
O ROE, retorno sobre o patrimônio líquido, é um dos indicadores mais usados por quem analisa empresas na Bolsa. Ele serve para entender quanto uma companhia consegue gerar de lucro a partir dos recursos que pertencem aos seus acionistas.
A lógica é simples: empresas que transformam patrimônio em lucro de maneira consistente tendem a ser mais eficientes e ter maior capacidade de criar valor no longo prazo. Por outro lado, um ROE abaixo da média do setor, muito oscilante ou dependente de fatores não recorrentes, levanta sinais de alerta.
Neste artigo, você encontra uma visão completa sobre o ROE: como ele é calculado, como interpretar seus resultados, quando o indicador pode enganar, como ele se relaciona com valuation, dividendos e seleção de empresas para compor uma carteira de ações.
Indice
O ROE mede o quanto uma empresa lucrou em relação ao patrimônio líquido registrado no período. É um indicador de rentabilidade, e sua leitura é direta: quanto maior for o ROE, maior é a capacidade da empresa de gerar lucro a partir dos recursos próprios.
A fórmula é:
ROE = lucro líquido / patrimônio líquido
O lucro líquido é o resultado final da empresa depois de descontados impostos, custos, despesas operacionais e financeiras. O patrimônio líquido é a diferença entre ativos e passivos – o valor que efetivamente pertence aos acionistas.
Se uma empresa registra lucro líquido de R$ 400 milhões e possui patrimônio líquido de R$ 2 bilhões, seu ROE é de 20%. Isso significa que ela gerou R$ 0,20 de lucro para cada R$ 1 de patrimônio.
O retorno sobre o patrimônio líquido funciona como um termômetro da eficiência. Ele mostra se a empresa está conseguindo transformar seus recursos em lucro no ritmo desejado.
O indicador ajuda a responder três perguntas essenciais para quem investe em ações:
Quando o ROE é alto e estável, a empresa demonstra capacidade de:
Mas é preciso cuidado. Um ROE elevado pode não ter relação com eficiência — e sim com fatores pontuais, endividamento alto, patrimônio reduzido após prejuízos passados ou até lucros extraordinários que não se repetem.
Por isso, entender o que está por trás do número importa tanto quanto a fórmula.
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Vários elementos impactam o retorno sobre o patrimônio líquido. A seguir, veja como cada um deles molda o indicador e pode alterar sua interpretação.
A alavancagem financeira é um dos fatores que mais distorce o ROE.
Quando a empresa usa mais dívida em vez de capital próprio, o patrimônio líquido fica menor. Se o lucro cresce ao mesmo tempo, o ROE sobe rapidamente, mas isso não significa, necessariamente, melhor desempenho operacional.
Endividamento alto pode inflar o indicador sem refletir eficiência. Por isso, é fundamental observar:
ROE alto combinado com dívida muito elevada exige atenção, pois o risco do negócio aumenta.
Empresas em expansão costumam reter uma parte significativa dos lucros para financiar crescimento. Esse reinvestimento aumenta o patrimônio líquido e reduz o ROE temporariamente.
É um processo natural: companhias em fase de consolidação tendem a apresentar um ROE menor que empresas maduras, que já não precisam expandir tanto suas operações.
O importante é acompanhar:
Quando há boa execução estratégica, o indicador tende a melhorar nos anos seguintes.
Setores com ativos pesados, como energia, petróleo, papel e celulose ou siderurgia, exigem muito investimento em infraestrutura. Isso aumenta o patrimônio líquido e, como consequência, puxa o ROE para baixo.
Já setores como tecnologia, serviços financeiros, educação e varejo digital tendem a ter patrimônios enxutos e margens mais altas, o que eleva naturalmente o ROE.
Por isso, a comparação sempre deve ser entre empresas semelhantes.
Ganhos extraordinários — venda de ativos, créditos tributários, eventos contábeis específicos — podem inflar o lucro líquido e distorcer a leitura do ROE em um determinado ano.
Esses eventos precisam ser ajustados para que a análise reflita a operação real da empresa.
O patrimônio pode diminuir por:
Quando isso acontece, o ROE tende a subir, mas não é necessariamente um bom sinal. Às vezes, revela apenas fragilidade financeira.
Interpretar o ROE exige contexto. Um mesmo número pode indicar eficiência, risco, oportunidade ou problema, dependendo da situação da empresa.
É o cenário mais desejado. Um ROE alto e estável ao longo dos anos geralmente indica que a empresa:
Esse padrão costuma aparecer em empresas maduras, com modelo de negócio consolidado e boa disciplina financeira.
Quando o ROE sobe e desce com frequência, a empresa pode estar:
A volatilidade do ROE é um alerta para investigar o que está por trás dos resultados.
Nem sempre é negativo. Pode significar:
Um ROE baixo precisa ser analisado em conjunto com o setor e com o estágio do negócio.
Mostra que a empresa teve prejuízo. O foco, nesse caso, deve ser entender:
ROE negativo não invalida um negócio, mas exige análise mais profunda.
Antes de comparar empresas, vale observar como cada setor trabalha com níveis diferentes de patrimônio, margens e ciclos de negócio. Isso ajuda a entender por que um ROE considerado alto em um segmento pode ser apenas mediano em outro.
| Setor | Características do setor | Por que o ROE tende a esse nível | Faixa típica de ROE | Cuidados ao analisar |
| Bancos e Serviços Financeiros | Margens altas, forte alavancagem, baixo investimento em ativos físicos | Estrutura de capital enxuta, receitas recorrentes, escala | 15% a 25% | Endividamento pode inflar o ROE; ciclo de crédito altera lucros |
| Varejo e Consumo | Competição intensa, margens comprimidas, giro elevado | Eficiência operacional faz diferença; patrimônio nem sempre cresce rápido | 8% a 18% | Sazonalidade e promoções podem distorcer ROE anual |
| Tecnologia e Software | Ativos leves, escalabilidade, margens altas | Alto potencial de reinvestimento; crescimento rápido de lucros | 15% a 30% | Empresas jovens podem ter ROE baixo por reinvestimento pesado |
| Energia Elétrica e Infraestrutura | Investimentos elevados, ativos de longa vida útil | Patrimônio líquido alto reduz o ROE; lucros estáveis | 5% a 12% | Regulação impacta margens e previsibilidade |
| Siderurgia e Mineração | Ciclos longos, capital intensivo, dependência de commodities | Patrimônio elevado e margens voláteis reduzem o ROE | 5% a 15% | Preços internacionais podem distorcer o lucro |
| Seguros | Margens ajustadas ao risco, altas reservas | Carteira financeira influencia o lucro; baixa necessidade de PL | 10% a 20% | Oscilações em sinistralidade impactam ROE |
| Saúde e Educação | Crescimento orgânico, margens estáveis | Expansão constante aumenta PL e reduz ROE no curto prazo | 7% a 15% | Aquisições podem distorcer o patrimônio |
| Varejo Farmacêutico | Giro alto, margens moderadas | Modelo de negócio previsível com expansão contínua | 10% a 20% | Alto número de unidades pode aumentar PL e reduzir ROE |
| Construção Civil | Ciclos longos, alto capital de giro | Patrimônio crescido por reinvestimentos limita o ROE | 5% a 12% | Sazonalidade de lançamentos altera o lucro |
| Agronegócio e Alimentos | Dependência de clima e commodities | Margens variáveis; patrimônio elevado reduz ROE | 4% a 12% | Safras fracas e volatilidade de preços interferem |
O que é um bom ROE?
Não existe um número único que sirva para todas as empresas, já que cada setor opera com estruturas de capital e margens diferentes. Ainda assim, algumas faixas costumam orientar a análise:
Esses números ganham força quando observados em conjunto com o histórico. O ideal é verificar se o ROE permanece dentro de uma faixa saudável ao longo dos anos, mesmo diante de mudanças de ciclo, pressão de custos ou expansão do negócio.
Uma empresa não se define por um único ano de rentabilidade. O que realmente importa é a capacidade de entregar ROEs consistentes e sustentáveis, alinhados ao modelo de operação e às escolhas de investimento feitas pela gestão.
O cálculo tradicional utiliza o patrimônio líquido do final do exercício. Porém, quando a empresa passa por mudanças relevantes ao longo do ano, é comum usar o patrimônio líquido médio para obter um retrato mais fiel da rentabilidade.
ROE = lucro líquido / patrimônio líquido médio
A média do patrimônio reduz distorções que podem surgir em situações como:
Os dados necessários para o cálculo estão na Demonstração do Resultado (DRE) e no Balanço Patrimonial, documentos divulgados periodicamente pelas companhias listadas.
Embora seja um indicador importante, o ROE não capta todos os aspectos que determinam a saúde ou o potencial de uma empresa. Entre as principais limitações estão:
Por isso, o ROE funciona bem como ponto de partida, mas precisa ser analisado em conjunto com outras métricas para que a avaliação seja completa.
O retorno sobre o patrimônio líquido tem relação direta com a capacidade de criação de valor no longo prazo. Aqui estão os principais vínculos entre ROE e valuation:
Quando a empresa mantém um retorno elevado sobre o patrimônio e retém parte dos lucros, ela consegue reinvestir de maneira eficiente, ampliar receita e aumentar lucros futuros.
Esse ciclo reforça o valor intrínseco do negócio.
Se o ROE supera o custo de capital próprio, há geração de valor para o acionista. Se fica abaixo, há destruição de valor – mesmo que o lucro pareça alto.
Empresas com ROEs elevados tendem a negociar com:
O mercado paga mais caro por negócios que reinvestem bem o próprio capital.
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A relação entre ROE e dividendos fica mais clara quando se observa como a empresa utiliza o próprio lucro. Um negócio com ROE alto e retenção de parte dos resultados tende a ter espaço para ampliar dividendos ao longo do tempo, já que reinveste de maneira eficiente e converte esses investimentos em lucro futuro.
Quando o ROE é alto e a empresa distribui grande parte do lucro, os dividendos costumam ser atraentes no presente, mas o potencial de expansão diminui. Isso acontece porque sobra menos capital para financiar crescimento orgânico.
Já um ROE mais baixo reduz a capacidade de reinvestir e sustentar aumentos consistentes na distribuição, o que normalmente limita o ritmo de crescimento dos dividendos.
Empresas maduras, com menor necessidade de novos investimentos, costumam apresentar uma combinação interessante: ROE estável, geração de caixa previsível e dividendos regulares.
O indicador ajuda a filtrar empresas eficientes, mas deve ser aplicado com cuidado. Veja o que observar:
ROE alto e reinvestimento eficiente ajudam a sustentar o crescimento dos dividendos no longo prazo. Foto: Freepik
Para uma análise mais completa, combine o ROE com:
O ROE oferece uma boa visão sobre a rentabilidade, mas só mostra parte da história. Para uma análise mais completa, vale combinar o indicador com outras métricas que ajudam a entender a operação, o risco e a capacidade de geração de valor da empresa.
A força da análise está no conjunto, não em um único número. O ROE ganha muito mais sentido quando observado ao lado de indicadores que explicam como a empresa opera e de onde vem sua rentabilidade.
O ROE é uma ferramenta poderosa para entender a rentabilidade de uma empresa e sua capacidade de criar valor a partir dos recursos dos acionistas.
Usado de forma contextualizada — considerando setor, histórico, endividamento, margens e estratégia — o indicador ajuda a identificar negócios eficientes, consistentes e com potencial de crescimento.
Mais do que procurar o ROE mais alto, o ideal é buscar empresas que mantenham retornos sólidos ao longo do tempo, com lucros previsíveis e estrutura financeira equilibrada. É essa combinação que sustenta o valor do negócio e fortalece a trajetória de quem investe para o longo prazo.