Selic mantida em 2% ao ano: veja os impactos na renda fixa

Após uma sequência de nove cortes, o Banco Central manteve a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 2%.

Em linha com o mercado aguardava, o anúncio ocorreu depois da reunião desta quarta-feira, 16 de setembro.

Na prática, a Selic continua no seu menor patamar histórico, abaixo, inclusive, da inflação, o que traz diversos desafios para os investidores.

Na renda fixa, por exemplo, é preciso criatividade — e até tomar mais risco — para conseguir rendimentos superiores à inflação, que mantenham o poder de compra no longo prazo.

Afinal, como investir nesse cenário de Selic na mínima histórica, e o que o Banco Central sinalizou na reunião desta quarta-feira?

Vamos entender melhor a seguir.

O que significa a taxa Selic em 2%?

A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia. Ela é a referência utilizada pelo mercado financeiro e impacta diretamente o comportamento de outros indexadores como o CDI.

Para definir o valor da Selic, o Banco Central leva em consideração, principalmente, o controle da inflação.

A lógica é fácil de entender: quando a taxa de juros cai, o crédito fica mais acessível e a oferta de dinheiro no mercado aumenta. Quando a taxa de juros sobe, a consequência é menos dinheiro em circulação.

Por isso, essa taxa é um dos principais instrumentos do Banco Central para manter a Selic na meta estipulada na política monetária. 

Em queda desde 2016, a taxa Selic foi reduzida de forma drástica pelo Banco Central em 2020, como uma das medidas para atenuar os efeitos da pandemia e facilitar o acesso a crédito no mercado.

O corte mais recente ocorreu em agosto, quando a taxa caiu para 2%. Para você ter uma ideia, o valor era de 4,5% em dezembro de 2019.

Observe como é realizado o horizonte de controle de inflação na figura abaixo.

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Fonte: Banco Central.

Mas a Selic não impacta apenas na inflação.

Como você sabe, a taxa de juros exerce enorme influência sobre os fluxos de investimento no país, já que muitos indexadores são atrelados a ela.

Vamos entender melhor como a Selic afeta os seus investimentos?

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Como ficam os investimentos em Renda Fixa?

A rentabilidade de diversos produtos de Renda Fixa é afetada pela taxa Selic. Alguns, inclusive, passam a não ser mais interessantes de se investir com Selic neste patamar.

A caderneta de poupança já é um produto ruim faz um bom tempo e, agora, fica ainda pior!

Confira, a seguir, os impactos da queda da Selic em alguns destes produtos:

Poupança

A caderneta de poupança, aplicação financeira mais popular entre os brasileiros, teve uma captação líquida de R$ 37,2 bilhões em maio de 2020, segundo o BC.

Este é o maior valor de toda série histórica do banco central desde 1995. A fácil liquidez e o receio de “perder dinheiro” em outras modalidades é um dos motivos que levam à uma quantidade recorde de depósitos em meio à crise.

Mas precisamos chamar atenção para o seguinte fato: você estará perdendo dinheiro ao fazer isso agora. Mas por quê? 

Com a taxa básica de juros em 2%, ela se aproxima ainda mais da expectativa de inflação para 2020, que é de 1,94%, segundo o relatório Focus mais recente.

O cálculo do retorno da caderneta de poupança é de 70% da Selic. Com a taxa de juros a 2% ao ano, a modalidade de “investimento” trará um retorno de 0,11% ao mês, a partir da semana que vem.

Entretanto, para o cálculo do rendimento real, precisamos levar em conta o IPCA. Previsto para 1,94% até o final de 2020, o índice de inflação até poderia fazê-lo perder o poder de compra neste ano (e até mais caso a inflação acelere ao longo do ano).

É o cenário de juro real negativo no Brasil, o que era algo impensável há alguns anos

Para o ano de 2021, o boletim Focus já está estimando um retorno real negativo para a poupança. Você perderia mais do que ganharia, entendeu o raciocínio?

Isso acontece devido a perda do poder de compra do consumidor causada pela inflação, o qual acabou encarecendo os custos da cesta de produtos e serviços.

Títulos públicos

Os títulos públicos indexados à Selic também são diretamente afetados pela taxa de juros. 

O Tesouro Selic é uma modalidade que tem se tornado um destino popular para investidores guardarem sua reserva de emergência.

É seguro, tem liquidez imediata e não tem risco de apresentar um retorno bruto negativo, como os títulos atrelados ao IPCA+, por exemplo.

O Tesouro Selic está rendendo cerca de 2% ao ano, o mesmo valor da Selic. Descontando o valor da inflação, o rendimento real é positivo, embora seja um retorno bem modesto.

Títulos do crédito privado

Como o próprio nome já diz, ao invés de emprestar dinheiro para o Governo Federal, emprestamos para empresas privadas.

Para essa modalidade, a definição da taxa Selic se faz essencial, pois é ela quem vai balizar os contratos para o crédito privado. E como o risco aqui é maior do que investir em Títulos Públicos, acabam remunerando mais que os mesmos.

No caso de instituições financeiras, o investimento se dá através de CDBs (Certificado de Depósito Bancário).

Por se tratar de uma média da taxa de juros de empréstimos entre bancos, aqui é utilizado o CDI ao invés da Selic.

O Certificado de Depósito Interbancário costuma acompanhar de perto o movimento da Selic. E, geralmente, quanto maior a instituição, mais seguro será o investimento e, consequentemente, menor tenderá a ser a rentabilidade acordada (e vice-versa).

Por isso, para obter maiores retornos na renda fixa, você precisa necessariamente correr mais riscos — ou deixar o seu dinheiro preso por mais tempo.

Já as debêntures funcionam da mesma forma que os CDBs, sendo utilizadas para instituições não financeiras como uma forma de captar créditos para investimentos próprios. 

Os títulos de crédito privado andaram sofrendo em 2020 com a corrida pela liquidez e, também, por uma abertura pontual da curva de juros.

Em março, quando os preços dos ativos do mercado despencaram por conta da pandemia, os preços das debêntures, assim como as cotas dos fundos de crédito viram uma desvalorização considerável.

Até fundos conservadores viram o seu desempenho virar de cabeça para baixo e atingir cotas negativas.

Entretanto, há de se considerar que, em um cenário de uma queda, jamais vista na taxa de juros, esse pode ser um momento para os títulos de crédito privado se destacarem no mercado de Renda Fixa.

Prova disso é que boa parte dos fundos já se recuperou da queda verificada no mês de março.

E a Bolsa de Valores continua sendo uma boa oportunidade?

Quando o Banco Central reduz a taxa Selic, impacta diretamente sobre os retornos dos investimentos de renda fixa.

Como resultado, os investidores tendem a procurar investimentos com maior potencial de retorno, como é o caso da Bolsa de Valores.

Isso fica claro quando enxergamos a evolução do número de investidores na Bolsa de Valores. Esse dado é atualizado mensalmente pela B3 e também vem batendo recordes mensalmente, com a ascensão iniciada em 2017.

Atualmente, já há mais de 2,8 milhões de CPFs cadastrados em corretoras de valores com ações na Bolsa.

Effective Lower Bounds

Existe algum limite o qual o corte da taxa de juros passe a ser contraproducente? Qual limite da política monetária do Brasil? A esse estudo atribuímos o nome de “Effective Lower Bounds”.

A teoria propõe que existe um limite para a taxa de juros na qual, caso ultrapasse, a redução deixa de causar efeito sobre as outras variáveis econômicas que ela busca afetar, como a inflação e o crescimento do PIB.

O BC tem espaço para cortar juros na medida em que a inflação vai se descolando da meta para baixo, mas, principalmente em economia emergentes, o prêmio de risco também tem de ser levado em conta devido ao risco de fuga de capital. 

Nesse processo, o Banco Central está sempre avaliando os indicadores para chegar uma correlação desse limite do processo de definição da taxa básica de juros.

Confira, abaixo, a evolução da taxa Selic nos últimos anos.

Os cortes acabaram? Qual é a perspectiva daqui pra frente?

O mercado financeiro já havia manutenção da taxa básica de juros em 2%. O consenso entre os analistas se materializou, a exemplo do que ocorreu em agosto, quando o mercado aguardava um corte.

Na nota divulgada à imprensa, o COPOM afirmou que a inflação deve se elevar no curto prazo, mencionando os preços dos alimentos como uma das justificativas para esse cenário.

Diante disso, o Banco Central afirmou que há pouco espaço para mais cortes na Selic.

Embora afirme que a atual conjuntura econômica exige um estímulo monetário elevado, o Banco Central reconheceu que ” devido a questões prudenciais e de estabilidade financeira, o espaço remanescente para utilização da política monetária, se houver, deve ser pequeno”.

Além disso, o comitê do Banco Central disse que não pretende elevar a taxa Selic. Isso só acontecerá se a inflação realmente acelerar e se aproximar da meta do Banco Central.

A tendência, portanto, é de estabilidade da taxa Selic em 2%, com olhares atentos à inflação.

Sejam quais forem as decisões do Banco Central no futuro, o fato é que você precisa fazer uma alocação inteligente do seu patrimônio, para garantir que não perderá poder de compra.

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