Como 3 empreendedores criaram um império de R$ 120 bilhões  

Entre 2010 e 2020, a ação da WEG subiu assombrosos 900%. Quem investiu R$ 10 mil lá atrás colocou no bolso a bagatela de R$ 100 mil neste ano.

Essa é a história de como 3 empreendedores criaram um império de R$ 120 bilhões do zero.

Há 60 anos, a cidade de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, viu o impossível acontecer. 

Na época, não mais que 25 mil pessoas viviam na cidade localizada a 200 km de Florianópolis. A companheira de trabalho de boa parte delas era a enxada, que garantia a comida na mesa.

Agora, Jaraguá do Sul é o lar de mais de 170 mil pessoas. Empregos? Há de sobra. Afinal, indústrias e empresas de tecnologia brotam em cada esquina. 

O município, inclusive, é a terceira maior economia do estado. O que era bom, contudo, ficou intacto: Jaraguá foi eleita a cidade mais segura do Brasil.

O que aconteceu há 60 anos que fez isso tudo mudar? O que está por trás desse “milagre” econômico?

Jaraguá do Sul, município de Santa Catarina

A decisão tomada por três empresários em 1961

Pode soar estranho, mas a minha teoria é que boa parte disso se deve a uma decisão que três empresários tomaram em 1961. 

Coincidência ou não, hoje, 1 em cada 20 cidadãos de Jaraguá trabalha na empresa deles.

Tudo começou quando Werner Voigt era apenas um menino, que brincava perto de uma roda d’água que gerava energia para a serraria do pai. 

Deslumbrado com o “brinquedo” que girava com a água, aos 6 anos ele já criava réplicas que, pasme, funcionavam! 

Os caminhos tortuosos da adolescência e da vida adulta não bastaram para separar Werner da sua paixão pela eletricidade. 

Nem mesmo o temido exército conseguiu essa proeza — lá, o jovem transformou o limão em limonada, angariando uma vaga para estudar eletrônica e radiotelegrafia na Escola Técnica Federal. 

O estudo ele tirou de letra: era autodidata. Desde novo, lia os livros de física do avô, escritos em alemão. 

Com o conhecimento acumulado, não demorou muito para que Werner decidisse abrir sua própria oficina. 

Lá, ele consertava motores elétricos e era procurado sempre que o dínamo de algum carro dava defeito. 

Foi numa dessas ocasiões que chegou por lá um homem chamado Eggon da Silva.

Enquanto Werner ajeitava o dínamo do seu carro, os dois jogavam conversa fora. 

Conforme o papo rolava, Eggon soltou que havia ouvido a história de um empresário da região que sofria com os atrasos na entrega dos motores elétricos que comprava. 

A distância até São Paulo (onde eram fabricados) não ajudava e a infraestrutura precária complicou ainda mais as coisas. 

Ouvindo aquilo, Werner disse algo que deixou Eggon intrigado: com um bom mecânico, eles poderiam produzir os motores ali mesmo, em Jaraguá. 

Por sorte, Eggon conhecia o nome ideal para a missão: Geraldo Werninghaus.

Filho de um mecânico alemão, Geraldo cresceu em meio à graxa e ferramentas. O dia-a-dia dele era consertar coisas na oficina da família, em Joinville. 

Foi lá que, num belo dia, Eggon e Werner bateram na sua porta para fazer uma proposta. Sem pensar muito, Geraldo aceitou.

Nascia aí a Eletromotores Jaraguá — ou, como veio a ficar conhecida: a WEG.

Os primórdios da WEG. Fonte: WEG

O nome veio das iniciais dos fundadores: Werner, Eggon e Geraldo. 

O acrônimo era encravado na etiqueta metálica dos motores. Não deu outra: em pouco tempo todo mundo já chamava o motor de “WEG”. Desde então, muita coisa mudou.

Um faturamento de R$ 17 bilhões

Hoje, o faturamento da WEG ultrapassa os R$ 17 bilhões. Em uma das suas 47 fábricas, que fica na cidade natal de Jaraguá, trabalham 12 mil pessoas — o equivalente a 6,7% da população do município. 

A coisa toda começou pelos motores elétricos, mas agora a empresa já fabrica quase tudo que uma indústria ou usina pode precisar: componentes (disjuntores, relés e tudo que entra em um circuito elétrico), tintas, vernizes, transformadores e geradores. 

O sonho do trio era tão grande que Jaraguá ficou pequena. Logo depois, foi a vez de Santa Catarina. 

Meio século depois e nem mesmo o Brasil é grande o suficiente para comportar a grandeza da WEG.

Os 3 empreendedores que deram início à empresa. Fonte: WEG

Agora, 56% da receita da empresa já vem do exterior. China, Índia, Estados Unidos, Argentina. Aponte um país e provavelmente a WEG venderá seus produtos por lá.

Esse crescimento todo fez as ações se valorizarem bastante

De 2010 até 2020, o preço da WEGE3 foi de R$ 3,20 para R$ 32,00 — um incrível retorno de 900%, ou 25,9% ao ano. 

Entre as razões por trás dessa alta está um faturamento que cresceu nada menos que 14,4% a.a.

Uma boa parte disso ficava com a empresa: a margem líquida ficou na casa dos 12%, sem muitas emoções.

O ROIC — que, inclusive, faz parte da meta que determina o bônus dos executivos — não ficou abaixo de 9% desde 2012 e mais recentemente chegou à casa dos dois dígitos (15,2% em 2019 e 18,3% em 2020).

Boa parte da receita vem em dólar, o que confere à WEG o título de hedge por muitos analistas. Crises locais não são um problema, pois ela vende para o mundo todo.

Já o setor tem ótimos drivers de crescimento:

  • Existe a tese de que os motores à combustão cederão cada vez mais espaço para os motores elétricos (e a WEG já atua em parceria com a Volkswagen para desenvolver tecnologia nessa área)
  • Caso essa tese se concretize, alguém terá que “abastecer” os novos carros. Adivinha só? A WEG já tem seus próprios “postos de gasolina” elétricos.
  • Os países estão numa corrida do ouro para tornar sua matriz elétrica mais verde. Quem vai abastecer o carrinho das nações com aerogeradores, turbinas hidráulicas e geradores para térmicas à biomassa?
  • Na transição para a indústria 4.0 (que sucede aquelas revoluções industriais que você aprendeu na escola), a WEG já preparou seu arsenal. De uns tempos pra cá, ela comprou 4 startups (PPI-Multitask, V2COM, MVisia e BirminD*)* que, juntas, oferecem tudo o que um empresário precisa para se adaptar aos novos tempos: sensores, coleta de dados, armazenamento dos mesmos, análise para descobrir como melhorar a performance das máquinas e checagem 24h para verificar se o plano de melhoria está funcionando

Na corrida do ouro, a WEG vende pás.

Ao que tudo leva a crer, é a empresa perfeita, não?

Motor fornecido pela WEG para uma planta de mineração na Argentina

O mérito foi do mar ou do surfista?

Inegavelmente é uma bela história e são belos números. 

No entanto, quando a onda é boa, sempre rola a dúvida: o mérito foi do mar ou do surfista? Nós fizemos a mesma pergunta.

O que nos chamou atenção, inicialmente, foi o fato de que, daqueles 900% que as ações da WEG desfrutaram durante a década de 2010~2020, boa parte se deve aos dois últimos anos: 2019 e 2020.

Há quem diga que o grande herói foi o dólar, que subiu quase 30% em 2020. 

Teoricamente faria sentido, dado que mais de 50% da receita da WEG chega aqui nas cédulas americanas. 

Infelizmente, desvendar esse mistério não será tão simples. 

Dê uma olhada nesse gráfico que mostra a variação do dólar ano a ano. Só de bater o olho, qualquer incauto já conseguiria intuir que não há nenhuma correlação entre a variação das ações da WEG e a variação do dólar, certo?

Não exatamente. Um dos maiores erros cometidos pelos analistas é tentar inferir conclusões matemáticas com base no olho. 

Pode parecer esdrúxulo, mas é comum até mesmo entre gestores bilionários. 

Esse gráfico dá um bom exemplo disso: no olho, parece não haver muita correlação. 

Na prática, a correlação linear entre o dólar e as ações da WEG é de 0,9 (um valor bem alto).

Agora, fica a dúvida: será que essa é a melhor forma de medir a correlação

Fique de olho nas próximas colunas, porque em breve você descobrirá as respostas.


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