Como repensar a carreira depois dos 30?  

Hoje, mudar de carreira já não é mais tão incomum, diferentemente do que acontecia há algumas décadas.

Muito pelo contrário: culturalmente, estamos mais abertos a esse movimento, o que tira um pouco do peso que envolvia uma mudança considerada tão significativa.

Além disso, o mercado de trabalho se tornou um ambiente muito mais receptivo para profissionais em transição de carreira — não só por encorajar e facilitar o processo, mas também devido à sua própria demanda por profissionais cada vez mais “adaptáveis”.

De acordo com o relatório “Protegendo o futuro do trabalho”, publicado em março de 2021 pela empresa de cibersegurança Kaspersky, 53% dos profissionais brasileiros consideraram mudar de emprego ao longo deste ano.

E se essa vontade de mudar aparece depois dos 30?

Ainda que muitos cogitem a possibilidade, fatores como idade e momento de vida costumam despertar inseguranças que, na prática, podem afastar a pessoa do seu sonho.

Mas a realidade mostra que isso é, sim, possível. Muito mais do que os anos que carregamos nas costas, mudar de carreira tem a ver com autoconhecimento, determinação e planejamento.

Neste artigo, trazemos as histórias de alguns profissionais que encararam o desafio, além de dicas que a mentora de carreira e negócios Raquel Christoff sugere para tornar o processo mais seguro e tranquilo.

Vamos lá?

Mudança de carreira: os motivos por trás da decisão

A vontade de trocar de profissão pode ter diversas origens: da insatisfação à necessidade financeira, podendo passar também pela busca por um propósito e pelo desejo por um equilíbrio maior entre vida pessoal e profissional.

Para a mentora de carreira e negócios Raquel Christoff, muitas pessoas se veem infelizes com suas carreiras depois dos 30 anos porque, tradicionalmente, o trabalho está relacionado a sobrevivência e estabilidade.

“Recebemos um ‘mapa’, com um caminho único a ser traçado profissionalmente”, afirma a especialista.

Ela explica: “Aprendemos que precisamos estudar e escolher uma carreira que tenha mercado de atuação. E aí a gente fica buscando essa ‘estabilidade’. Foi o que eu busquei, até me dar conta de que tinha algo errado ali”.

Formada em administração, aos 25 anos Raquel estava crescendo na profissão, mas se sentia cansada e indisposta, sem motivação.

“A gente demora pra despertar e entender que tem algo errado, porque a gente aprende que é assim mesmo, que é normal não gostar do trabalho. E isso sempre me incomodou, porque eu acreditava que o trabalho tinha que ter um sentido maior”, completa.

Em busca das próprias escolhas

A história da contadora Thais Gularte não é muito diferente.

Sem saber que carreira queria seguir ao sair da escola, ela pediu ajuda aos pais, que viram na contabilidade uma opção segura, com mais oportunidades.

Foi essa a faculdade que Thais cursou, mas depois de ingressar no mercado de trabalho, descobriu que não era bem disso que gostava.

“Eu gosto muito de mercado e educação financeira. E ainda trabalhando com contabilidade, fui me aproximando do mundo da tecnologia e do atendimento ao cliente”, relembra.

Assim, Thais entendeu que precisava dar um passo atrás. Aos 27 anos, já em um cargo avançado na carreira contábil, resolveu tentar a sorte no mercado financeiro.

Depois de passar por uma agência bancária, encontrou na Warren a possibilidade de unir suas duas paixões, e hoje trabalha como analista de suporte do nosso time de Customer Service.

“Perto dos 30 eu percebi que já fazia anos que eu queria trabalhar com tecnologia, e aí decidi mudar de vez”, relata.

Agora, aos 31 anos, Thais está no meio de uma transição para migrar definitivamente para a área de tecnologia.

Mais perto da família

Especialmente durante a pandemia, aqueles que migraram para o home office passaram mais tempo em casa com a família e puderam descobrir novos hobbies e interesses pessoais.

Poder acompanhar o crescimento do filho mais de perto foi um dos benefícios que Sérgio Milbrath de Oliveira, 50, encontrou em meio a uma mudança que já acontecia em sua carreira.

Com formação de técnico em eletromecânica, ele trabalhou por 19 anos em uma empresa de grupos geradores de energia elétrica.

Em 2014, foi desligado da companhia. Ainda chegou a trabalhar em outras empresas do setor industrial, mas foi na pandemia que ocorreu a “grande virada”, como ele mesmo chama.

Sérgio precisava ficar em casa com o filho pequeno, já que sua esposa, que é enfermeira, seguia trabalhando presencialmente. Assim, ele não só começou a passar mais tempo com o filho, como também conseguiu se dedicar a um antigo hobby, que hoje ele já chama de nova profissão: a marcenaria criativa.

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Mãos à obra: qual a melhor forma de fazer uma transição de carreira?

Justamente pela importância que o trabalho tem em nossas vidas, o processo de deixar uma profissão e iniciar uma nova trajetória em outra nem sempre é fácil.

Qualquer mudança exige sair da zona de conforto, o que em geral é mais difícil do que permanecer nela. Assim, nós mesmos podemos demorar para entender que queremos mudar.

Além disso, essa é uma decisão que geralmente afeta o nosso bolso. Seja porque teremos que recomeçar do zero, o que talvez signifique uma diminuição de salário, seja porque teremos que investir dinheiro em um novo negócio, no caso dos empreendedores.

É por isso que Raquel divide esse processo em duas etapas.

A primeira é a do convencimento. “Por mais que a situação esteja ruim, a gente sempre nutre uma esperança de que vai melhorar. O trabalho em si, a empresa, os colegas… Então, às vezes, a pessoa tem que se convencer de que ela quer e precisa mudar”, explica a mentora.

Depois, vem a segunda etapa, que é a do planejamento. De acordo com Raquel, decisões impulsivas podem acabar tendo um impacto negativo no processo, especialmente na questão financeira.

É por isso que, para ela, o ideal é que haja de fato uma transição, de forma fluída, e não abrupta.

Levando em conta esse cenário, a especialista sugere quatro passos para fazer uma transição de carreira com mais tranquilidade e segurança.

Vamos a eles?

1. Tenha clareza sobre o que você realmente quer

Para muita gente, saber o que se quer ser é desafiador.

Para Raquel, o primeiro passo é ter clareza quanto ao que se quer.

Se você ainda não sabe, mas já sente a pulguinha da mudança atrás da orelha, talvez seja interessante fazer uma lista, elencando o que está ruim e como isso pode melhorar.

Veja algumas perguntas que você pode fazer a si mesmo:

  • No meu emprego atual, o que está ruim? É a liderança? São os processos? As pessoas? Comece a mapear o que está incomodando.
  • Como eu gostaria que fosse? Tente entender o que você mudaria. Por exemplo: gostaria de trabalhar mais sozinho? Quer tomar suas próprias decisões? Preferiria ser cobrado por resultados, e não por tempo de trabalho?
  • Que outras áreas me interessam? Pense em outros cargos ou profissões nos quais você acha que se sentiria confortável e mais motivado.

2. Teste a sua mudança

Este passo é mais direcionado àqueles que pretendem abrir um novo negócio.

Segundo Raquel, nosso cérebro é orientado principalmente em torno de um objetivo: a nossa sobrevivência.

Assim, o fato de estarmos felizes ou não em um determinado emprego não vai ter o mesmo peso que a segurança e estabilidade que esse emprego nos dá.

“Se você tem um emprego que paga as suas contas, seu cérebro entende que ali é seguro. Agora, se você vai tentar um outro negócio, arriscando a segurança que já tem, é confuso para o nosso sistema. Por isso é tão importante tentar fazer de fato uma transição”, explica a mentora.

É aí que entra o segundo passo, que é testar. Para Raquel, a melhor forma de fazer isso é por meio de um MVP, sigla para “Produto mínimo viável”.

Muito presente no mundo das startups, um MVP é a versão mais simples de um produto que pode ser lançada com o mínimo de esforço e desenvolvimento.

“Você faz uma amostra. Sé um serviço, pegue algumas pessoas para testar e conseguir um feedback. Depois, você pode começar a vender para conhecidos, por um valor mais em conta. Tudo isso dá base para que seu cérebro entenda que aquilo é possível”, afirma a especialista.

Apesar de não ter usado o termo MVP, foi mais ou menos isso que Sérgio fez. Além de assistir a vídeos sobre o assunto no Youtube, começou a divulgar suas peças de decoração em madeira para a sua rede de contatos.

“O pessoal começou a comprar os meus produtos e aí eu não parei mais”, conta o marceneiro, que já está comemorando um ano de seu novo negócio.

3. Faça um planejamento

Já se sente mais confiante para fazer a sua mudança? Então é hora de se planejar!

Trocar de profissão, mudar de empresa e empreender são movimentos diferentes, mas que possuem uma questão central em comum: todas exigem um planejamento financeiro.

Uma redução de salário pode afetar significativamente o seu orçamento mensal. Da mesma forma, um novo empreendimento costuma levar tempo para gerar retorno.

Por isso, é essencial ter uma segurança financeira que garanta que suas necessidades básicas sejam atendidas ao longo da transição.

Raquel ressalta a importância de cuidarmos com os gastos excessivos.

“A própria insatisfação nos leva a consumir mais, na busca por completar o vazio que estamos sentindo. Mas esse dinheiro pode ter outra destinação, podendo inclusive ajudar na formação de uma reserva financeira para esse período de mudança”.

Caso seus planos envolvam um novo empreendimento, também é importante organizar o seu tempo para talvez levar dois projetos paralelos: seu antigo emprego e o início do seu novo negócio.

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Demissão primeiro, novo emprego depois

Por mais que nos planejemos, nem sempre as coisas acontecem como o esperado.

A história de Pedro Hack, analista de dados na Warren, é um exemplo disso. Formado em engenharia de controle e automação, perto dos 30 anos já chegava ao fim de um plano de carreira iniciado aos 20.

No mestrado em estatística, descobriu a ciência de dados, uma área de que gostava e que tinha bastante demanda de mão-de-obra.

Mas por mais que tivesse uma bagagem considerável, precisava correr atrás de muito conhecimento para se aperfeiçoar na nova carreira e ir atrás de oportunidades.

Sem energia para trabalhar e fazer todo esse movimento, concluiu que, antes de conseguir um novo emprego, precisava se demitir.

“O que fez isso dar certo foi o fato de que eu tinha uma reserva financeira boa, porque ganhei bem por muito tempo. Além disso, eu investia desde 2016. Então eu sabia que tinha uma boa saúde financeira para lidar com as dificuldades que teria dali pra frente”, pondera.

No seu caso, o fato de a esposa ser servidora pública e ter mais estabilidade também foi fundamental para que ele pudesse fazer uma transição mais tranquila.

Ele ressalta: “Mudar de carreira não é uma decisão pessoal, é uma decisão de família. A família muda de carreira contigo”.

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4. Marque a data da mudança

Por fim, mas não menos importante, Raquel acredita que definir um prazo para finalizar a transição é um ponto chave do processo.

“Se a gente não tem uma data, a chance de postergação é muito maior. Mas é pra marcar uma data mesmo, dia, mês e ano”, ela ri. “Uma data muito abstrata pode não funcionar tão bem”.

Assim, seja qual for a sua situação, tente estipular o seu prazo. Por exemplo: “no dia 18 de setembro de 2022, vou pedir demissão” ou “em oito de março de 2023, vou abrir as portas do meu novo negócio”.

E você pode até trabalhar com pequenos prazos antes disso, definindo datas para começar um curso na área em que você pretende atuar ou iniciar a procura por uma vaga em outras empresas.

“De resto, é se comprometer e agir”, afirma Raquel. “Não tem segredo que substitua a ação para fazer acontecer”.

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