasileiros ficam mais acessíveis. Para os produtores brasileiros, fica mais atraente exportar. E é exatamente isso que acontece.
O volume mensal de arroz embarcado exportado aumentou quase 100% na comparação entre agosto de 2019 e agosto de 2020, segundo análise da Cogo – Inteligência em Agronegócio. Já os números do Ministério da Economia mostram que, de janeiro a agosto de 2020, mais de um milhão de toneladas de arroz foram exportadas, o maior volume desde 1997, quando a série histórica foi iniciada.
Com as exportações crescendo, a consequência é óbvia: há menos arroz no mercado interno, e o preço aumenta.
Outro fator que favoreceu a elevação do preço está ligado à mudança de hábitos na pandemia. Essa, inclusive, foi uma das explicações dadas pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina ao tratar do assunto.
Com as restrições de circulação e o isolamento social provocados pela pandemia, mais pessoas passaram a fazer as refeições em casa, seja porque estão trabalhando de forma remota, seja porque os restaurantes ficaram fechados.
O arroz é um dos alimentos preferidos nesse cenário, e o crescimento da demanda não acompanhou o da oferta, pressionando os preços para cima.
Beneficiando mais de 65 milhões de pessoas, o auxílio emergencial foi um combustível para o consumo, em especial das famílias mais pobres, que receberam o benefício e utilizam parte considerável da renda para a alimentação.
O auxílio emergencial estimulou o consumo e também permitiu que o produto fosse estocado. Para se ter uma ideia, o índice de brasileiros na pobreza extrema atingiu recordes negativos durante a pandemia, caindo de 6,5% em 2019 para 2,5% em 2020.
Além desses três fatores, há um quarto fator que pode explicar essa alta específica no preço do arroz: a diminuição da área plantada dessa cultura no Brasil. Entre 2011 e 2020, estima-se que a redução tenha sido de mais de 30%.
A ministra Tereza Cristina tratou de tranquilizar os brasileiros, garantindo que, na próxima safra, no primeiro semestre de 2021, o preço do arroz vai retornar aos patamares anteriores.
Como medida imediata, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) zerou a alíquota do imposto de importação para o arroz. A medida vale até o fim do ano e vai reduzir o custo do arroz importado, a fim de aumentar a oferta no mercado interno.
Tereza deu o exemplo do preço da carne, que sofreu alta no ano passado, para garantir que a oscilação é passageira e que os preços vão se estabilizar, reforçando que não há razão para preocupação.
Mesmo com o IPCA abaixo da meta, a inflação dos alimentos motiva dúvidas entre os investidores a respeito do controle do Banco Central sobre a inflação. A nota de R$ 200, anunciada no fim de julho, também alimentou essa dúvida, mesmo que o Banco Central tenha negado que a política monetária vá mudar — trata-se apenas de uma resposta à redução de papel moeda em circulação na economia.
Se esse é o seu caso, há algumas alternativas de investimentos que garantem proteção contra a inflação, como tratou o nosso gestor e CIO da Warren, Thomaz Fortes, em live nesta semana no canal da Warren Brasil no Youtube.
“Independentemente da minha opinião ou de qualquer outra pessoa, se você tem medo que a inflação dispare, se tem o racional que existe o risco e você quer se proteger, a melhor forma de se proteger é com ativos reais, que se protegem da inflação e se valorizam junto com ela”, explicou Thomaz.
Ele citou o mercado acionário como uma bela proteção, “porque as empresas tendem a reajustar os preços igual ou acima da inflação, consequentemente os lucros sobem e as ações também”. Thomaz também citou ativos reais, como o mercado imobiliário e o próprio ouro.
Mas o gestor reforçou que ele não entende que esse seja o cenário atual. Não vejo agora como uma coisa gritante. Todo brasileiro tem o trauma com a inflação, que foi enorme em outras décadas. Tem gente que viveu isso, bem adulto, trabalhando, vivendo, negociando, sabe como isso causava ansiedade. A inflação é muito ruim por vários motivos, você perde a noção de preços, perde a ancoragem”, disse.
“Nós vemos os juros subindo em 2021, 2022 e 2023. Se a gente tivesse curva de juros mais achatada, todos estaríamos mais tranquilos, a taxa livre de risco realmente iria baixar mais”, concluiu Thomaz, explicando por que a taxa básica de juros da economia, a Selic, não é replicada em outros tipos de crédito.
Quer conhecer mais sobre a visão do nosso gestor? Você pode acompanhar a transmissão completa abaixo:
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