Os 5 aprendizados da viagem ao mundo que levo para a vida  

Dizem que, quando viajamos, evoluímos e aprendemos coisas que talvez em casa demoraríamos dez anos para amadurecer.

Toda vez que alguém me fala isso passa um filme na minha cabeça, e me imagino um Benjamin Button de mochila, um velho em corpo de jovem. Fato é que a estrada realmente ensina muito, mas muito mesmo; não doutrinas e teorias, mas escancara a vida como ela é, distribui lições simples e práticas que, no final da jornada (ou no meio mesmo), nos enchem de sabedoria.

Já vou começar com a lição número 0, uma frase que li num cartaz pregado no mural de uma escolinha que entrei por curiosidade no Marrocos. Estava pintado à mão, escrito provavelmente pelas próprias crianças de lá, e dizia assim:

Se você receber, doe.

Se aprender, ensine.

Então, bora passar adiante.

Lição 1: proteja os desejos do seu coração

Quando decidi mudar a direção da minha vida e colocá-la nos trilhos do mundo, isto é, largar o que fazia antes, virar um nômade digital e viver viajando pelo mundo, não contei para praticamente ninguém. Guardei pra mim esse sonho em forma de plano (ou seria plano em forma de sonho?), porque sentia que a internalização já fazia parte do processo e era um primeiro desafio de amadurecimento para minha jornada.

Não entregue todas as chaves dos seus depósitos. Confie no desejo do seu coração. Os sonhos mais especiais só se desenvolvem se protegidos numa incubadora, longe do que pode contaminar sua ainda frágil existência. 

A natureza já determinou que a imunidade vem de dentro pra fora. Então, em um mundo infectado pela ostentação, a proteção e discrição acaba sendo a cura.

Pode esperar, vai chegar o momento certo de se libertar com a força necessária para enfrentar seja lá qual for o ambiente. A felicidade pode até ser mais real quando compartilhada, mas ser feliz mesmo depende primeiramente de você.

Lição 2: a liberdade é escolher seu próprio caminho

Esse pensamento apareceu (literalmente) num dia em que sentei em cima de um livro largado no hostel onde eu estava ficando em Budapeste, na Hungria.

Não lembro o título do livro, se não me engano estava até rabiscada a capa, mas me lembro do cara que escreveu, um tal de Viktor Frankl. Na hora, nem me interessei, parecia um inglês complicado demais para meu vocabulário de viajante, mas abri mesmo assim.

Parei aleatoriamente numa frase grifada que dizia mais ou menos assim: “a última liberdade humana é escolher seu próprio caminho”. Uau, Vitinho! Você entrou na minha mente nessa hora!

Aqui fora tem sido diferente, pois todos os dias a viagem exige uma resposta de mim — e o resultado dessa escolha diária é o que eu tenho chamado de liberdade. Nada complicado. Simplesmente pavimentar o meu próprio caminho.

Na estrada venho entendendo o quanto somos responsáveis por aquilo que nos tornamos. 

Apesar de não escolher onde nascer, que cultura receber, nem mesmo a cor que posso ter. Apesar da sensação de sermos jogados no mundo e nele condenados às condições primárias da nossa realidade. Ainda sim, o que eu faço da minha vida e o significado que dou à minha existência são parte da liberdade que ninguém pode me tirar.

A liberdade não é preguiçosa. O que determina quem somos, de fato, são ações realizadas, não aquilo que poderíamos ter feito. 

Em casa, na zona de conforto, era fácil cair sobre o consolo de culpar algo ou alguém, “não faço porque não tenho tempo”, “não vou porque não tenho dinheiro”, “não posso porque não sei”, “não dá porque ninguém me apoia”, “não consigo porque não depende só de mim”… e por aí vai!

Sim, precisei ir longe para observar isso, porém eu sei que a verdade já trazia comigo. Se deixamos de lado toda a filosofia barata sobre liberdade, vemos que o que de fato precisamos é liberar nossa grandeza, analisando nossas opções diárias e buscando ser livre mesmo dentro de todas as nossas limitações.

Lição 3: a vaca, o menino e a “Tilaka”

Estava eu em Pushkar, no interior da Índia, cidade de forte tradição religiosa. Depois de andar bastante pela cidade, sentei para descansar na escadaria do Templo Brahma. Mesmo ali sentado, minha cabeça não parava de funcionar, processando toda loucura que meus olhos presenciavam a cada vez que dava um passo pra fora de casa.

É vaca sagrada no meio da rua, é gente e tuk tuk em todas as direções, são cores, são coisas, mil coisas acontecendo ao mesmo tempo. Um caos! Como eles sobrevivem nesse caos?

Parado ali por alguns minutos, apenas observando, consegui finalmente ver a harmonia no caos. Esse poderia ser o retrato da Índia. Mas diz muito sobre todo o mundo.

A vaca representa a velha Índia. Ela não se estressa com a evolução cruzando seu caminho o tempo inteiro. Tranquila, mantém seus hábitos em meio a rotina caótica, porque no fundo ela sabe que a tradição sempre será seu berço protetor, então pra que olhar antes de atravessar?

Já o menino é a mudança. Chega correndo como quem vai atropelar tudo que tiver pela frente, mas quando se depara com uma vaca, respeitosamente, para e a contorna. Ele vai continuar correndo, não mais na sua faixa, nem com a mesma velocidade, aprendeu a adaptar seu caminho.

E a “tilaka” é o chakra da sabedoria, o sinal vermelho piscando na testa, o ponto de equilíbrio entre o menino e a vaca, a velha Índia e as mudanças que não vão parar de acontecer. É o simbolismo que dá propósito ao que já poderia ter perdido seu sentido, mas graças a ele ainda é possível ter harmonia no caos instalado.

Bastou um pó de sândalo e pronto, o menino não atropela a vaca, a vaca não ataca o menino, o menino não come a vaca, a vaca não foge do menino, o menino não perde o controle das pernas, nem a vaca se cansa de frear o menino.

O mundo não é tão diferente assim da Índia, pelo contrário, está tudo tão bagunçado quanto, mas podemos olhar pra Índia e ter esperança de que é possível sim encontrar a harmonia mesmo nos movendo em sentidos opostos.

A tradição e a vontade de fazer diferente podem ensinar e também conviver se houver respeito. Às vezes o que a gente precisa é só um pouco de “kumkum” na testa (sabedoria). 

Lição 4: carona para o sucesso

Uma vez, um amigo que fiz numa dessas caronas da vida, me disse, antes de eu descer do carro, que o universo me recompensaria com o sucesso. Fiquei surpreso com a despedida e perguntei porque ele estava me dizendo aquilo. Aí ele apontou pra cima da ribanceira, me mostrando o povoado que eu tanto queria conhecer e já há alguns dias estava na estrada tentando chegar. Era a região montanhosa do Curdistão, localizada em um dos extremos do Irã, pouquíssimo explorada e de difícil acesso.

Brinquei dizendo que venci o universo pelo cansaço e ele retrucou afirmando que um homem precisa estar preparado para fazer a sua parte quando ousar sonhar e, então, estará pronto para receber o prêmio.

Me perdi tão rápido no sorriso que surgiu no meu rosto que nem percebi quando ele arrancou o carro e foi embora dali. Mas até hoje, quando “conquisto” um lugar depois de muito esforço, eu me sinto forte com a lembrança dessas palavras e a beleza das paisagens passou a ter muito mais sentido para os meus olhos.

Obrigado pelas recompensas, Universo!

Lição 5: o tamanho do sorriso

Queria finalizar te dando uma razão para celebrar a vida hoje, agradecer por tudo que você tem e as tantas oportunidades que ainda tens possibilidade de agarrar.

Todos temos problemas e nenhum é maior ou menor do que o outro, porque dentro do nosso contexto e das circunstâncias que a gente vive, certos obstáculos, situações, tempestades, parecem mesmo (e talvez sejam naquele momento) as maiores do mundo. Mas é uma crescente dentro do meu peito o sentimento e o dever de dizer que há sim porquês para agradecer e eles são muito muito muito maiores!

Gratidão pelo país que nascemos, pela família que possuímos e pelo tempo vs condições de resolver todos os transtornos que nunca deixarão de aparecer. Apesar de tudo, não podemos reclamar das chances de recomeço que essa mesma vida, que às vezes parece tão difícil, nos dá.

Assim que me senti após me ver envolvido com os refugiados do Paquistão e ouvir as histórias (reais, surreais, hiperrealistas) que um dia já passou pelo meu ouvido (sem filtro algum). Daquela experiência em diante, não pude mais considerar os meus problemas tão grandes, pois tomei conhecimento do outro e fui apresentado a uma realidade onde o grau de dificuldade é muito maior do que o meu.

Negar o que ouvi para manter seguras as justificativas das mesmas reclamações pessoais é impossível. Tudo gritava forte demais aqui dentro para ficar indiferente. Seria negligência da minha parte e não quero perder nenhuma oportunidade de amadurecer e encher a minha vida de sentido.

Depois de escutar horrores, saí para respirar e achei uma válvula de escape junto às crianças. Foi tão incrível a felicidade delas que me esqueci do que tinha ouvido minutos antes.

Elas não pareciam vítimas, elas pareciam crianças (com assim são), cheia de vida, de disposição. Ensinei contar de 1 a 10 em português e elas aprenderam mais rápido do que eu tentando o mesmo em hindu.

Elas me levaram para conhecer suas famílias, suas casas, e nelas ninguém me recebeu com lágrimas, mas me deram o que tinham como gesto de boas-vindas. Tomei chay (chá indiano), água, apertei mãos, ganhei abraços. Me agradeceram e me ensinaram a ser grato. Então aprendi… os motivos são muitos, mas não devem ser maiores que os sorrisos.

Por estarmos mais vulneráveis numa viagem, em um território que não é nosso, nos encontramos mais atentos ao ambiente, mais sensíveis às situações e, consequentemente, mais abertos para aprender com o simples e corriqueiro daquela outra vida.

Mas sabe de uma coisa que também concluí nas minhas andanças? É que não precisa cruzar um oceano, viajar milhas e milhas de distância para aprender essas coisas, basta observar a vida real, parar para ouvir o que as pessoas que passam por você tem a dizer e viver de um jeito que suas experiências abram caminhos ao invés de fechar portas.

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