IGP-M pode bater recorde em 2020: entenda o que está por trás do fenômeno

Nas últimas semanas, a alta da inflação no Brasil vem ganhando bastante destaque no noticiário econômico, e o IGP-M tomou conta das manchetes.

Isso porque a inflação oficial, medida pelo IPCA, deve fechar o ano em torno de 4,21%, podendo ultrapassar 5,5% no início de 2021.

Mas a situação fica ainda mais alarmante se considerarmos este outro medidor da inflação: o IGP-M, que considera outros preços além do IPCA e ameaça chegar ao maior nível em mais de 25 anos.

Em 2020, o IGP-M já acumula alta de quase 22%; as projeções mais recentes colocam o índice acima de 24% e há risco de que o indicador supere a marca de 25% no início de 2021.

Mas o que faz o IGP-M disparar tanto e qual o impacto real para o mercado e os investidores? 

Neste artigo da Warren, vamos explicar as diferentes metodologias para calcular a inflação e como isso afeta os seus investimentos.

O que é o IGP-M?

o que é igpm, ilustração

A sigla IGP-M é um índice de inflação, a sigla para Índice Geral de Preços – Mercado. O índice é calculado desde 1989 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e representa uma média de três indicadores:

  • Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA-M);
  • Índice de Preços ao Consumidor (IPC-M);
  • Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M)

Neste cálculo, o IPA-M tem peso de 60%, o IPC-M, de 30%, e o INCC-M, de 10%.

Assim, o IGP-M é considerado um retrato mais amplo da economia real, pois considera o valor agregado dos insumos de produção e da indústria de construção civil ao preço final dos bens e serviços.

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Qual a diferença entre IGP-M e IPCA?

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), considerado a inflação oficial do Brasil, é publicado desde 1979 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 1985, o governo estabeleceu o IPCA como inflação oficial do país. Ao contrário do IGP-M, o IPCA monitora somente a variação de preços ao consumidor final — nas prateleiras de lojas e bombas de gasolina, por exemplo.

Em outras palavras, o IPCA reflete a inflação do varejo, já com os custos de produção consolidados, enquanto o cálculo do IGP-M leva em conta os preços de matéria-prima, energia elétrica e aluguéis

Assim, é natural que os índices tenham variação distinta, mas geralmente na mesma direção.

Outra distinção importante é a abrangência de cada índice. 

A base do IPCA são os hábitos de consumo de famílias com renda entre 1 a 40 salários mínimos residentes nas principais capitais e zonas metropolitanas brasileiras; já o IGP-M não considera essas restrições.

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Qual a importância do IGP-M e do IPCA para a economia?

Como explicamos acima, o IPCA é a inflação oficial do Brasil. Ele serve de referência, por exemplo, para o reajuste do salário mínimo e IPTU, cortes ou elevações na taxa Selic e limite dos gastos públicos.

O IPCA é também um dos indexadores de títulos públicos, como é o caso do Tesouro IPCA. Além disso, é bastante utilizado como parâmetro para o retorno de investimentos — frequentemente se fala sobre a poupança render mais ou menos do que a inflação oficial.

Por outro lado, o IGP-M não é tão usado como indexador de investimento, mas tornou-se referência para reajustes de contratos de aluguel e tarifas de serviços públicos, como energia elétrica (embora não tenha sido criado com esta função).

A influência do IGP-M sobre o mercado imobiliário tem suas raízes no período de hiperinflação brasileira no final do século XX. 

As variações constantes de preços nos supermercados tornavam o IPCA muito volátil para reajustar bens de oferta menos elástica, e os proprietários de imóveis viram no IGP-M uma representação mais realista de seus custos.

Porém, em razão da forte disparada do IGP-M em 2020, algumas imobiliárias já decidiram adotar o IPCA como referência para reajustes futuros. 

Esta medida ajuda a proteger tanto inquilinos quanto proprietários da distorção do índice.

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Por que o IGP-M disparou nos últimos anos?

A forte tendência de alta no IGP-M começou a ser registrada no final de 2017, e sofreu uma grande aceleração em 2019, como ilustrado pelo gráfico a seguir:

Fonte: FGV

Essa hiper escalada recente do IGP-M se deve principalmente a um fator: a alta do dólar

Desde janeiro de 2020, o dólar acumula alta de 26,46% em relação ao real. 

Se considerarmos um período mais amplo, desde o início de 2018, a moeda americana valorizou 55,53% ante a brasileira.

Como já mencionamos, os preços de matéria-prima e outros insumos industriais têm forte peso no cálculo do IGP-M. À medida que o real perde valor frente ao dólar, o preço de materiais e equipamentos importados sobe muito, encarecendo toda a cadeia de produção.

O câmbio alto incide, principalmente, sobre o cálculo do IPA (a inflação para o setor produtivo, excluindo-se a construção civil).

Segundo dados da FGV, o IPA acumula alta de 30,46% entre janeiro e novembro de 2020; no mesmo período, as matérias-primas brutas avançaram 61,15% com influência principalmente de commodities do setor agropecuário.

FONTE: FGV

Na variação mensal de novembro, itens como batata-inglesa (+47,83%), milho em grão (+21,85%) e farelo de soja (+21,26%) pressionaram o índice.

FONTE: FGV

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Como o mercado financeiro avalia a alta do IGP-M?

As previsões dos especialistas do mercado para o IGP-M vêm subindo nas últimas semanas. 

Segundo o relatório Focus, do Banco Central, a projeção do IGP-M para o final de 2020 passou de 20,47% em novembro para 24,09% em dezembro.

Alguns dos economistas consultados pelo Banco Central estimam um cenário ainda mais grave, em que o IGP-M encerraria o ano acima de 25%

Se estas projeções se concretizarem, o índice pode bater o recorde registrado em 2002, quando acumulou alta de 25,31%. 

Na época, a escalada também foi provocada por uma alta do dólar, diante das incertezas em relação às eleições presidenciais.

Vale ressaltar que o recorde acima considera um ano fechado (e não o acumulado em 12 meses) desde a implementação do Plano Real, em 1994. 

No período de hiperinflação da década de 90, o IGP-M chegou a ultrapassar 3.000% em um único ano.

Qual o impacto da alta do IGP-M nos investimentos?

Ao contrário do IPCA, o IGP-M não é tão popular como indexador de títulos da renda fixa

Os papéis do Tesouro atrelados ao IGP-M deixaram de ser emitidos em 2006, e os títulos já existentes têm prazo de vencimento em 2031.

Já no âmbito da renda variável, a alta do IGP-M pode favorecer alguns setores específicos da economia.

Como dissemos, o IGP-M é tradicionalmente usado como referência para reajustes do mercado imobiliário e também de fornecimento de energia elétrica, telefonia e alguns planos de saúde.

Geralmente, estes reajustes funcionam no regime de “aniversário” de um ano — quando o contrato completa doze meses em vigor, seu valor é multiplicado pelo IGP-M acumulado no período.

Assim, empresas que prestam serviços nestes segmentos se beneficiam do avanço do IGP-M. 

O aumento da margem de lucro é um fator que pode valorizar empresas que atuam nos setores mencionados.

A alta das commodities agrícolas também gera impacto sobre empresas do ramo alimentício

Por um lado, a valorização destes insumos favorece os rendimentos de grandes exportadoras de alimentos como carne bovina e soja; por outro, encarece a produção de alimentos processados, o que pode prejudicar as vendas se o custo for repassado ao consumidor final.

A alta do INCC também representa uma via de mão dupla para a construção civil: empresas que fornecem insumos como tubos de ferro e aço e condutores elétricos ganham com a valorização, mas as construtoras têm que arcar com os custos de operação mais elevados.

Por que a alta do IGP-M é perigosa para a economia?

Embora alguns setores possam se beneficiar da alta do IGP-M, é importante ressaltar que o encarecimento da produção simboliza, em última instância, uma alta da inflação para o consumidor final.

No cenário atual de recessão e desemprego recorde, uma inflação muito acelerada pode agravar a crise e trazer consequências para a estabilidade econômica e política do país.

Além disso, diante do quadro de profundo endividamento brasileiro, a alta da inflação eleva o risco de dominância fiscal: em termos simples, o governo não consegue utilizar a taxa de juros para conter a elevação dos preços sem encarecer a dívida pública.

Também vale reforçar que o principal motor para a escalada do IGP-M é a forte valorização do dólar, que ocorre por conta de uma fuga de capital estrangeiro do país. 

No contexto do mercado financeiro, isto significa que as empresas brasileiras estão recebendo menos aportes internacionais.

Todos estes fatores contribuem para agravar a percepção de risco do Brasil no mercado internacional. 

Se o país chegar a um ponto crítico de crise de credibilidade, a economia pode entrar em uma espiral ainda mais descendente de recessão e desvalorização da moeda.

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Como proteger os investimentos do IGP-M alto?

como investir igpm em alta, ilustração

Para investidores mais conservadores, uma opção para proteger seu dinheiro é investir em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), que são títulos de renda fixa lastreados em investimentos no mercado imobiliário.

Existem CRIs de taxa pré-fixada e pós-fixada, e a rentabilidade varia. Seu retorno geralmente é representado como porcentagens do CDI, então vale a pena acompanhar a taxa DI para fazer a melhor escolha.

Também na renda fixa, é possível investir em Letras de Crédito Imobiliário (LCIs). 

Seu mecanismo é essencialmente o mesmo que os CRIs, mas são emitidos por securitizadoras, em vez de bancos.

Porém, como explicamos anteriormente, é mais comum encontrar agentes do mercado imobiliário adotando o IPCA em vez do IGP-M para reajustar contratos. 

Já para investidores de renda variável, uma alternativa é aplicar em fundos imobiliários (FIIs), que podem investir tanto em imóveis reais quanto em ativos lastreados em imóveis (como hipotecas, LCIs e CRIs).

Investidores experientes e arrojados também podem optar por ações de outros setores que se baseiam no IGP-M para reajuste — mencionamos acima energia elétrica, telefonia e planos de saúde.

Contudo, vale lembrar que muitas destas empresas operam por meio de concessões, e estão sujeitas a intervenções do governo para manter o equilíbrio dos preços.

Outros investimentos que costumam ser recomendados em cenários de inflação alta estão os próprios ativos reais, como as ações, que representam empresas listadas na Bolsa, e outros ativos considerados por alguns investidores como reserva de valor, como o ouro.

Por fim, vale destacar que a disparada do IGP-M é, acima de tudo, uma distorção causada por uma falha do mercado de câmbio e agravada pela crise global causada pela pandemia. 

É difícil prever até que ponto o índice irá escalar, mas é bastante provável que o governo e os mercados tomarão medidas para conter o avanço e normalizar os preços.

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