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ROE: o que é, como funciona e como usar o retorno sobre o patrimônio líquido nas suas análises

Publicado por
Redação Warren

O ROE, retorno sobre o patrimônio líquido, é um dos indicadores mais usados por quem analisa empresas na Bolsa. Ele serve para entender quanto uma companhia consegue gerar de lucro a partir dos recursos que pertencem aos seus acionistas.

A lógica é simples: empresas que transformam patrimônio em lucro de maneira consistente tendem a ser mais eficientes e ter maior capacidade de criar valor no longo prazo. Por outro lado, um ROE abaixo da média do setor, muito oscilante ou dependente de fatores não recorrentes, levanta sinais de alerta.

Neste artigo, você encontra uma visão completa sobre o ROE: como ele é calculado, como interpretar seus resultados, quando o indicador pode enganar, como ele se relaciona com valuation, dividendos e seleção de empresas para compor uma carteira de ações.

O que é ROE (retorno sobre o patrimônio líquido)?

O ROE mede o quanto uma empresa lucrou em relação ao patrimônio líquido registrado no período. É um indicador de rentabilidade, e sua leitura é direta: quanto maior for o ROE, maior é a capacidade da empresa de gerar lucro a partir dos recursos próprios.

A fórmula é:

ROE = lucro líquido / patrimônio líquido

O lucro líquido é o resultado final da empresa depois de descontados impostos, custos, despesas operacionais e financeiras. O patrimônio líquido é a diferença entre ativos e passivos – o valor que efetivamente pertence aos acionistas.

Se uma empresa registra lucro líquido de R$ 400 milhões e possui patrimônio líquido de R$ 2 bilhões, seu ROE é de 20%. Isso significa que ela gerou R$ 0,20 de lucro para cada R$ 1 de patrimônio.

O retorno sobre o patrimônio líquido funciona como um termômetro da eficiência. Ele mostra se a empresa está conseguindo transformar seus recursos em lucro no ritmo desejado.

Como o ROE funciona na prática?

O indicador ajuda a responder três perguntas essenciais para quem investe em ações:

  1. A empresa utiliza bem o próprio capital?
  2. Essa rentabilidade é consistente ao longo do tempo?
  3. Como ela se compara a outras companhias do mesmo setor?

Quando o ROE é alto e estável, a empresa demonstra capacidade de:

  • gerar lucros previsíveis
  • manter eficiência operacional
  • preservar margens
  • reinvestir recursos de forma inteligente
  • sustentar crescimento sem depender excessivamente de dívida.

Mas é preciso cuidado. Um ROE elevado pode não ter relação com eficiência — e sim com fatores pontuais, endividamento alto, patrimônio reduzido após prejuízos passados ou até lucros extraordinários que não se repetem.

Por isso, entender o que está por trás do número importa tanto quanto a fórmula.

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Fatores que influenciam o ROE

Vários elementos impactam o retorno sobre o patrimônio líquido. A seguir, veja como cada um deles molda o indicador e pode alterar sua interpretação.

1. Endividamento

A alavancagem financeira é um dos fatores que mais distorce o ROE.

Quando a empresa usa mais dívida em vez de capital próprio, o patrimônio líquido fica menor. Se o lucro cresce ao mesmo tempo, o ROE sobe rapidamente, mas isso não significa, necessariamente, melhor desempenho operacional.

Endividamento alto pode inflar o indicador sem refletir eficiência. Por isso, é fundamental observar:

  • Dívida Líquida / EBITDA
  • Dívida Líquida / Patrimônio
  • Juros pagos em relação ao lucro operacional

ROE alto combinado com dívida muito elevada exige atenção, pois o risco do negócio aumenta.

2. Reinvestimento de lucros

Empresas em expansão costumam reter uma parte significativa dos lucros para financiar crescimento. Esse reinvestimento aumenta o patrimônio líquido e reduz o ROE temporariamente.

É um processo natural: companhias em fase de consolidação tendem a apresentar um ROE menor que empresas maduras, que já não precisam expandir tanto suas operações.

O importante é acompanhar:

  • se o ROE está caindo porque o patrimônio está crescendo
  • se o lucro futuro compensa o investimento atual

Quando há boa execução estratégica, o indicador tende a melhorar nos anos seguintes.

3. Ciclos setoriais

Setores com ativos pesados, como energia, petróleo, papel e celulose ou siderurgia, exigem muito investimento em infraestrutura. Isso aumenta o patrimônio líquido e, como consequência, puxa o ROE para baixo.

Já setores como tecnologia, serviços financeiros, educação e varejo digital tendem a ter patrimônios enxutos e margens mais altas, o que eleva naturalmente o ROE.

Por isso, a comparação sempre deve ser entre empresas semelhantes.

4. Lucros não recorrentes

Ganhos extraordinários — venda de ativos, créditos tributários, eventos contábeis específicos — podem inflar o lucro líquido e distorcer a leitura do ROE em um determinado ano.


Esses eventos precisam ser ajustados para que a análise reflita a operação real da empresa.

5. Oscilação do patrimônio líquido

O patrimônio pode diminuir por:

  • prejuízos acumulados
  • recompra de ações
  • redução de capital
  • ajustes contábeis
  • provisões

Quando isso acontece, o ROE tende a subir, mas não é necessariamente um bom sinal. Às vezes, revela apenas fragilidade financeira.

Como interpretar o ROE?

Interpretar o ROE exige contexto. Um mesmo número pode indicar eficiência, risco, oportunidade ou problema, dependendo da situação da empresa.

1. ROE alto e consistente

É o cenário mais desejado. Um ROE alto e estável ao longo dos anos geralmente indica que a empresa:

  • gera valor para o acionista
  • mantém margens saudáveis
  • controla bem seus custos
  • utiliza os recursos de maneira eficiente
  • possui vantagem competitiva

Esse padrão costuma aparecer em empresas maduras, com modelo de negócio consolidado e boa disciplina financeira.

2. ROE alto e instável

Quando o ROE sobe e desce com frequência, a empresa pode estar:

  • enfrentando sazonalidade forte
  • lidando com margens instáveis
  • influenciada por eventos extraordinários
  • exposta a ciclos econômicos intensos

A volatilidade do ROE é um alerta para investigar o que está por trás dos resultados.

3. ROE baixo

Nem sempre é negativo. Pode significar:

  • reinvestimento pesado para financiar crescimento
  • patrimônio líquido alto em relação ao lucro
  • setor naturalmente menos rentável

Um ROE baixo precisa ser analisado em conjunto com o setor e com o estágio do negócio.

4. ROE negativo

Mostra que a empresa teve prejuízo. O foco, nesse caso, deve ser entender:

  • se o prejuízo é pontual ou recorrente
  • se há mudanças estratégicas em andamento
  • se a situação financeira é sustentável
  • se o setor está enfrentando um ciclo difícil

ROE negativo não invalida um negócio, mas exige análise mais profunda.

Como o ROE varia entre os setores?

Antes de comparar empresas, vale observar como cada setor trabalha com níveis diferentes de patrimônio, margens e ciclos de negócio. Isso ajuda a entender por que um ROE considerado alto em um segmento pode ser apenas mediano em outro.

SetorCaracterísticas do setorPor que o ROE tende a esse nívelFaixa típica de ROECuidados ao analisar
Bancos e Serviços FinanceirosMargens altas, forte alavancagem, baixo investimento em ativos físicosEstrutura de capital enxuta, receitas recorrentes, escala15% a 25%Endividamento pode inflar o ROE; ciclo de crédito altera lucros
Varejo e ConsumoCompetição intensa, margens comprimidas, giro elevadoEficiência operacional faz diferença; patrimônio nem sempre cresce rápido8% a 18%Sazonalidade e promoções podem distorcer ROE anual
Tecnologia e SoftwareAtivos leves, escalabilidade, margens altasAlto potencial de reinvestimento; crescimento rápido de lucros15% a 30%Empresas jovens podem ter ROE baixo por reinvestimento pesado
Energia Elétrica e InfraestruturaInvestimentos elevados, ativos de longa vida útilPatrimônio líquido alto reduz o ROE; lucros estáveis5% a 12%Regulação impacta margens e previsibilidade
Siderurgia e MineraçãoCiclos longos, capital intensivo, dependência de commoditiesPatrimônio elevado e margens voláteis reduzem o ROE5% a 15%Preços internacionais podem distorcer o lucro
SegurosMargens ajustadas ao risco, altas reservasCarteira financeira influencia o lucro; baixa necessidade de PL10% a 20%Oscilações em sinistralidade impactam ROE
Saúde e EducaçãoCrescimento orgânico, margens estáveisExpansão constante aumenta PL e reduz ROE no curto prazo7% a 15%Aquisições podem distorcer o patrimônio
Varejo FarmacêuticoGiro alto, margens moderadasModelo de negócio previsível com expansão contínua10% a 20%Alto número de unidades pode aumentar PL e reduzir ROE
Construção CivilCiclos longos, alto capital de giroPatrimônio crescido por reinvestimentos limita o ROE5% a 12%Sazonalidade de lançamentos altera o lucro
Agronegócio e AlimentosDependência de clima e commoditiesMargens variáveis; patrimônio elevado reduz ROE4% a 12%Safras fracas e volatilidade de preços interferem

O que é um bom ROE?

Não existe um número único que sirva para todas as empresas, já que cada setor opera com estruturas de capital e margens diferentes. Ainda assim, algumas faixas costumam orientar a análise:

  • acima de 10%: começa a indicar eficiência em diversos segmentos
  • entre 15% e 20%: mostra desempenho competitivo em setores mais estáveis
  • acima de 20%: revela um nível de retorno que se destaca, dependendo do contexto e da estratégia da empresa
  • acima de 30%: exige atenção, porque pode estar relacionado a fatores que não se repetem ou a um patrimônio muito reduzido.

Esses números ganham força quando observados em conjunto com o histórico. O ideal é verificar se o ROE permanece dentro de uma faixa saudável ao longo dos anos, mesmo diante de mudanças de ciclo, pressão de custos ou expansão do negócio.

Uma empresa não se define por um único ano de rentabilidade. O que realmente importa é a capacidade de entregar ROEs consistentes e sustentáveis, alinhados ao modelo de operação e às escolhas de investimento feitas pela gestão.

Como calcular o ROE?

O cálculo tradicional utiliza o patrimônio líquido do final do exercício. Porém, quando a empresa passa por mudanças relevantes ao longo do ano, é comum usar o patrimônio líquido médio para obter um retrato mais fiel da rentabilidade.

ROE = lucro líquido / patrimônio líquido médio

A média do patrimônio reduz distorções que podem surgir em situações como:

  • fusões ou aquisições que aumentam o tamanho da empresa
  • emissão ou recompra de ações, que altera a composição do patrimônio
  • prejuízos acumulados, que reduzem o PL de um ano para o outro
  • ajustes contábeis pontuais que impactam o valor registrado.

Os dados necessários para o cálculo estão na Demonstração do Resultado (DRE) e no Balanço Patrimonial, documentos divulgados periodicamente pelas companhias listadas.

Limitações do ROE que o investidor precisa conhecer

Embora seja um indicador importante, o ROE não capta todos os aspectos que determinam a saúde ou o potencial de uma empresa. Entre as principais limitações estão:

  • não mede risco financeiro ou operacional
  • não mostra a qualidade do lucro, apenas o valor final
  • pode ser artificialmente elevado por endividamento acima do ideal
  • ignora a geração de caixa, que é essencial para sustentar resultados
  • não diferencia lucros recorrentes de ganhos eventuais
  • perde utilidade quando patrimônio ou lucro são negativos
  • não permite comparar empresas de setores diferentes, já que cada segmento opera com estruturas próprias

Por isso, o ROE funciona bem como ponto de partida, mas precisa ser analisado em conjunto com outras métricas para que a avaliação seja completa.

ROE e valuation: como o indicador se conecta ao valor da empresa

O retorno sobre o patrimônio líquido tem relação direta com a capacidade de criação de valor no longo prazo. Aqui estão os principais vínculos entre ROE e valuation:

1. Empresas que crescem com ROE alto criam valor

Quando a empresa mantém um retorno elevado sobre o patrimônio e retém parte dos lucros, ela consegue reinvestir de maneira eficiente, ampliar receita e aumentar lucros futuros.

Esse ciclo reforça o valor intrínseco do negócio.

2. ROE acima do custo de capital (Ke)

Se o ROE supera o custo de capital próprio, há geração de valor para o acionista. Se fica abaixo, há destruição de valor – mesmo que o lucro pareça alto.

3. Impacto nos múltiplos de mercado

Empresas com ROEs elevados tendem a negociar com:

  • P/VP mais alto
  • P/L acima da média do setor
  • prêmios em múltiplos de fluxo de caixa

O mercado paga mais caro por negócios que reinvestem bem o próprio capital.

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ROE e crescimento de dividendos

A relação entre ROE e dividendos fica mais clara quando se observa como a empresa utiliza o próprio lucro. Um negócio com ROE alto e retenção de parte dos resultados tende a ter espaço para ampliar dividendos ao longo do tempo, já que reinveste de maneira eficiente e converte esses investimentos em lucro futuro.

Quando o ROE é alto e a empresa distribui grande parte do lucro, os dividendos costumam ser atraentes no presente, mas o potencial de expansão diminui. Isso acontece porque sobra menos capital para financiar crescimento orgânico.

Já um ROE mais baixo reduz a capacidade de reinvestir e sustentar aumentos consistentes na distribuição, o que normalmente limita o ritmo de crescimento dos dividendos.

Empresas maduras, com menor necessidade de novos investimentos, costumam apresentar uma combinação interessante: ROE estável, geração de caixa previsível e dividendos regulares.

Como escolher boas empresas usando o ROE?

O indicador ajuda a filtrar empresas eficientes, mas deve ser aplicado com cuidado. Veja o que observar:

  1. Histórico de ROE consistente: estabilidade importa mais do que picos isolados
  2. Comparação com pares do mesmo setor: evite análises cruzadas entre segmentos diferentes
  3. Estrutura de capital equilibrada: ROE alto com dívida excessiva exige cautela
  4. Crescimento sustentável: ROE estável + lucros crescentes é combinação poderosa
  5. Geração de caixa: empresas que transformam lucro contábil em caixa fortalecem o indicador
  6. Margens saudáveis: margens baixas podem comprometer o ROE no futuro
  7. Governança e previsibilidade: estratégias claras tendem a produzir rentabilidades mais consistentes

ROE alto e reinvestimento eficiente ajudam a sustentar o crescimento dos dividendos no longo prazo. Foto: Freepik

Outros indicadores que complementam o ROE

Para uma análise mais completa, combine o ROE com:

O ROE oferece uma boa visão sobre a rentabilidade, mas só mostra parte da história. Para uma análise mais completa, vale combinar o indicador com outras métricas que ajudam a entender a operação, o risco e a capacidade de geração de valor da empresa.

  • ROIC: avalia a eficiência operacional considerando tanto capital próprio quanto de terceiros. Ajuda a entender se a empresa cria valor acima do custo de capital
  • ROA: compara o lucro com o total de ativos. Mostra quão bem a companhia utiliza tudo o que possui para gerar resultado
  • Margem líquida, margem bruta e margem EBITDA: revelam a qualidade do lucro e onde estão os principais pontos de eficiência ou pressão de custos
  • Fluxo de caixa operacional: indica se o lucro contábil se converte em caixa, elemento essencial para sustentar crescimento e distribuição de dividendos
  • P/VP e P/L: relacionam preço de mercado e fundamentos, ajudando a avaliar se a empresa está negociando em níveis compatíveis com sua rentabilidade
  • Endividamento total e capacidade de pagamento: mostram até que ponto a estrutura de capital influencia o ROE e se a empresa mantém um equilíbrio saudável entre risco e retorno.

A força da análise está no conjunto, não em um único número. O ROE ganha muito mais sentido quando observado ao lado de indicadores que explicam como a empresa opera e de onde vem sua rentabilidade.

Como usar o ROE nas suas decisões de investimento?

O ROE é uma ferramenta poderosa para entender a rentabilidade de uma empresa e sua capacidade de criar valor a partir dos recursos dos acionistas.

Usado de forma contextualizada — considerando setor, histórico, endividamento, margens e estratégia — o indicador ajuda a identificar negócios eficientes, consistentes e com potencial de crescimento.

Mais do que procurar o ROE mais alto, o ideal é buscar empresas que mantenham retornos sólidos ao longo do tempo, com lucros previsíveis e estrutura financeira equilibrada. É essa combinação que sustenta o valor do negócio e fortalece a trajetória de quem investe para o longo prazo.

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