Mulheres no anonimato: Rosalind Franklin e a descoberta da estrutura do DNA  

Pouco menos de 70 anos atrás, em 1953, um pequeno artigo que descrevia a estrutura em dupla hélice do DNA mudava para sempre os rumos da ciência.

A descoberta, considerada um dos eventos científicos mais importantes do século XX, rendeu aos cientistas Francis Crick, James Watson e Maurice Wilkins nada mais, nada menos que o Prêmio Nobel de Medicina em 1962.

Para além do fato, que por si só já era relevante, o acontecimento abriu diversas portas para novos estudos e avanços inéditos, como o sequenciamento do genoma humano e o desenvolvimento de inúmeros medicamentos a partir de recombinações de material genético.

Bem, você deve estar se perguntando, mas afinal, quem é Rosalind Franklin e onde é que ela entra na história toda?

Além de química com PhD pela Universidade de Cambridge e pioneira em estudos sobre as estruturas moleculares dos vírus, Rosalind Franklin é mais uma mulher cujo protagonismo em uma grande descoberta científica não teve seu devido reconhecimento.

Ainda que sempre tenham estado presentes nas mais diversas áreas do universo científico, a maioria das mulheres sempre ficou no anonimato ou em segundo plano.

Por isso, dedicamos o artigo de hoje à história de Rosalind Franklin, seu papel na descoberta da estrutura do DNA e sua incontestável contribuição para a biologia molecular.

Boa leitura!

Uma vida dedicada à ciência

Rosalind Franklin nasceu em Londres, em 1920, e desde pequena chamava a atenção nas aulas de ciências.

Aluna de uma das poucas escolas para meninas que ensinavam química e física naquela época, aos 15 anos já sabia o que queria para a sua vida: ser cientista.

Curiosidade, interesse e determinação talvez tenham sido os ingredientes mais importantes para que seu sonho se concretizasse. Afinal, com receio de que aquela fosse uma carreira muito difícil para mulheres, seus pais não eram os maiores entusiastas de sua aspiração.

Mas Franklin estava determinada a seguir seu sonho: em 1938, entrou para o Newham College, uma faculdade feminina que pertence à Universidade de Cambridge, para estudar química. Foi também em Cambridge que obteve seu PhD, em 1945, por sua pesquisa com microestruturas de carbono e grafite.

Rosalind Franklin fazendo observações em um microscópio.

A cientista ainda fez parte de diversos grupos de pesquisa. Entre 1946 e 1950, trabalhou pela Associação Britânica para a Pesquisa do Uso do Carvão em um laboratório estadual de serviços químicos em Paris. Lá, analisava materiais cristalinos com o auxílio da técnica da cristalografia de raios-x — que, mais tarde, seria crucial para sua grande descoberta.

Depois, a convite do laboratório de biofísica do King’s College, voltou para Londres para realizar estudos sobre a molécula de DNA.

Por fim, desenvolveu uma pesquisa sobre a estrutura molecular dos vírus no Birkbeck College — trabalho esse que também contribuiu para que outro cientista homem, seu colega Aaron Klug, ganhasse o Prêmio Nobel, desta vez de Química, em 1982.

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Rosalind Franklin e sua “Fotografia 51”, a imagem que revolucionou a ciência genética

Durante os quatro anos que passou na França, Rosalind Franklin foi se aperfeiçoando no uso da cristalografia de raios-x, técnica utilizada para criar imagens de elementos microscópicos.

Foi por meio dela que, já no King’s College, a química conseguiu fotografar uma molécula de DNA. E foi por meio de sua foto, posteriormente conhecida como “Fotografia 51”, que foi possível atestar a estrutura de dupla-hélice do DNA, até então não comprovada.

“Fotografia 51”, à época o melhor registro fotográfico feito do DNA.

A descoberta da estrutura do DNA foi de fato um ponto de virada na ciência do século XX. Foi a partir dela que se descobriu que o material genético pode ser copiado e replicado, podendo ser passado de geração em geração.

Além disso, o reconhecimento da dupla hélice pavimentou os avanços da biologia molecular, sendo essencial para o desenvolvimento da indústria de biotecnologia e proporcionando à comunidade científica um maior entendimento sobre a biologia humana.

Entre outros marcos oriundos dessa descoberta, podemos destacar:

Drogas recombinantes

Nos anos 1970, enzimas que “recortam” o DNA foram identificadas e, uma década depois, utilizadas para manipular material genético e gerar proteínas recombinantes.

É o caso da insulina recombinante, que hoje ajuda milhões de pessoas diagnosticadas com diabetes.

Projeto Genoma Humano

Realizado entre 1990 e 2003, o projeto possibilitou o primeiro sequenciamento completo do genoma humano (ou seja, o conjunto de genes da espécie humana).

Por meio do sequenciamento, médicos podem descobrir se uma pessoa possui uma determinada doença genética ou predisposição para alguma enfermidade cujo fator genético é relevante.

Tratamento personalizado

A partir do sequenciamento do genoma, hoje já é possível identificar como será a resposta de cada paciente a certos medicamentos.

Ou seja, é possível estudar o tumor de um paciente com câncer, por exemplo, e a partir da construção de um perfil genético, combinar a melhor medicação para seu caso específico.

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A coletividade e o machismo na ciência

O universo científico sempre foi coletivo. Estudos compartilhados, descobertas de um que desencadeiam as descobertas de outros, teorias revisadas e refutadas pelos pares.

A história da descoberta da estrutura do DNA poderia ser contada sob essa ótica, com muito mais orgulho e entusiasmo, não fosse a injustiça que Rosalind Franklin sofreu.

No início deste artigo, mencionamos os nomes dos três vencedores do Prêmio Nobel de Medicina de 1962: James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins.

Até hoje, são os dois primeiros que vêm à memória quando falamos em descoberta da estrutura do DNA, pois foram os autores do artigo que formulava essa hipótese.

Mas foi a Fotografia 51, feita por Rosalind Franklin, que permitiu a eles a conclusão de seus estudos e, ainda assim, ela não recebeu prêmio algum, nem sequer foi citada em seu artigo.

James Watson, à esquerda, e Francis Crick.

Alguns dizem que, naquele momento, Franklin não associou a imagem ao formato de dupla hélice. Um de seus alunos, no entanto, teria mostrado a fotografia a Maurice Wilkins, que na época era chefe do laboratório e que, por sua vez, teria compartilhado a descoberta com os outros dois cientistas.

Outros dizem que as coisas foram um pouco mais atravessadas, e que antes mesmo de Franklin desenvolver qualquer tese sobre sua imagem, Wilkins teria se apossado da foto quando Watson, que também vinha se dedicando ao estudo da estrutura do DNA, visitou o laboratório.

Não há exatamente um consenso quanto ao que aconteceu, mas independentemente da versão correta, uma coisa é fato: em nenhum momento foram dados à cientista os devidos créditos por sua notável contribuição.

Inclusive, Franklin faleceu no anonimato: em 1958, aos 37 anos, ela perdeu a vida devido a um câncer nos ovários.

Rosalind Franklin foi uma das mulheres selecionadas para o projeto “100 mulheres do ano”, da revista americana Time.

Somente dez anos depois de sua morte é que seu nome veio à tona, na autobiografia de James Watson “A dupla hélice: Como descobri a estrutura do DNA” — e na passagem, o cientista chama Franklin de “agressiva”.

Hoje, a realidade já é um pouco diferente, e cada vez mais mulheres não só se tornam cientistas, como são respeitadas em seu meio.

Rosalind Franklin não teve a mesma sorte, e infelizmente não podemos mudar o passado.

Mas podemos fazer jus à sua história: como sugeriu a jornalista americana Katie Couric, “a partir de agora, sempre que você ouvir os nomes dos dois homens que descobriram o DNA, faça uma trinca: Franklin, Watson e Crick — nesta ordem”.

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