Evergrande: como a crise na gigante chinesa impacta o investidor da bolsa brasileira?

Nos últimos dias, a possibilidade de uma crise de solvência da Evergrande, a segunda maior incorporadora imobiliária chinesa, ganhou maior destaque nos principais jornais, aumentando a aversão ao risco dos investidores nas bolsas mundiais.

Você provavelmente já deve ter ouvido falar daquela lenda do gato que possui 7 vidas. 

No mercado, a Evergrande tem sido comparada a esse mito, devido às suas crises de liquidez ao longo de vários anos. 

Por várias décadas, vendedores a descoberto têm vendido suas posições na incorporadora de Hong Kong, no entanto, em todas essas situações a companhia sobreviveu.

O problema da analogia do gato é que, com o passar dos anos, ele acabou engordando demais.

E, desta vez, a combinação da nova companhia de “Prosperidade Comum” da China somada à repentina retirada das opções de financiamento da cadeia de suprimentos pode acabar esticando a corda para a Evergrande. 

Aquele gato precisou correr com a sua dieta o mais rápido possível e agora corre um grande perigo de vida. 

Existem muitas contas a pagar e um cenário macroeconômico não muito animador para captar receitas.

Nesse texto, reunimos o melhor dos mundos, através de um trabalho em equipe realizado pela nossa área de Investimentos da Warren para colocar você a par dessa situação que tem movimentado o apetite ao risco nos últimos dias. 

Participaram desse texto: Iago Souza e Frederico Nobre, da Warren Análise; Igor Cavaca, head da Warren Asset; e Carlos Macedo, da Asset Allocation.

Para começar essa análise, vamos entender quem é essa empresa que virou o centro das atenções do mundo inteiro nos últimos dias.

Quem é a Evergrande?

Quem é a Evergrande, ilustração

A Evergrande Real Estate (traduzido do chinês “Heng Da Group”) é uma das maiores incorporadoras chinesas. Segundo o site de “Investor Relations”, existem mais de 778 projetos em andamento em mais de 223 cidades em toda a China.

Fundada pelo ex-executivo siderúrgico Xu Jiayin no sul da China em 1996, a Evergrande é a segunda maior incorporadora imobiliária da China em vendas. 

Segundo a consultoria Capital Economics, no final de junho deste ano, a Evergrande se comprometeu a construir o equivalente a cerca de 1,4 milhão de propriedades individuais.

O grupo também vai muito além da construção civil. 

Seus negócios possuem investimentos em veículos elétricos (Evergrande New Energy Auto), uma unidade de produção de internet e mídia (HengTen Networks) e um parque temático (Evergrande Fairyland). 

A Evergrande é também um nome familiar para os fãs de futebol chinês, dado que é dono do maior time do país — o Guangzhou FC.

Com mais de 200 offshore e quase 2.000 subsidiárias domésticas, a Evergrande atingiu muitos setores da economia chinesa em crescimento, fazendo de seu fundador um dos membros mais ricos das elites empresariais da China. 

De acordo com a revista Forbes, Xu tem uma fortuna pessoal de cerca de US$ 10,6 bilhões.

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Uma visão geral do cenário imobiliário chinês

A crise da dívida da Evergrande Group chamou a atenção do mundo para a saúde do mercado imobiliário chinês. 

A China está sobrecarregada com uma enorme quantidade de casas vazias, inacessíveis e/ou prédios inacabados. 

Para você ter uma dimensão do cenário, em agosto, 15 prédios de apartamentos inacabados foram implodidos na cidade de Kunming, no sudoeste do país, com 85 mil implosões controladas em menos de um minuto.

A construção já foi o motor do crescimento econômico chinês, e ainda representa 29% do PIB da China. O endividamento astronômico de Evergrande é apenas um sintoma desse superendividamento sistemático.

De acordo com dados divulgados pela Rushi Advanced Institute of Finance, os preços dos condomínios na cidade de Shenzhen, ao sul, são agora 57 vezes a renda média anual e 55 vezes a renda em Pequim. 

Para fins de comparação, mesmo durante o auge da bolha econômica do Japão na década de 1990, os condomínios de Tóquio eram negociados a 18 vezes a renda média anual.

Segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), o crédito ao setor não financeiro da China cresceu dois dígitos nos últimos cinco anos e atualmente ultrapassa US$ 35 trilhões

Além disso, a proporção da dívida privada em aberto em comparação com o produto interno bruto é agora de 220% na China, ultrapassando os 218% do Japão no auge de sua bolha.

Com o preço de casas fora do alcance das famílias de renda média, os investidores temem que o presidente chinês possa tomar medidas para esfriar a “bolha”. 

A especulação ganha mais força ao considerarmos a nova campanha de “Prosperidade Comum“, lançada em agosto, que prevê uma economia mais justa e baseada no compartilhamento dos frutos de desenvolvimento, com objetivo de combater a desigualdade na China.

Um mercado imobiliário muito caro, no entanto, é um obstáculo sério para o plano do presidente chinês. 

Com o setor imobiliário respondendo a cerca de 30% de todos os empréstimos pendentes no país (uma cifra que é maior que os 21% do Japão em 1990), existe um risco enorme de execução à frente. 

O manejo incorreto dessa situação pode levar a economia chinesa a uma desaceleração econômica nos próximos anos.

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O que o governo chinês está fazendo?

No verão de 2020, o Banco do Povo da China (PBoC) traçou três “linhas vermelhas” que as grandes incorporadoras imobiliárias precisavam observar em termos de sua situação financeira. 

Ao forçar as empresas imobiliárias a permanecer dentro de uma determinada relação “dívida / ativo”, o banco central chinês procurou dificultar que esses incorporadores aumentassem a alavancagem e despejassem dinheiro em um mercado imobiliário já aquecido — de forma a normalizar o preço das casas no país.

Para o governo chinês, o maior temor é um efeito potencial de contágio que pode afetar toda a economia chinesa

O agravamento da relação geopolítica com o Ocidente também é uma das preocupações, visto que sua campanha de “Prosperidade Comum” já levou a temores de uma desaceleração sustentada na segunda maior economia do mundo.

Há uma expectativa na China de que Evergrande não terá o apoio total do governo

No entanto, precisamos considerar que muitas famílias chinesas compraram propriedades do plano de construção e elas podem perder seus depósitos se a empresa entrar em colapso.

O tema é sensível e divide opiniões ao redor do mundo, mas acreditamos que, a intervenção do governo, se houver, será no sentido de salvar a nação e não a de salvar uma empresa.

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A Evergrande pode falir?

A Evergrande pode falir, ilustração

A Evergrande, que está atualmente à beira de uma inadimplência, tem dois cupons de juros de dívida vencidos este mês. 

Espera-se que a empresa pague cerca de US$ 84 milhões em seu título esta semana, enquanto outro pagamento, no valor de mais de US$ 47 milhões, por um título diferente, vence em 29 de setembro de 2021.

Muitos investidores provavelmente terão pelo menos alguma exposição à Evergrande, porque os títulos da empresa são componentes importantes dos índices que rastreiam dívidas denominadas em dólares de empresas asiáticas.

No entanto, embora o montante exato ainda não seja claro, já existe um entendimento por parte do mercado de que os títulos de dívida do grupo negociados em mercados fora da China representam uma pequena proporção de suas muitas maiores obrigações com credores e empresas chinesas, que totalizam US$ 300 bilhões

Dessa forma, o maior impacto de um calote seria no mercado doméstico chinês

Com o objetivo de acalmar os nervos do mercado e evitar o contágio para a economia real ou para outros setores, o Banco Central Chinês já resolveu atuar e injetar 18,6 bilhões de dólares (CNY120 bilhões) no sistema bancário. 

Se a Evergrande não honrar com a dívida, seus credores deixariam de receber juros e isso colocaria em xeque a confiabilidade do mercado imobiliário chines. 

O entendimento do mercado é de que provavelmente Pequim irá intervir e tranquilizar a situação, participar da reestruturação ou até mesmo nacionalizar a Evergrande.

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Qual o impacto da crise para quem investe?

O advento da globalização permitiu escalar e desenvolver as economias, mas a maior integração também trouxe o “ônus” e o “bônus”. 

A crise da Evergrande, apesar de ser regionalizada, tem potencial de afetar os mercados mundiais, senão pelos efeitos diretos, como transações com algumas outras empresas globais, pela via indireta, com aumento da incerteza e aversão ao risco, situação que já estamos acompanhando no mês de setembro.

Em momentos de crise, observamos um aumento da correlação dos ativos de risco. 

A situação tende a ser mais intensa no mercado chinês, que apesar dos esforços de abertura da economia, ainda possui um mercado concentrado e regulado.

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Corremos o risco de ver uma difusão parecida para outros setores assim como o “Leman Brothers” em 2008? 

Acreditamos que os impactos tendem a ser menores, apesar da forte globalização e expansão da produção chinesa, a economia ainda é fechada e fortemente regulada pelo governo, tendendo a uma concentração regional. 

Quando olhamos para os credores e investidores da Evergrande, a maior parte está localizada em empresas estatais do país asiático, o que torna necessário o acompanhamento das autoridades para evitar efeitos mais negativos. 

As ações tomadas na Crise Financeira de 2008 tiveram diversas consequências e com certeza serão avaliadas antes de ações ou inações realizadas pelas autoridades. 

Não enxergamos o potencial de um transbordamento tão intenso, mas acredito no mal-estar mundial que a incerteza pode gerar.

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Como a bolsa brasileira pode ser prejudicada por esse evento de mercado em outro país emergente?

Como a bolsa brasileira pode ser prejudicada por esse evento de mercado em outro país emergente, ilustração

Quando um país emergente é afetado por um choque financeiro, é comum observarmos transbordamentos para as outras economias emergentes.

Isso aconteceu na crise da Rússia, México, Argentina, entre outras no passado. 

Esse movimento está relacionado à aversão ao risco global e à busca por “portos seguros” financeiros. 

À medida que a situação se aprofunde, os impactos tendem a atingir o Brasil, que já passa por uma situação econômica mais fragilizada.

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